quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Madrugada Adentro

Eu não quero morrer dormindo. 
Dentes rangendo em raiva e
bruxismo: pesadelo, sonambulismo 
e insônia. Feitiço. Meu corpo
não é mais corpo, foi corpo um dia. 
Meu corpo é só alma agora, alma só,
como quando só, o corpo sem alma
ardia...mas não é morte, é febre...e
é pior do que morrer sonhar morrer 
todo dia: imortalidade é uma morte
que se repete sempre no tarde da
noite, e entre o sono e a vigília
delirava, dizia:
Eu Não Quero Viver
Morrendo
Eu Quero Viver,
Eu Não Quero Morrer
Vivendo
Eu Quero Morrer.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Fantasmagórica

É vida que nasce
agora do que
agora a pena
risca. Vida agora
pela manhã e
Morte à tardinha.
À noite já será poesia. 

Hierarquia dos Servos

Sob o subterrâneo me refugio, 
conecto-me com o submundo,
meu porão, e o Diabo meu 
caseiro.
Deitado sobre um dossel,
olhando as estrelas, me ponho
espontâneo, me exponho, me
reconecto com o cosmo, me
reconheço, Eu carbono que sou...
E do céu de Deus faço o chão 
da minha sala de Star, e do Deus
do céu meu mordomo... e eu Amo.

sábado, 15 de agosto de 2026

Outono Hostil

Tinha de meados de Dezembro 
à Março para desabrochar essa 
tal flor de Verão que era. Exata 
e fatal é a data: se não abrir até 
o segundo final do último dia do
mês de Março, morre instantâ-
neamente. E o luar do último 
dia eis que surge prateando todo
o azul de luto do céu noturno, e
em aflição o botão passou as ho-
ras a esperar para surgir pra vi-
da. E a noite foi passando e então, 
Abril.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Último Solilóquio dos Suicidas

Ele iria morrer, isso era certo.
Já havia sido decidido por mim.
Podia ser agora, poderia ter sido
ontem, pensávamos, a solidão não 
deve ser a afirmação de tudo que
afligia. Mas era, porém, não mais
do que o contrário. E matar essa
vontade de morrer hoje dá-se em
um ímpeto de vida que me assalta,
uma epifania em déjà vu . 
Querer morrer não é novo, 
e matar-se tampouco, a morte da
maneira como ocorrer, também 
jamais será única. Minha vida
nunca foi o bastante e desconfio
que a morte também me será pouco. 
Não invento nada, em absoluto, 
simplesmente somos o resultado
das nossas emoções. 
Eu sou dois. E o eu que quer morrer
não será o mesmo que irá se matar.
Morreremos os dois, mas somente 
eu matarei. Faço isso por nós, 
sacrifico-me e, não aceitaremos que
ninguém, empregue seu luto em nós. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Caos Poético Mundo

Ao longo desse
curto poema vários
versos foram vistos
sem vida.
Os que não estão 
mortos mataram
os que não estão 
vivos.
A métrica covarde
fugiu e levou
consigo seus vis
versos assassinos.
O poeta ficou só,
ferido, contando e
recolhendo os seus
mortos.
Ainda há sangue
entre linhas,
e dizem alguns
versos rendidos,
metrificados,
que esse foi só 
o primeiro poema.
Muitos outros ainda
hão de ruir,
e a métrica, algoz 
da musa sequestrada,
só irá parar quando
conseguir derrubar 
o poeta, e esse poeta
que jurou jamais
pegar em armas,
promete vingar os
seus versos, e só 
irá descansar sua 
pena quando
libertar sua musa
e fazer com a
métrica o que ela
sempre fez com os
versos: esquartejá-la
para fazer caber
no formato quadrado 
duma caixa de madeira 
e enterrá-la em cada
poema sem métrica 
fixa nem rima regular.
Será para sempre
ela a personagem 
cativa no absurdo de
um caos poético mundo
que sempre tanto
combateu e repudiou.

Caberá ao leitor ir
fundo no profundo
do texto...do poema,
e para encontrar a
caixa, desenterrar
a métrica para essa
jurar-me vingança 
uma última vez.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

O Senhor das Moscas

Levanto um jardim ao redor
de mim e fico observando os
insetos. Chamo de Éden o
Jardim e de Homens os insetos.
Estes Homens ficam o tempo
todo ao redor de mim, adorando-
me, exatamente como as Moscas
fazem quando se deparam com
fezes ou qualquer outra matéria 
orgânica apodrecida.