sábado, 17 de outubro de 2026

Quando choveu pela última vez

Dizem que quando alguém muito nobre,
e de espírito elevado morre,
chove muito, por muitos anos.

A chuva oblíqua cai lá 
fora e a alma que sofre 
aqui dentro são da mesma
estirpe e natureza. São 
irmãs gêmeas separadas
no berço. A alma que me
habita desceu para terra
de sua nuvem natal para
brincar de ser matéria e
acabou que se aprisionou
sem querer em um casulo
que é meu corpo, precisava 
dessa forma para poder
passear por aqui. Quando
quis voltar já não podia
mais, não tinha mais a
leveza necessária para
voltar. Então veio a chuva
procurá-la e levá-la de
volta. Mas como a chuva
irá achá-la se eu aqui dentro
estou protegido pelo telhado,
escondido sob o teto da 
casa? Então ouço a chuva
cair e ouso sair e ter com
ela para testar a sapiência 
do céu e descobrir se ele
sabe que minha alma, irmã
gêmea da chuva está aqui
dentro de mim, cativa do
meu corpo. O primeiro passo
dado para fora fora o último
passo dado, pois desceu do
céu um poderoso raio abrindo 
ao meio o cativeiro e libertando
finalmente para a chuva a alma
irmã que ela tanto procurava.
Assim abruptamente parou de
chover e jamais voltou a cair
outra vez.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A Vida a partir do Barro

Na bagagem que 
levou ao céu,
quando morri,
minha alma, ao
abrir a mala só 
havia lama:
vestígios do meu
corpo morto, um
Golem, que de
volta à terra, sua
matéria-prima, vai
aos pedaços. 
Assassinado de dentro 
pra fora por uma
facínora que levou 
consigo ao alto minha 
medula óssea como
souvenir para lembrar
quando viveu
enlameada de um
lamaçal que fui
quando vivo.

Sickiss

Como quis Jesus um
beijo de Judas, e
determinou que
fosse beijado, do
mesmo modo a morte 
também implorou
por um beijo meu,
e eu e Judas, ambos 
inocentes, beijamos
sem culpa e fomos
desgraçados. 
Para Judas o remorso 
e a forca, e para mim
uma vida débil e frágil 
vivida à força.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Aziago

Floresceu o dia:
molhada a relva
fresca, refletia em
seu orvalho, um
espelho como se
fosse, a urbanidade
iluminada de um
novo dia que surgia.

Horizonte azulzinho, convidativo...
-poderia não ser domingo hoje.

Redondilhas

Pôr no quadrado 
meus versos contundentes 
não tem como não 
furar a bolha.

Ambiquietude

Meu silêncio 
é arte muda,
por assim
dizer. Minha
cabeça uma
oficina acústica,
minha alma um
ateliê.

00:00

[Na comiseração de novos calendários
o amanhã será o mesmo velho dia
de sempre. Quando haverá continuação 
nunca mais?]

Sou um desastre e posso ser,
ou melhor, passo a ser destruição.
Se como Humano sou um Diabo,
como Diabo sou Deus, e como
Deus sou mais um Homem falho:
Valha-me um adeus.

Eu sou guerra, eu sou devastação.

Atuo em um hiato entre o ontem e
o amanhã: eu sou hoje. Sou sempre.
Nada (de novo) veio antes de mim
nem nada virá após, aliás, o que vier
será apenas a mesma devassidão.
Outro presente. Quisera ser de todos 
o fim.

[eis que todas as almas são minhas,
assim como a alma dos Homens, 
a alma de Deus também é minha,
a alma que se omitir, esta sobreviverá:
lembre-se que Deus é eterno]

Eu sou eternidade que muito em breve 
colapsará, e meu pós-apocalipse é Éden,
mas sem ser jardim, sou um cemitério 
de perto, e de longe, ao longo da linha 
do horizonte de cada trêmulo olhar,
eu sou a cova rasa que cada um de
nós merece.

Sou o poeta da morte, sou a morte
de todos os poetas, minha poesia é 
a saúde inabalável de uma doença 
que sobre todos os versos se abaterá.
Hoje.

O melhor a se fazer não é se matar,
bom mesmo é não viver (de novo)
jamais. Não mais como ontem. Ser
um hoje que amanhã algum conceberá.

Se tudo acaba agora, é porque percebe
que o fim (da noite) há muito já começara.