Livros lêem-me melhor quando chove,
preferem-me assim, como nuvens
estremecem-se ao toque de outras
deslizando pelo céu como nenúfares
fazem por superfícies de lagos, os livros
preterem-me quando não lidos, digo,
quando não lido com eles, e como eles
sentimentais são, eu tenho o cuidado de
deixar que livrem-se de não deixar
escapar as emoções que guardam em
páginas ditas donas de todas as palavras
que se encerram ali.
Os livros precisam expressar o que sentem
em relação a mim; as nuvens chovem o que
sentem em relação ao solo; nenúfares
sofrem quando sentem a partida de
salamandras que se abrigavam em si,
isto é, em cima deles ou por sob, como o
céu por sobre as nuvens jamais conhecerá
chuva alguma, do mesmo modo o solo
molhado prefere o sol por não poder
absorver o que será enchente se chover
pra sempre enquanto durar a tempestade:
Ser uma cinzenta nuvem escura por dentro,
não quero reduzir à um raso copo d'água
toda essa furiosa tempestade dentro de mim.
Posso afogar o mundo inteiro, inclusive eu,
mas não quero desperdiçar nem dividir o
meu morrer com outras mortes, e então
por assim dizer, um livro público em
particular, ao ler-me, publicou em suas
páginas:
Ontem Choverá o que Amanhã Choveu!
Só Hoje Há Sol
O Sol Age Só Hoje,
pois hoje eu só queria que chovesse
a vida toda que me resta,
talvez pra sempre, quem me dera,
se a eternidade não fosse tão estúpida
e abstrata. Se hoje eu quero pela vida
que me resta, amanhã me resta esperar
pela vida que me queira, não só um
acho que vai chover, mas sim um parece
que choveu a vida inteira.