domingo, 28 de junho de 2026

Aeternalismo

Escrevo a vida, porém,
confidencia a morte minha poesia.
Escrevo para não morrer.
O que quer dizer que escrevo a
eternidade.
O que seria do prassempre que
haverá eterno,
se não fosse esse instante que
acaba agora?

sábado, 27 de junho de 2026

Que permanece por muito tempo no mesmo lugar

Deus é um morador de rua,
um mendigo, um pobre Diabo.
Vive de esmolas, moedas, migalhas.
O pão dele de cada dia você não 
deu hoje, não é mesmo?
O pão dele de cada dia depende da
boa vontade dos transeuntes que
por Ele passam.
A caminho da igreja você passa
apressado, ignora, passa por cima,
atropela, violenta, agride, manda 
ao inferno... põe fogo.
Chega sobressaltado ao destino,
senta-se buscando abrigo e consolo.
Ora, reza, pede, chora e se emociona,
sente-se acolhido, como um escolhido
entre milhões.
Contribui generosamente com o 
dízimo, deixa o pastor, o padre, a igreja,
deixa a igreja mais rica, feliz, satisfeita.
No caminho de volta para casa prefere
ir por outra rua, para não ter de cruzar
de novo com àquele desgraçado,
vagabundo, que nada faz senão deixar
o mundo, a vida, um lugar mais feio
e sujo.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Prescrevo

O silêncio 
me falta
sempre
quando
eu não 
tenho a
palavra:

É quando 
sempre escrevo.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Doxaxioma

Com sangue entre linhas,
a relação entre a poética,
sua poética, e o poeta:
às vezes as vestes de um
protege a nudez do outro...
não do frio do aço dos
versos, mas do olhar de
cobiça da métrica.
Os versos e a verve vivem
em promiscuidade com
uma (assombrosa) sombra
da métrica abolida e escorraçada.
O vermelho em meu tinteiro 
sugere que minha pena é
assassina e que esse poema foi
escrito com sangue...
mas não houve morte alguma,
por ora não, não nessa hora,
e a tinta no tinteiro é sangue do
poeta suicida, quem escreveu estes
versos. Mas o poeta não se matou,
pois não há morte segura para Ele,
nem mesmo a auto-infligida:
-vale mais a vida - dizia a sofrer -
falha-me a vida - sentia-a a viver -
minha morte é um poema que só 
eu posso escrever, uma vez que 
me encontro poeta e minha vida
nunca foi poesia:
Deus não soube escrever tais versos 
e o Diabo tampouco, e eu sequer 
me dei a querer...não sei escrever...
desenho esse poema a vermelho,
feito de versos a sanguínea, são a
exata semelhança de tudo:
a morte um desenho feito a mão,
um autorretrato ao invés de algum
qualquer poema épico.


domingo, 21 de junho de 2026

Admoestações

Primavera estéril de 
flores natimortas;
Verão de um gélido 
frio do Éden;
Outono de árvores
mortas e fudidas;
Inverno quente infernal.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Todopoesia

Deus é leigo em Humanidades:
Fodam-se os Homens! 
nessa mesma linha, eu se fosse
Deus, seria (leigo) em decassílabos:
Foda-se a Métrica!
na mesma proporção se o universo 
todo fosse todo poesia.

Didática

Um lance de dados sugere o acaso,
jamais abolirá o imponderável,
pelo contrário, corrobora, sugere
arbítrio livre. Entretanto, teu Deus 
que não existe me persegue, e eu
que não creio em Édens, nessa fria
descrença, me aquece a ideia do
inferno que me espera...
do outro lado do tabuleiro, 
a bondade que não se encerra,
tampouco o poder e a glória, nada
são, nada fazem, pra nada servem:
Deus não se desespera diante do
seu povo vil e pusilânime que se
alimenta de Guerra, Deus colabora,
os inspira, dá forças, motiva e
proporciona a vitória:
Deus Salva. Deus Mata. Deus Vive.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Polegada Alguma

Por onde ando
não arredo o
pé do passo.

Do tato para comigo
do espaço ao redor
perpassado por cada
passo dado não abro
mão de polegada
alguma:

ser um habitat do horizonte,
um meio para o ambiente 
sentir-se personificado.

Me encontro sempre comigo,
quando parto, no lugar de
destino, eu toda vez estou
lá já me esperando. Quando 
não vou, morro sozinho e
fico como fantasma me
assombrando na origem...

por isso preciso partir,
ir para libertar minha alma.



sexta-feira, 12 de junho de 2026

Ensaio

Às vezes quase sempre sinto
que eu sou um, não um, mas
o livro que a tristeza universal 
escreveu. Vige dentro de mim,
só eu o leio. 
Da alegria da humanidade toda,
de uma maneira geral, eu sou,
nada posso ser senão escárnio.
Da crença de muitos sou ironia.
Do resto de mim que não está 
no livro eu sou poeta outonal
que só sabe escrever invernos
e da tristeza ensaios.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Máximas

Uma ânsia estúpida 
de tentar, ou achar 
que se pode explicar
tudo, de saber sobre
ou de decodificar tudo.
Para tudo há uma explicação,
eis a máxima.
-Por que existe sempre
uma resposta para 
tudo? - pergunta angustiada 
a garotinha com uma
Bíblia na mão - não faço
ideia - responde o pai,
lendo Sócrates através 
de Platão.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Não Caminham comigo

Não aguento mais ouvir o que tanto 
calo aqui dentro. 
Asfixia-me.
Asfixiam-me.
Preciso gritar, mais quem irá me
ouvir, se jamais prestam atenção
(ou prestam demais) ao silêncio 
alheio? E já não podemos dizer nada.
E se vivo emudecido é porque jamais 
fui um deles, pois não suporto mais
ter de (de ter de) escutar o que tanto
dizem, muito embora sejamos
semelhantes porém, pois o que tanto 
dizem é sempre autoafirmação, 
e o que muito calo também.
Arrancaram-me a voz da garganta.

Acaso e Ocasião

Acorre o tempo - socorra-o -
perdeu-se em si ad infinitum,
pois ocorre que depois de
amanhã foi ontem, enquanto 
anteontem será amanhã,
então sendo assim, quando 
poderá ser jamais que dia
é hoje? A data está próxima,
entretanto, entre tantos dias,
esse momento, agora pouco,
por um instante aludia que
nunca será será, como sempre 
não mais, somente acaso e ocasião.
Pois bem, Eternidade, isso é tudo
o que há, e foi pouco, pois o tempo 
que passou desde que chegaste ao
fim, já é deveras maior, e se o
tempo que passou é irreversível,
é porque o dia de amanhã não 
se pode mudar...
sempre como não mais.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Magnum Opus Posthumous

Deles para com os demais,
outros animais e nós mesmos,
a regra:
futuro é extinção!
A humanidade em guerra,
os Homens e máquinas
aniquilam-se ambos,
mutuamente toda vivalma
cai por Terra em redundante 
matança:
nações contra nações,
crenças contra crenças,
povos contra povos,
Homens contra Homens:
soldados, todos soldados 
assassinos, todos soldados
mortos.
Morreram e mataram-se todos.
A humanidade toda, isto é,
todos os humanos foram
por Eles mesmos aniquilados:
crianças, jovens, mulheres e
homens, idosos, em
absoluto, absurdamente 
todos mataram-se.
Todos morrem na guerra,
cada santo, religiosamente,
um seguido do outro.

Um dia após o fim do mundo,
apesar dos escombros entre
fumaças, e dos monturos 
pútridos de toda sorte de
carcaças humanas, já era
possível observar e sentir 
alguma paz. 
Não existe mais humano algum,
apenas, percebia-se pela
destruição, sinais de que passaram
e habitaram por ali.
No decorrer dos dias o que se
pode perceber é que uma paz
sublime, sobre-humana,
tornava-se cada vez mais
evidente:
não haviam mais Homens,
não haviam mais Homens,
não haviam mais Homens,
por todo o horizonte não 
se viam mais Homens.



domingo, 7 de junho de 2026

Rosasquerosa

Despe-se de pétalas de rebeldia,
como plumas, vestes de mais um
carnaval suprimido, de uma rosa
que insinua-se nua para um jardim 
todo conservador, e canalha 
em flores, canastronas todas 
dum jardim vítreo, falso imaculado,
e em um canteiro um palco, 
e a rosa em dança desabrocha
asquerosa, ímpio glamour
aos olhos de uma plateia toda
pura e santa, também um público 
de sádicos jardineiros, deuses
para as flores. A rosa arrasa e
morre tendo tido carrega sua
prole em pólen por abelhas
libertárias.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Um Fim em Si Mesmo

Mantenha-se em pé para
prontamente caminhar,
ou então mate-se antes,
ou ante o temor de seguir:
Vá! Enfrente. O dia da
morte pode ser melhor 
do que o dia do nascimento,
porém, morrer antes da 
hora é viver tardiamente.
Viva agora! Seja, já é tempo,
ouse ser, sempre, seja o que
for, mas seja, ou senão não 
saberá nunca o que vem a
ser a vida que existe além 
desse, ' e se, ou se...', não 
permaneça incólume, nem
percorra tua existência como
uma incógnita, não hesite,
excite, exerça sempre o que
não se pode ser jamais por
mais ninguém, exceto você.
Apenas você terá de fazer,
execute si mesmo.