terça-feira, 29 de setembro de 2026

Todo o Amor do Mundo

O sabor da Morte em meus lábios 
deu-se por um beijo que a Vida me
roubou, minha língua por sob o céu 
da boca dela provou o gosto de
estrelas mortas. A Vida enamorou-
se por mim, jurou morrer de amor.
Então todo o amor do mundo 
a matou pelas minhas mãos,
sem nunca eu tê-la amado.

Devolvi o beijo em sua boca gelada,
senti o frio desespero de todo o uni-
verso, ao tempo que amantes outros
velando-a choravam copiosamente,
enquanto eu enfeitiçado pelo beijo,
platonicamente, só pensava na Morte.

Peso morto

Se o chão sob
meus pés é Deus,
Deu-se abismo:
quando o céu 
tropeça e cai
sobre nossa
cabeça, cai
pelo peso 
de um 
Deus morto. 

Heras

Um vento que ali sempre soprava
não se vê, nem sente, não se ouve
mais. 

Meu coração é cheio de lugares,
câmaras, lares vazios que ecoam
solidão e silêncio. 

Por sobre os átrios, lares abandonados,
há lajes vastas cheias de detritos de um
tempo que apareceu por ali, mas que há
muito já se foi.

Às vezes esse tempo volta.

Dizem que um pobre poeta maldito,
rompido com a poesia, de uma ternura
de aço no olhar, ainda habita por ali,
e quando a lâmina dos seus
afiados olhos corta o horizonte, de longe
é possível observá-lo sentado sobre a
laje matando o tempo ao tempo que aos
poucos também deixa o tempo lhe matar,
lhe matar a morte. 

Depois abandonam-se mutuamente, 
e ambos ficam, ao partirem, querendo
ficar, mas mesmo assim sempre se vão. 

Quando as heras que cobrem tudo
começam a secar, também é possível 
vê-los juntos como parceiros da mesma
sorte e solidão. 

O tempo traz ao poeta de volta a inspiração, 
e o poeta ao tempo a eternidade que há 
muito não se tinha mais. 

sábado, 26 de setembro de 2026

Isto Universal

Essência de tudo é
princípio e causa,
ao tempo que
essência ou princípio 
da mesma essência é
o Nada.
Não necessária-mente
tudo é preciso (cada
coisa em si), tampouco 
nada é supérfluo ou
inessencial.


C'os Sapos de Manuel Bandeira

Coacham comigo
os sapos que toda
noite é linda...única, 
e coaxo com eles
pra lua seu canto.

Oh! my Bob

Ah! como é bonito ver brincar
o menino Jesus, entre anjinhos 
e querubins: brincar de brincar 
de ser criança, nosso reizinho.
Deus moleque...
vive de brincadeiras e não leva
nada a sério, não é à toa que é
um fim do mundo atrás do outro
pra maioria da humanidade. 
Deus ama brincar de desgraça,
milagre é puxão de orelha. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Quintal

Para não ser só mais um
a ornar os mortos com 
flores mortas, eu decidi 
plantar flores por todos
os cemitérios, e como sei
que morto gosta de terra
e flores gostam de mortos,
resolvi também fazer do
meu jardim um cemitério.