sábado, 9 de maio de 2026

adanad a

Não há desespero maior
do que perceber que a
miséria humana não só 
te orbita, mas também 
habita você. 
Não só oriunda de ti
como também te orienta,
dizem.
Para mim há algo mais
miserável ainda: criar
palíndromos que nada
dizem,
que nada são e que,
como todo palíndromo,
de nada servem.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pudera

Ninguém é todo mundo
enquanto todos desse
mundo, salvo outros,
são ninguém.
Ninguém é obrigado a
fazer tudo, no mundo
todo, menos eu e não 
tampouco, e então faço 
versos, e ainda que
sejam silêncios e digam
nada, de todo nada, é
esse nada, ou nesse nada,
toda minha filosofia.
Minha poética é outra
coisa: é tudo aquilo que
nada se é. Jamais poderia
ser diferente.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Reflexão

Olha a lua 
   lá...farol
   lar dos meus
Olhos
Olhar do céu 
noturno:
-Eu sou para
você como um
   girassol - me
confessa Ela
do que eu já 
me convenci.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Poema

Ser uma e outra coisa,
ser alguma coisa outra
e outra coisa alguma.
Ser poeta e poesia: poema. 

Ser Raimundo, rima e solução:
o poeta é um ser múltiplo e
singularíssimo, cada um 
único a sua maneira.

Era uma vez um poeta e
seus demônios, o poeta
queria ser Deus e seus

demônios diabos, do mesmo
modo como o Diabo quis ser
Deus um dia, e como Deus

sempre foi um Diabo.

O Poeta é o Diabo de um Deus
e um Deus dos Diabos:
alguma coisa outra e outra coisa
alguma.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Pão Nosso de Cada Dia

Deus escolheu
              colher,
          e  colheu,
o joio que
              cresce
por entre o
            trigo
que       cresce
pelos vastos 
campos do Éden.
O joio colhido 
por Deus é
entregue ao
Diabo,
e então o
pão que o Diabo 
amassou
nos alimenta 
diariamente.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

O Enterro do Céu

Juro adeus
junto ao
caixão de
Deus a se
velar. Eu
sorrio
infelizmente 
por não 
saber chorar.

Acometido de Si mesmo

Eu jamais executaria minha
solidão em público. 
Preservo-a. Sem mais...
Mas se eu expandir e explodir 
em violenta paixão e, se Ela, a
solidão tiver que morrer um
dia, matá-la-ei com minhas
impróprias mãos, nas sombras.
Além do mais, se isso vier a
ocorrer, digo que, no decorrer 
do tempo que resta aos demais,
essa gente toda jamais me verá
outra vez.