domingo, 5 de julho de 2026

Práxis

Entre as vísceras do poema,
por entre as entrelinhas, nas
entranhas do âmago dos
versos, lá, ao longe, de onde
nasce e surge toda a sombra
ou sorte de cores cinzas e
púrpuras que colorem sua
escrita, ali, entre penumbras,
se abriga e habita o poeta.
E aqueles que encontram seu
esconderijo, ao voltarem de
lá, não voltam, ficam para
sempre achando terem 
escapados. Mas jazem lá 
suas almas, sepultada e vivas.
E delas o poeta se alimenta e
municia sua poética e afia a
lâmina do aço de sua verve
nos crânios das almas cativas
para poder produzir mais
versos e para que sua poesia
possa fazer mais vítimas.
Esse poema é carne, leitor, e
sua alma pertence agora a 
esse corpo poético.

Versos Saturnais

Meus versos são máscaras
vivas, másharas, alegorias
místicas que usam meu
rosto e face como traje,
usam minha cara de poeta
como fantasia para suas
festas regadas a drogas,
sodomização da métrica e
sexo entre deuses e Eles.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Degeneração

O morrer inventou a morte,
                                    a morte
o poeta,
o poeta     inventou a solidão,
                                    a solidão 
a poesia...
a poesia tende a matar Deus...
                                           Deus,
o inventor de Homens,
horríveis bestas, da natureza
a criatura mais feia, a única
a ser facínora:
Da poesia ao poeta:
deves criar um criador
sem jamais cair em redundâncias,
parece impossível porém:
o Homem criou Deus,
inventado à sua imagem
e exata semelhança.

domingo, 28 de junho de 2026

Aeternalismo

Escrevo a vida, porém,
confidencia a morte minha poesia.
Escrevo para não morrer.
O que quer dizer que escrevo a
eternidade.
O que seria do prassempre que
haverá eterno,
se não fosse esse instante que
acaba agora?

sábado, 27 de junho de 2026

Que permanece por muito tempo no mesmo lugar

Deus é um morador de rua,
um mendigo, um pobre Diabo.
Vive de esmolas, moedas, migalhas.
O pão dele de cada dia você não 
deu hoje, não é mesmo?
O pão dele de cada dia depende da
boa vontade dos transeuntes que
por Ele passam.
A caminho da igreja você passa
apressado, ignora, passa por cima,
atropela, violenta, agride, manda 
ao inferno... põe fogo.
Chega sobressaltado ao destino,
senta-se buscando abrigo e consolo.
Ora, reza, pede, chora e se emociona,
sente-se acolhido, como um escolhido
entre milhões.
Contribui generosamente com o 
dízimo, deixa o pastor, o padre, a igreja,
deixa a igreja mais rica, feliz, satisfeita.
No caminho de volta para casa prefere
ir por outra rua, para não ter de cruzar
de novo com àquele desgraçado,
vagabundo, que nada faz senão deixar
o mundo, a vida, um lugar mais feio
e sujo.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Prescrevo

O silêncio 
me falta
sempre
quando
eu não 
tenho a
palavra:

É quando 
sempre escrevo.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Doxaxioma

Com sangue entre linhas,
a relação entre a poética,
sua poética, e o poeta:
às vezes as vestes de um
protege a nudez do outro...
não do frio do aço dos
versos, mas do olhar de
cobiça da métrica.
Os versos e a verve vivem
em promiscuidade com
uma (assombrosa) sombra
da métrica abolida e escorraçada.
O vermelho em meu tinteiro 
sugere que minha pena é
assassina e que esse poema foi
escrito com sangue...
mas não houve morte alguma,
por ora não, não nessa hora,
e a tinta no tinteiro é sangue do
poeta suicida, quem escreveu estes
versos. Mas o poeta não se matou,
pois não há morte segura para Ele,
nem mesmo a auto-infligida:
-vale mais a vida - dizia a sofrer -
falha-me a vida - sentia-a a viver -
minha morte é um poema que só 
eu posso escrever, uma vez que 
me encontro poeta e minha vida
nunca foi poesia:
Deus não soube escrever tais versos 
e o Diabo tampouco, e eu sequer 
me dei a querer...não sei escrever...
desenho esse poema a vermelho,
feito de versos a sanguínea, são a
exata semelhança de tudo:
a morte um desenho feito a mão,
um autorretrato ao invés de algum
qualquer poema épico.


domingo, 21 de junho de 2026

Admoestações

Primavera estéril de 
flores natimortas;
Verão de um gélido 
frio do Éden;
Outono de árvores
mortas e fudidas;
Inverno quente infernal.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Todopoesia

Deus é leigo em Humanidades:
Fodam-se os Homens! 
nessa mesma linha, eu se fosse
Deus, seria (leigo) em decassílabos:
Foda-se a Métrica!
na mesma proporção se o universo 
todo fosse todo poesia.

Didática

Um lance de dados sugere o acaso,
jamais abolirá o imponderável,
pelo contrário, corrobora, sugere
arbítrio livre. Entretanto, teu Deus 
que não existe me persegue, e eu
que não creio em Édens, nessa fria
descrença, me aquece a ideia do
inferno que me espera...
do outro lado do tabuleiro, 
a bondade que não se encerra,
tampouco o poder e a glória, nada
são, nada fazem, pra nada servem:
Deus não se desespera diante do
seu povo vil e pusilânime que se
alimenta de Guerra, Deus colabora,
os inspira, dá forças, motiva e
proporciona a vitória:
Deus Salva. Deus Mata. Deus Vive.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Polegada Alguma

Por onde ando
não arredo o
pé do passo.

Do tato para comigo
do espaço ao redor
perpassado por cada
passo dado não abro
mão de polegada
alguma:

ser um habitat do horizonte,
um meio para o ambiente 
sentir-se personificado.

Me encontro sempre comigo,
quando parto, no lugar de
destino, eu toda vez estou
lá já me esperando. Quando 
não vou, morro sozinho e
fico como fantasma me
assombrando na origem...

por isso preciso partir,
ir para libertar minha alma.



sexta-feira, 12 de junho de 2026

Ensaio

Às vezes quase sempre sinto
que eu sou um, não um, mas
o livro que a tristeza universal 
escreveu. Vige dentro de mim,
só eu o leio. 
Da alegria da humanidade toda,
de uma maneira geral, eu sou,
nada posso ser senão escárnio.
Da crença de muitos sou ironia.
Do resto de mim que não está 
no livro eu sou poeta outonal
que só sabe escrever invernos
e da tristeza ensaios.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Máximas

Uma ânsia estúpida 
de tentar, ou achar 
que se pode explicar
tudo, de saber sobre
ou de decodificar tudo.
Para tudo há uma explicação,
eis a máxima.
-Por que existe sempre
uma resposta para 
tudo? - pergunta angustiada 
a garotinha com uma
Bíblia na mão - não faço
ideia - responde o pai,
lendo Sócrates através 
de Platão.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Não Caminham comigo

Não aguento mais ouvir o que tanto 
calo aqui dentro. 
Asfixia-me.
Asfixiam-me.
Preciso gritar, mais quem irá me
ouvir, se jamais prestam atenção
(ou prestam demais) ao silêncio 
alheio? E já não podemos dizer nada.
E se vivo emudecido é porque jamais 
fui um deles, pois não suporto mais
ter de (de ter de) escutar o que tanto
dizem, muito embora sejamos
semelhantes porém, pois o que tanto 
dizem é sempre autoafirmação, 
e o que muito calo também.
Arrancaram-me a voz da garganta.

Acaso e Ocasião

Acorre o tempo - socorra-o -
perdeu-se em si ad infinitum,
pois ocorre que depois de
amanhã foi ontem, enquanto 
anteontem será amanhã,
então sendo assim, quando 
poderá ser jamais que dia
é hoje? A data está próxima,
entretanto, entre tantos dias,
esse momento, agora pouco,
por um instante aludia que
nunca será será, como sempre 
não mais, somente acaso e ocasião.
Pois bem, Eternidade, isso é tudo
o que há, e foi pouco, pois o tempo 
que passou desde que chegaste ao
fim, já é deveras maior, e se o
tempo que passou é irreversível,
é porque o dia de amanhã não 
se pode mudar...
sempre como não mais.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Magnum Opus Posthumous

Deles para com os demais,
outros animais e nós mesmos,
a regra:
futuro é extinção!
A humanidade em guerra,
os Homens e máquinas
aniquilam-se ambos,
mutuamente toda vivalma
cai por Terra em redundante 
matança:
nações contra nações,
crenças contra crenças,
povos contra povos,
Homens contra Homens:
soldados, todos soldados 
assassinos, todos soldados
mortos.
Morreram e mataram-se todos.
A humanidade toda, isto é,
todos os humanos foram
por Eles mesmos aniquilados:
crianças, jovens, mulheres e
homens, idosos, em
absoluto, absurdamente 
todos mataram-se.
Todos morrem na guerra,
cada santo, religiosamente,
um seguido do outro.

Um dia após o fim do mundo,
apesar dos escombros entre
fumaças, e dos monturos 
pútridos de toda sorte de
carcaças humanas, já era
possível observar e sentir 
alguma paz. 
Não existe mais humano algum,
apenas, percebia-se pela
destruição, sinais de que passaram
e habitaram por ali.
No decorrer dos dias o que se
pode perceber é que uma paz
sublime, sobre-humana,
tornava-se cada vez mais
evidente:
não haviam mais Homens,
não haviam mais Homens,
não haviam mais Homens,
por todo o horizonte não 
se viam mais Homens.



domingo, 7 de junho de 2026

Rosasquerosa

Despe-se de pétalas de rebeldia,
como plumas, vestes de mais um
carnaval suprimido, de uma rosa
que insinua-se nua para um jardim 
todo conservador, e canalha 
em flores, canastronas todas 
dum jardim vítreo, falso imaculado,
e em um canteiro um palco, 
e a rosa em dança desabrocha
asquerosa, ímpio glamour
aos olhos de uma plateia toda
pura e santa, também um público 
de sádicos jardineiros, deuses
para as flores. A rosa arrasa e
morre tendo tido carrega sua
prole em pólen por abelhas
libertárias.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Um Fim em Si Mesmo

Mantenha-se em pé para
prontamente caminhar,
ou então mate-se antes,
ou ante o temor de seguir:
Vá! Enfrente. O dia da
morte pode ser melhor 
do que o dia do nascimento,
porém, morrer antes da 
hora é viver tardiamente.
Viva agora! Seja, já é tempo,
ouse ser, sempre, seja o que
for, mas seja, ou senão não 
saberá nunca o que vem a
ser a vida que existe além 
desse, ' e se, ou se...', não 
permaneça incólume, nem
percorra tua existência como
uma incógnita, não hesite,
excite, exerça sempre o que
não se pode ser jamais por
mais ninguém, exceto você.
Apenas você terá de fazer,
execute si mesmo.

domingo, 24 de maio de 2026

A Maldição

Os que vivem pela poesia
morrerão pelo frio fio do
aço do próprio verso.
Morrer de poesia, pelas
mãos da própria poesia 
morrer, quem diria, um
poeta que tanto quis servir
a poesia, que tanto quis 
vê-la livre e fê-la livre, a
primeira coisa que Ela fez
ao desvencilhar-se das
amarras da métrica foi
matá-lo, envenenou sua
verve e serviu para ele como
se fosse um doce e inofensivo 
verso.

O corpo do poeta jamais foi
encontrado, e dizem que sua
desgraçada alma habita cada
um de todos os seus poemas,
e que ao serem lidos, ela passa
a assombrar pelo resto da vida
e a habitar os pensamentos do
leitor desavisado que teve a
infelicidade de ler tão 
desgraçados e malditos versos.

Coalizão

Não quero contato imediato
pacífico, espero destruição,
quero colisão, quero um
choque abrupto de solidão 
intergaláctica, quero uma
união para ambos anularem-
se, quero apocalipse mútuo,
armagedom a dois para
toda alma solitária.

Nunca foi Deus

Nós criamos um
Deus imperfeito 
a nossa imagem 
e semelhança e
Ele nos arruinou,
porém, nunca
foi Deus, a culpa
sempre foi nossa.

Resistência

Utopia anacrônica:
de vanguarda pra ontem.
Pra sempre enquanto nunca.

Conducente

De um céu estrelado lá 
      em cima                  a
toda escuridão             a
toda aqui dentro:
alguma coisa               lá 
fora tem de ser verdade,
do mesmo modo como
aqui dentro tudo
         tende a ser
sempre de uma verdade 
insuportável.    

domingo, 17 de maio de 2026

Tenebrae

Olho sobre a tela e
me veria como Narciso 
se fosse a tela um
espelho d'água raso
de água turva, não 
vejo, o que vejo vejo
São Jerônimo escrevendo 
e me vejo observando o
velho como vejo a caveira 
me olhando (como se
fosse um espelho) da tela.


sábado, 9 de maio de 2026

adanad a

Não há desespero maior
do que perceber que a
miséria humana não só 
te orbita, mas também 
habita você. 
Não só oriunda de ti
como também te orienta,
dizem.
Para mim há algo mais
miserável ainda: criar
palíndromos que nada
dizem,
que nada são e que,
como todo palíndromo,
de nada servem.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pudera

Ninguém é todo mundo
enquanto todos desse
mundo, salvo outros,
são ninguém.
Ninguém é obrigado a
fazer tudo, no mundo
todo, menos eu e não 
tampouco, e então faço 
versos, e ainda que
sejam silêncios e digam
nada, de todo nada, é
esse nada, ou nesse nada,
toda minha filosofia.
Minha poética é outra
coisa: é tudo aquilo que
nada se é. Jamais poderia
ser diferente.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Reflexão

Olha a lua 
   lá...farol
   lar dos meus
Olhos
Olhar do céu 
noturno:
-Eu sou para
você como um
   girassol - me
confessa Ela
do que eu já 
me convenci.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Poema

Ser uma e outra coisa,
ser alguma coisa outra
e outra coisa alguma.
Ser poeta e poesia: poema. 

Ser Raimundo, rima e solução:
o poeta é um ser múltiplo e
singularíssimo, cada um 
único a sua maneira.

Era uma vez um poeta e
seus demônios, o poeta
queria ser Deus e seus

demônios diabos, do mesmo
modo como o Diabo quis ser
Deus um dia, e como Deus

sempre foi um Diabo.

O Poeta é o Diabo de um Deus
e um Deus dos Diabos:
alguma coisa outra e outra coisa
alguma.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Pão Nosso de Cada Dia

Deus escolheu
              colher,
          e  colheu,
o joio que
              cresce
por entre o
            trigo
que       cresce
pelos vastos 
campos do Éden.
O joio colhido 
por Deus é
entregue ao
Diabo,
e então o
pão que o Diabo 
amassou
nos alimenta 
diariamente.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

O Enterro do Céu

Juro adeus
junto ao
caixão de
Deus a se
velar. Eu
sorrio
infelizmente 
por não 
saber chorar.

Acometido de Si mesmo

Eu jamais executaria minha
solidão em público. 
Preservo-a. Sem mais...
Mas se eu expandir e explodir 
em violenta paixão e, se Ela, a
solidão tiver que morrer um
dia, matá-la-ei com minhas
impróprias mãos, nas sombras.
Além do mais, se isso vier a
ocorrer, digo que, no decorrer 
do tempo que resta aos demais,
essa gente toda jamais me verá
outra vez.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Último Dia de Morte

Se quando hoje não é o último 
dia e morre-se também, então 
hoje é quando vai ser o último 
dia: Hoje é Quando 
        Ontem é Sempre
e o   Nunca pertence toda vida
ao   Amanhã, 
e amanhã é quando hoje não é
o último dia.

domingo, 26 de abril de 2026

Destruição Mútua Assegurada

Como se Deus existisse, acreditamos.
E vivemos sob sua égide como se
Deus, Ele, não existisse.
Deus não existiu nem um dia sequer.
Indiferente a nossa vontade, jamais 
quis existir.
Deus desistiu de nós como se existisse,
ou como se não existíssimos para Ele.
E quando, ou melhor, toda vez que se
inventa Deus, Deus dá de ombros e 
segue inexistindo como se existisse de
fato em algum lugar qualquer ou
específico, ou em todos os lugares,
simultâneamente: Somente o nada
preenche tudo ao mesmo tempo.
Deus é nada, ou Deus não é nada?
Deus é Deus e basta, seja lá o que
isso quer dizer.
Deus insiste em não existir e resiste
fielmente a nada ser para todos, e a
ser tudo para muitos que acreditam
n'Ele, como que se, esse, pudesse
existir. Não existe e, desse modo, ou,
por isso mesmo, nada pode.
Eu assumo que não me apetece e
aceito que não existo para Deus, e
respeito. Espero que Deus me conceda 
a graça da reciprocidade.

sábado, 25 de abril de 2026

Suzugos

Amor
        é
Mar e
Amar
é como
         do
Mar a
maré:
Amar
        é
como
Amar
        é.

Soa Mar

Meu coração e alma
são um oceano só,
vasto porém, e
solitário duas vezes.
Desejariam, desejam
ser Mar apenas:
-Ah! Mar  Ah! Mar-
confessam ao
horizonte - o que
somos parece ser
maior, e é...
mas pouco porém,
porque não somos
Mar e  Mar e só Mar
é o que seria o bastante 
para nós,
o bastante se fossemos 
para nos acalmar.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Aja Naturalmente

Diante do desespero 
de outrem,
há já, naturalmente,
ensaios que dizem
como não agir com
espontaneidade:
Dissimule teu
Foda-se!

sábado, 11 de abril de 2026

Morrer de Amor

Um viva! ao amor.
Amor a me morder
Amor mor maior
Amor melhor
A me amar.
Amor mordaz
Daqueles que
a gente adora 
Morrer...
e quem aqui 
não morrerá?


Quaseres

Às vezes
as vezes
        não.
Quando
        não 
quase
       sempre 
nunca:     a
vida toda
uma vida
inteira.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Vocação

Antes da criação Deus vivia só.
Pensava por vezes ser nada, ou
servir pra nada, e quando muito 
triste, nada era. Agora, hoje,
depois de nos fazer:
Deus é tudo, tudo é Deus e Deus
pode tudo.
Deus arrependido e cansado de
resolver tudo, só queria sumir,
servir pra nada.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Destruição

Alimentar
Ódio com
Amor      é
terror
ismo.


segunda-feira, 30 de março de 2026

Mesmíssimos

Emite Luz
Imita Deus
Erradia Trevas.

Todo poeta é
um mímico em
um eterno
arremedo da
escuridão.

Mais mímese do mesmo.

Ímpeto Irresistível

Umedeço o bico da pena na tinta,
como poeta, como umedeceria meus
lábios no molhado pronunciado que
os lábios teus me expõe à boca...
e escrevo apaixonadamente poemas
como se estivesse a te chupar a
buceta toda.

sábado, 28 de março de 2026

Azuis desprezo

Se se
enceguece-se
abruptamente 
apenas por
olhar, veja,
eu ignoro,
eu ignoro
de olhos abertos 
azuis o Sol, e
perceba que
ignorar é deixar
no escuro quem
também irradia 
e s c u r i d ã o.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Enter Error

Toda certeza
soa à síntese
exceto axioma
ou inclusive.

sábado, 21 de março de 2026

Funeral

Tive um sonho e acordei em
desespero. Nesse sonho o
mundo era todo de entes
invisíveis e eu era um espelho.
Sonhei que Deus havia morrido 
e acordei vestido para o luto.
Fui ao enterro de pijamas como
eu havia dormido.

Eu nasci pra sempre

Eu nasci morrer.
Não nasci natimorto,
tampouco suicida.
Nasci morrer como
surge um mineral
sem vida, e que por
isso mesmo irá 
morrer jamais.

Sou uma rocha por dentro.

Comovida.
E o oposto 
de   outras
rochas onde 
musgos crescem
ao redor sobre.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Não-Ser

Queria eu ser
não ser humano.
Queria eu ser
um Não-Ser,
se a possibilidade 
única for apenas
pertencer à humanidade,
não desejo existir,
não quero ser humano.

Encosto

Como ontem foi
e como hoje está 
sendo, amanhã 
será o pior dia
da sua vida, 
e assim será 
ainda por muito 
tempo, até o
último dia,
até a morte.
Mas não se mate agora,
nem desanime, descanse,
pois lembre-se sempre
que Deus está e estará 
contigo a cada momento 
em todos os instantes.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Marmórea

De seda de Lótus o que
torna-se mármore era.
O toque sutil não mais
a pele macia sente,
agora é de impenetrável 
pedra a sensação que
tenho ao tentar acariciar 
a alma...
fria estátua amálgama o
corpo dela...
e à minha musa
petrificada meu coração 
se assemelha a Ela.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Teares

Descer à morte:
de se amar 
de ser maior.
Desejo de ser a morte,
descender em silêncio 
ou dizer:
diz ser a morte!
Te ser amor
Te ser o mar.
Desejo tecer a mor te...
ou ter ares de.

domingo, 15 de março de 2026

sexta-feira, 13 de março de 2026

Afinidades

A ver o que tem entre:
o molhado do orvalho 
sobre gramíneas quando 
a manhã dá-se ao dia,
e o úmido sob tuas
pálpebras quando arde
ou como se ardesse a
tristeza em tua objetiva.

Que não é Muito

Inverto a ação e devoro o vazio,
não deixo o nada me devorar,
canibalizo o meu vazio para
não virar banquete, pois
advirto que sou vasto 
porém:

Vasto como é o espaço entre
minha cabeça e o tamanho do
núcleo de um átomo, e o que
disso advém é variável conforme 
faço valer à força a força poética
de minha alma:

Ardorosa quando quer mesmo em
zero Kelvin até quando não mais
quiser ser calor e se dissipar à lá
como o som em Lá desfaz-se cada
vez mais baixo num diapasão,
soa assim a impressão que adere
invariavelmente aos meus versos
e, ademais, que diferença faz se 
sou assim ou não, isto é, diferente 
mesmo é só o inverso? 
E os advérbios que me 
acompanham acompanham
avessos a minha quase nula nuance 
de pouca genialidade.


segunda-feira, 9 de março de 2026

Photo Grafia

Tendem a tardar a percepção 
da efemeridade de tudo nesta
breve existência de todos.
Datam instantes a todo 
momento, mas não há tempo
hábil para isso quando temos 
de adiar o hoje para pre-ver
o futuro: me lembro quando ontem
                 foi um amanhã distante...
                 e quando depois de amanhã 
                 for anteontem, calendário 
                 algum será capaz de nos dizer
                 que dia será hoje.
                 

sábado, 7 de março de 2026

D'Eles

Ser poeta
é     viver
sob        a
influência 
de um bom
Demônio,
é viver sob
o peso 
de um Deus
do mal e
ser para Eles
referência 
de ótima 
leitura.

quarta-feira, 4 de março de 2026

O Eu qu'eu sou

Eu sempre fui outro.
Mesmo quando fui eu
mesmo.
Nesse exato momento 
enquanto escrevo,
sou outro.
Ontem eu já não era,
e também 
conseguia perceber 
com alguma clareza 
que hoje certamente 
eu não seria o mesmo,
e no entanto o eu qu'eu 
imaginava que seria 
hoje, não sou,
vim a ser outro.
E quando me reconheço
o mesmo, desfruto o
instante fingindo ser
outra pessoa, 
contemplando de dentro 
para fora o Eu
observado.
Jamais deixei de ter e
apreciar esse meu estranho 
hábito, pois eu sempre
fui o mesmo.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Sonambulista

As marcas do chão sob o
solado dos meus passos:
muito desta Terra, desse
solo, passou por mim en-
quanto eu por sobre os
pés me permiti levar...
onírico...empírico...
e os horizontes fantásticos 
que me viram passear,
ainda hoje guardam no
esquecimento de suas me-
mórias o exato instante 
em que me imaginaram
passar.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Vitrine

O reflexo do espelho 
em mim sou eu,
reflete a translúcida 
superfície espelhada
sobre isso - há um
quase-minuto atrás 
era outro esse mesmo
Eu de agora.

Hardcore

Debruçado sobre o caderno
sobre os joelhos sobre os
calcanhares sobre o chão 
sobre o subterrâneo sobre
o céu sobre minha cabeça 
sobre meu pescoço e ombros 
sobre meus braços sobre 
minha mão sobre a pena 
sobre o caderno sobre os
joelhos...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Auto-mar

Oceans
Ecoam
Waves
e Aves.

Ad in Finitum

Depois do
silêncio que
passa fica
só o ruído.

Quase ocaso
intacto não 
fosse a vida.

O Suicida que Morreu de Velho

Um pensamento suicida em
fuga da cabeça, saiu pela
boca em silêncio em um
descuido da fala, dizia,
pulou para fora, 
desapercebido, junto ao
fonema, e pela leveza de
sua natureza, ficou para
sempre vagando junto ao
vento. Não se arrebentou 
no chão como queria.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

As Sete Cores do Abismo

Dar cores aos dias da semana:
Segunda-feira negra;
Terça-feira amarelecida;
De tons Gris lívidos pintar
a Quarta-feira de cinzas;
Quinta-feira bege como a
cor da pele de uma pessoa 
idosa que tende a teimar a
não morrer jamais;
Sexta-feira púrpura ocaso;
Sábado azul de um céu 
azul anil;
Domingo branca palidez mórbida.

Spleen Esplêndido

Magníficas flores adubadas
pela destruição, não as do
mal, de Baudelaire, mas as
minhas que, de bom grado
e mau augúrio, são do bem,
do mesmo modo como o
Diabo outrora foste.
E adivinha?
Deus é meu jardineiro.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Soa Assim

Minha quietude cochicha
ao meu ouvido 
S u s s u r r a n d o - m e:
'tema a possibilidade de
que confundam teus
silêncios profundos com
afasia.'

Futuro Último

O amanhã oprime...,
aliás, ontem foi o
teu último dia, e
hoje é o primeiro:
O amanhã não existe,
mesmo havendo 
verdadeira ocorrência 
dele no passado, pois
só há no passado o que
ou aquilo que não 
existe mais.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os Olhos

Arrostam silêncios
olhares destemidos
diante duma demora
desenfreada da fala.
        (...) Odeiam (...)
         delays (...)
       (...) no (...)
      destino (...)
dos (...) fonemas.
A língua em prece forçada em pensamento, 
numa espécie de missa-à-força por
acreditar com estrondosa e cega fé 
que os sons existem invectivos aos olhos,
haja vista ouvi-los.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Opressor Próspero

Morde os dentes a morte
enraivecida em vaidade,
envaidecida em cólera e,
embora tenha know-how,

não me levará com Ela sob
o seu manto agora, e a raiva
vem disso, a vaidade quase
intacta é por saber que, se

não me leva hoje, levará 
amanhã ou depois com
certeza. Certeza essa tem

Ela por acumulação de almas, mas
mal sabe ela que minha alma já há
muito aprendeu a se fazer de morta.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Do Fazer Poesia

Minha poética é dada à decepção,
possui a capacidade de produzir 
versos através de um raciocínio 
torto todo retorcido, e essa sua
razão verdadeira é minha 
disposição como poeta jamais 
suscetível às regras de qualquer 
criação do fazer poesia sob eterna 
supervisão e vigilância da métrica 
com suas rédeas nas mãos e de
cabresto e látego sempre em riste,
mas é minha mão que tem a posse
da pena, minha pena, e se a acusação 
é de que assim eu não passo de um
poetastro, eu declaro abertamente 
em um raciocínio reto que sou sim
um poeta astro e minha poesia um
lume, um farol de brilho radiante 
dentro da escuridão desse fazer
poesia segundo a mesma e velha
cartilha do academicismo arcaico
de sempre.

Esperança

Um dia
ainda
será hoje.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Nonsenseness

Livros lêem-me melhor quando chove,
preferem-me assim, como nuvens 
estremecem-se ao toque de outras 
deslizando pelo céu como nenúfares 
fazem por superfícies de lagos, os livros 
preterem-me quando não lidos, digo, 
quando não lido com eles, e como eles
sentimentais são, eu tenho o cuidado de
deixar que livrem-se de não deixar
escapar as emoções que guardam em
páginas ditas donas de todas as palavras 
que se encerram ali.
Os livros precisam expressar o que sentem
em relação a mim; as nuvens chovem o que
sentem em relação ao solo; nenúfares 
sofrem quando sentem a partida de
salamandras que se abrigavam em si,
isto é, em cima deles ou por sob, como o
céu por sobre as nuvens jamais conhecerá 
chuva alguma, do mesmo modo o solo
molhado prefere o sol por não poder
absorver o que será enchente se chover
pra sempre enquanto durar a tempestade:
Ser uma cinzenta nuvem escura por dentro,
não quero reduzir à um raso copo d'água 
toda essa furiosa tempestade dentro de mim.
Posso afogar o mundo inteiro, inclusive eu,
mas não quero desperdiçar nem dividir o
meu morrer com outras mortes, e então 
por assim dizer, um livro público em
particular, ao ler-me, publicou em suas
páginas:
Ontem Choverá o que Amanhã Choveu!
Só Hoje Há Sol
O Sol Age Só Hoje,
pois hoje eu só queria que chovesse
a vida toda que me resta,
talvez pra sempre, quem me dera,
se a eternidade não fosse tão estúpida 
e abstrata. Se hoje eu quero pela vida
que me resta, amanhã me resta esperar 
pela vida que me queira, não só um
acho que vai chover, mas sim um parece
que choveu a vida inteira.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Para a Morte a vida

Impulsiona-me constantemente 
para a morte a vida, chego a
pensar que morro, enquanto de
fato, e embora farto, ainda vivo.
Estou vivo. Absoluto e absorto,
isto é, absorvido pela vida e
absolvido pela morte, e esses
absurdos observam-me 
obstinadamente, como uma fé 
cega em algo amplamente visto
como impossível ou inacreditável.
Assim eu sigo, creditando à meu
cansaço cada conquista que penso
atestar que eu ainda vivo, porém 
me sugere a mesma vida exausta 
que não passo de um fantasma morto.
-É a morte, a morte que me impulsiona
para a vida desde que, de novo,
morri outra vez.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

De Cisão (êntre avec néant)

Desistir de existir
ou
resistir e reexistir 
quem sabe,
quem sabe,
Deus ou adeus?

Jogo o dado e cai o
lado do adeus para cima:

Lanço o dardo da sorte da
minha vida para o alto e
acerto preciso o alvo da
morte decidida, decisiva
sobre mim.

Então Me Mato!

Me mato todos os dias
até a data do dia de morrer,
e se enfim eu morro,
se no fim eu morro,
por que não decidi
viver antes,
vir ver antes a beleza da vida?

Nestes rompantes de ruptura 
de nossa existência, a vida
não deveria se mostrar bela (?)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Avere

Eu sou mais poderoso do que Deus!
Vivo e posso morrer, e Deus?
Tenho minha vida nas mãos não só 
do acaso, não só nas mãos pálidas de
Deus, tenho minha vida em minhas
mãos também, pois sou mortal e 
posso a qualquer instante, por mero
acaso, pela vontade pueril e imperiosa
de Deus, mas principalmente, eu posso 
morrer pelas minhas próprias mãos,
e se me perguntarem o porquê, direi
que se Deus habita em mim, é Ele que
tento matar ao morrer por meus meios,
métodos e vontade:
Queimo a casa e me livro do Rato!

Girassóis

Dançam lentíssimamente dentro
da noite estrelada as flores.
Contam através de canções desconhecidas
dos Homens, para as estrelas, cantam para
as estrelas aquilo que escondem das abelhas,
sempre tão afoitas e apressadas.

As estrelas não têm pressa alguma,
uma vez que a maioria já não existe 
mais, senão seu brilho.
-Mas é para o brilho da luz delas que
cantamos e dançamos - dizem as flores 
do jardim noturno de minha alma.

Minh'alma que também é brilho
inequívoco daquilo que um dia já foi.


sábado, 31 de janeiro de 2026

Totalidade e Solidão

Um só Eu faz de mim
um ser solitário.
Dois de mim são dois 
Eu's solitários, Eu e o
outro Eu.
Três     desses      Eu's 
deixam claro que sou
um Não-Ser.
Sou Eu assim um Deus
S o l i t á r i o.

O Caso Púrpura

Com a data de hoje,
estas horas de agora,
esse pós manhã 
brilhante: a manhã 
brilhante e iluminada 
até a noite ser escuridão:
Esta Será a Hepta Tarde
Sombria Desde Quando 
Comecei a Contar Cada
Pôr do Sol Depois de
Minha Última Morte.

Qual o plural de pôr do sol?

Sete sóis sorriem, todos o mesmo astro,
todos o mesmo riso, ardentes despedindo-
se (fosse teatro, da cena) de mim no
horizonte ao Oeste, não Este, Oeste mais
ao Norte de mim, de novo, não por acaso 
a Morte.

Púrpuras são as cores desse poema.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Soneto

Do poeta poesia é dever,
é devir. Pode ser acaso e
ocaso, é labor e é ócio, é
sacramento e sacerdócio.

É sacrossanto o ser poeta,
tanto quanto é maldito, e
por isso mesmo a poesia é
bem dita maldição.

E toda sua obra deve ser
revolucionária. Poesia que
não transforma não serve

de nada, e no mais, de nada
vale, e mais ainda, poesia que
não desperta, apenas atrapalha.

Ternura de Aço

Em viva voz o silêncio diz...,
isto é, desnuda a mudez.
O nada existe como elo
subsequente do todo e 
se repetem sempre 
dentro dessa ordem.

Quando há ruptura 
instala-se o caos.

O Caos é a mistura abrupta do mesmo.

O Nada é a Tese
O Todo é a Antítese 
O Caos a Síntese quando o todo e o 
nada não se repelem.

Toda destruição é igual a hoje,
quanto um pós guerra de ontem 
em algum lugar distante como
agora...e aqui, mundo afora
nesse mesmo instante.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Outono de Oitenta e Quatro

A chuva chegando:
-Cairá proporcional-
mente per capta.
Veja como está 
chegando a chuva-
dizia.

Há chuva como apenso
pelo todo do céu que segue.

No céu o cinza das nuvens 
anuncia que a chuva
chegará em breve e 
em instantes.

Acho-a, a chuva, vejo-a vindo
através dos céus e,
antes qu'eu avise,

começa de chofre a chover de fato.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Ontem, Anteontem e outros Ontens distantes

Atrás do tempo sempre:
O Futuro.
Renovando rotineiramente 
O Passado,
instantâneamente,
de Presentes com precedentes 
de Presentes anteriores, hoje,
ontem e anteontem e outros
ontens distantes.
Um novo passado novo
para cada futuro ido...
e o mesmo futuro antigo 
para todo presente 
repetido.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Oh be a fine girl kill me

Não voltarei a ser Voltaire.

Se ando muito
dói-me os pés;
Se amo muito 
dói -me o peito;
Se penso muito 
dói-me a cabeça.

Sinto em minha alma
uma dor terrível...

Meu cansaço existencial 
impele-me a negar uma
próxima reencarnação.

O que importa se tenho vivido o
suficiente ou não? 
Eu sempre morro, digo,
eu sempre volto.

Vivo muito ou pouco,
sei lá, é que a morte
há muito anda atrás 
de mim, suponho eu
que ela pensa que
me ama.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Aritmética Aristotélica

Desatar os nós dos meus
dedos tortos e empunhar
a pena para desenhar meus
retorcidos versos:
desdenhar da métrica e do
academicismo, definhar a
estética que sugere, ou
melhor, que dita regras e
formas exatas de poemas
para se fazer poesia.
Nada pode soar mais patético 
do que achar que o 
conceito de poesia tem
alguma coisa a ver com
o formato quadrado da
forma final do verso,
forma quadrada ou qualquer 
outra pré definida em
cartilhas de poetas 
catedráticos pré-ocupados 
sempre apenas com a forma
e jamais com o conteúdo.
Inspiração para eles é achar
uma palavra que caiba dentro 
da métrica do protocolo e
estrutura da rima,
ou do ritmo da rima com a
métrica, que deve
obrigatoriamente 
ser isso para rimar
com aquilo e soar
agora dese jeito para
depois poder rimar
com o verso de acolá:
Abaixo a métrica!
Abaixo a rima!
Rítmica ridícula, boba,
e estúpidas que empobrecem
a poesia, demonizam o
texto poético e
enraivezem poetas que
lutam pela liberdade 
ideológica dos versos.
Liberdade para ser e existir
da maneira que cabem onde
quer que queiram se
permitir ser e estar para
poder fazer tudo aquilo que
a inspiração do poeta tem
a dizer, ou tem a calar.

Simetria nada tem a ver com
poesia, poesia desmesurada
por natureza, pela sua natureza 
desmedida, poesia em si mesma
compreende também todo o
entorno. Poesia é um universo 
em constante expansão, e não 
somente um ponto denso e
compactado.
Minha poesia é muito mais do
que formatos pré estabelecidos,
desenhados e re-desenhados
apenas por uma questão 
d'estética, poesia é anti-estética,
não tem a ver com aparências,
pois foge de querer se parecer
com qualquer outra coisa que
não Ela, poesia não se parece
com nada, não é palpável, é
antimatéria, é maleável na
medida que se desenvolve
para mais ou para menos
dentro ou fora dos seus
limites inexistentes...
mas jamais minha
poesia caberá 
dentro de 
formatos
e moldes.

À rigor por via de regra,
o rigor:
dà rima,
dà forma,
do ritmo a reger o enredo 
dentro de um limite que
caiba o texto.

A ranger os dentes da poética 
de raiva por não poder estar
disposta no poema por completa.

Poesia é, por via de regra,
a medida daquilo que não 
se pode medir,
e mesmo assim
medita o poeta discípulo 
da métrica sobre como
pode deixar a poesia mais
complicada e hermética:
uma poesia excludente de
versos e não inclusiva de
todo tipo de versificação 
que a inspiração possa
realizar.

O poema é só um dos
muitos e variados corpos
da poesia, o éter poesia
que pode preencher não 
só o quadrado, mas também 
o círculo, o triângulo,
agroglifos, e qualquer outra
característica geométrica
da forma final daquilo
que se escreve:
Poeta escreve poesia
e não desenhos técnicos.

Que herói mesmo seja o verso livre,
e não o metro heróico, ou versos
em tetrâmetro trocaico, pentâmetro
ou cantos poéticos em hexâmetro
dactílico, parece-me muito esdrúxulo,
em se tratando de poesia, todos esses
termos, diria, estúpidos.
Metro iâmbico, ou o escambau, para
versos decassílabos ou dodecassílabos
para um poema simples ou profundo:
o que me importa o número de sílabas 
se o que tenho a dizer como poeta é o
que diz minha poesia com todas as
letras que ela tem a declarar, e não 
como ela faz isso, compactando versos,
encaixotando-os de forma a esquartejar 
a poética e inspiração, ou seja, o que
traz minha poesia são pergaminhos
densos, desconformes, destoantes, etc.,
de uma escrita profunda e, assimétrica
a linha de raciocínio, o texto é todo
proposto, propício e proporcional a
tudo aquilo que tem a dizer a pena,
e não como cadernetas em brochura de
anotações técnicas, de capa bonita,
vindas dentro de caixas de sapatos,
ou charutos, com desenhos
simétricamente precisos de caracteres
ordenados matematicamente idênticos
dentro de quadrados ou quadras 
retangulares ou cilindros triangulares
ou triângulos acutânculos e o que mais
pregar a maneira correta de ordenar os
versos dentro de estrofes perfeitamente 
alinhadas dentro de poemas alinhados
como que se os versos ali presentes
fossem soldados de algum exército 
em formação para algum exercício de
guerra.






quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Vade Mecum

Evadir-se dessa humanidade torpe,
eis minha vontade:
esvazia minha alma de vida a morte?
Jamais! Porém, jaze já e desde sempre 
essa alma em vida, devida a vida ser
sempre vazia.
Minh'alma viva vibra com a 
imponderável 
possibilidade da morte, 
pois Ela permanecerá ativa,
enquanto vazio o corpo sob a terra
apodrecer.
Entretanto, minha alma não pisará
com seus calcanhares nos céus,
não caminhará sobre as nuvens e
tampouco sobre brasas acesas de
qualquer inferno em chamas,
andará por entre os vivos divertindo-
se transvestida e transvertida em
fantástico fantasma, assustando a
assustadora raça humana.

Cânceres e Cigarros

Certezas e decepções, amálgama!
Quem é Deus, quem é o Diabo?
O Diabo em meus dedos,
em meus lábios...
Deus em meus pulmões, está!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Noir Poesia

Não há aplausos,
você não ouve,
não houve espetáculo,
você não viu:
não houve você?

e algo mais não haverá tampouco,
ficam com o que sentem, com o que
se tem mesmo sendo tão pouco, ou
nada ou quase ou nunca e/ou de novo.

Não à Arte mais
Não há mais Arte
Não há, mas...
Não amas
Não amais Arte?

Não à Poesia 
Noir Poesia etérea 
Não há Poesia
Não há Poesia eterna?

O último Poeta morreu,
morreu o único, o primeiro 
último Poeta morreu:

Foi morto amou ser,
foi morto e amou ser assaz assim.

Foi morto per si,
por si mesmo morreu,
foi morto por isso mesmo morreu,
foi morto matou-se assassinato,
foi vítima, foi íntimo de si e assim
assassinado.

Matou-se e amou se...
Matou-se e amou ser.