sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A Vida a partir do Barro

Na bagagem que 
levou ao céu,
quando morri,
minha alma, ao
abrir a mala só 
havia lama:
vestígios do meu
corpo morto, um
Golem, que de
volta à terra, sua
matéria-prima, vai
aos pedaços. 
Assassinado de dentro 
pra fora por uma
facínora que levou 
consigo ao alto minha 
medula óssea como
souvenir para lembrar
quando viveu
enlameada de um
lamaçal que fui
quando vivo.

Sickiss

Como quis Jesus um
beijo de Judas, e
determinou que
fosse beijado, do
mesmo modo a morte 
também implorou
por um beijo meu,
e eu e Judas, ambos 
inocentes, beijamos
sem culpa e fomos
desgraçados. 
Para Judas o remorso 
e a forca, e para mim
uma vida débil e frágil 
vivida à força.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Aziago

Floresceu o dia:
molhada a relva
fresca, refletia em
seu orvalho, um
espelho como se
fosse, a urbanidade
iluminada de um
novo dia que surgia.

Horizonte azulzinho, convidativo...
-poderia não ser domingo hoje.

Redondilhas

Pôr no quadrado 
meus versos contundentes 
não tem como não 
furar a bolha.

Ambiquietude

Meu silêncio 
é arte muda,
por assim
dizer. Minha
cabeça uma
oficina acústica,
minha alma um
ateliê.

00:00

[Na comiseração de novos calendários
o amanhã será o mesmo velho dia
de sempre. Quando haverá continuação 
nunca mais?]

Sou um desastre e posso ser,
ou melhor, passo a ser destruição.
Se como Humano sou um Diabo,
como Diabo sou Deus, e como
Deus sou mais um Homem falho:
Valha-me um adeus.

Eu sou guerra, eu sou devastação.

Atuo em um hiato entre o ontem e
o amanhã: eu sou hoje. Sou sempre.
Nada (de novo) veio antes de mim
nem nada virá após, aliás, o que vier
será apenas a mesma devassidão.
Outro presente. Quisera ser de todos 
o fim.

[eis que todas as almas são minhas,
assim como a alma dos Homens, 
a alma de Deus também é minha,
a alma que se omitir, esta sobreviverá:
lembre-se que Deus é eterno]

Eu sou eternidade que muito em breve 
colapsará, e meu pós-apocalipse é Éden,
mas sem ser jardim, sou um cemitério 
de perto, e de longe, ao longo da linha 
do horizonte de cada trêmulo olhar,
eu sou a cova rasa que cada um de
nós merece.

Sou o poeta da morte, sou a morte
de todos os poetas, minha poesia é 
a saúde inabalável de uma doença 
que sobre todos os versos se abaterá.
Hoje.

O melhor a se fazer não é se matar,
bom mesmo é não viver (de novo)
jamais. Não mais como ontem. Ser
um hoje que amanhã algum conceberá.

Se tudo acaba agora, é porque percebe
que o fim (da noite) há muito já começara.

Almumana

Dentro de mim uma alma,
é meu corpo um lar.
Eu moro aqui, pois apenas
aqui se pode morar.

Mas sou só eu e eu sou só,
porém, sei que há outros,
aos milhares de milhões:
multidões de gente só.