domingo, 22 de fevereiro de 2026

As Sete Cores do Abismo

Dar cores aos dias da semana:
Segunda-feira negra;
Terça-feira amarelecida;
De tons Gris lívidos pintar
a Quarta-feira de cinzas;
Quinta-feira bege como a
cor da pele de uma pessoa 
idosa que tende a teimar a
não morrer jamais;
Sexta-feira púrpura ocaso;
Sábado azul de um céu 
azul anil;
Domingo branca palidez mórbida.

Spleen Esplêndido

Magníficas flores adubadas
pela destruição, não as do
mal, de Baudelaire, mas as
minhas que, de bom grado
e mau augúrio, são do bem,
do mesmo modo como o
Diabo outrora foste.
E adivinha?
Deus é meu jardineiro.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Soa Assim

Minha quietude cochicha
ao meu ouvido 
S u s s u r r a n d o - m e:
'tema a possibilidade de
que confundam teus
silêncios profundos com
afasia.'

Futuro Último

O amanhã oprime...,
aliás, ontem foi o
teu último dia, e
hoje é o primeiro:
O amanhã não existe,
mesmo havendo 
verdadeira ocorrência 
dele no passado, pois
só há no passado o que
ou aquilo que não 
existe mais.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os Olhos

Arrostam silêncios
olhares destemidos
diante duma demora
desenfreada da fala.
        (...) Odeiam (...)
         delays (...)
       (...) no (...)
      destino (...)
dos (...) fonemas.
A língua em prece forçada em pensamento, 
numa espécie de missa-à-força por
acreditar com estrondosa e cega fé 
que os sons existem invectivos aos olhos,
haja vista ouvi-los.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Opressor Próspero

Morde os dentes a morte
enraivecida em vaidade,
envaidecida em cólera e,
embora tenha know-how,

não me levará com Ela sob
o seu manto agora, e a raiva
vem disso, a vaidade quase
intacta é por saber que, se

não me leva hoje, levará 
amanhã ou depois com
certeza. Certeza essa tem

Ela por acumulação de almas, mas
mal sabe ela que minha alma já há
muito aprendeu a se fazer de morta.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Do Fazer Poesia

Minha poética é dada à decepção,
possui a capacidade de produzir 
versos através de um raciocínio 
torto todo retorcido, e essa sua
razão verdadeira é minha 
disposição como poeta jamais 
suscetível às regras de qualquer 
criação do fazer poesia sob eterna 
supervisão e vigilância da métrica 
com suas rédeas nas mãos e de
cabresto e látego sempre em riste,
mas é minha mão que tem a posse
da pena, minha pena, e se a acusação 
é de que assim eu não passo de um
poetastro, eu declaro abertamente 
em um raciocínio reto que sou sim
um poeta astro e minha poesia um
lume, um farol de brilho radiante 
dentro da escuridão desse fazer
poesia segundo a mesma e velha
cartilha do academicismo arcaico
de sempre.