sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Para a Morte a vida

Impulsiona-me constantemente 
para a morte a vida, chego a
pensar que morro, enquanto de
fato, e embora farto, ainda vivo.
Estou vivo. Absoluto e absorto,
isto é, absorvido pela vida e
absolvido pela morte, e esses
absurdos observam-me 
obstinadamente, como uma fé 
cega em algo amplamente visto
como impossível ou inacreditável.
Assim eu sigo, creditando à meu
cansaço cada conquista que penso
atestar que eu ainda vivo, porém 
me sugere a mesma vida exausta 
que não passo de um fantasma morto.
-É a morte, a morte que me impulsiona
para a vida desde que, de novo,
morri outra vez.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

De Cisão (êntre avec néant)

Desistir de existir
ou
resistir e reexistir 
quem sabe,
quem sabe,
Deus ou adeus?

Jogo o dado e cai o
lado do adeus para cima:

Lanço o dardo da sorte da
minha vida para o alto e
acerto preciso o alvo da
morte decidida, decisiva
sobre mim.

Então Me Mato!

Me mato todos os dias
até a data do dia de morrer,
e se enfim eu morro,
se no fim eu morro,
por que não decidi
viver antes,
vir ver antes a beleza da vida?

Nestes rompantes de ruptura 
de nossa existência, a vida
não deveria se mostrar bela (?)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Avere

Eu sou mais poderoso do que Deus!
Vivo e posso morrer, e Deus?
Tenho minha vida nas mãos não só 
do acaso, não só nas mãos pálidas de
Deus, tenho minha vida em minhas
mãos também, pois sou mortal e 
posso a qualquer instante, por mero
acaso, pela vontade pueril e imperiosa
de Deus, mas principalmente, eu posso 
morrer pelas minhas próprias mãos,
e se me perguntarem o porquê, direi
que se Deus habita em mim, é Ele que
tento matar ao morrer por meus meios,
métodos e vontade:
Queimo a casa e me livro do Rato!

Girassóis

Dançam lentíssimamente dentro
da noite estrelada as flores.
Contam através de canções desconhecidas
dos Homens, para as estrelas, cantam para
as estrelas aquilo que escondem das abelhas,
sempre tão afoitas e apressadas.

As estrelas não têm pressa alguma,
uma vez que a maioria já não existe 
mais, senão seu brilho.
-Mas é para o brilho da luz delas que
cantamos e dançamos - dizem as flores 
do jardim noturno de minha alma.

Minh'alma que também é brilho
inequívoco daquilo que um dia já foi.


sábado, 31 de janeiro de 2026

Totalidade e Solidão

Um só Eu faz de mim
um ser solitário.
Dois de mim são dois 
Eu's solitários, Eu e o
outro Eu.
Três     desses      Eu's 
deixam claro que sou
um Não-Ser.
Sou Eu assim um Deus
S o l i t á r i o.

O Caso Púrpura

Com a data de hoje,
estas horas de agora,
esse pós manhã 
brilhante: a manhã 
brilhante e iluminada 
até a noite ser escuridão:
Esta Será a Hepta Tarde
Sombria Desde Quando 
Comecei a Contar Cada
Pôr do Sol Depois de
Minha Última Morte.

Qual o plural de pôr do sol?

Sete sóis sorriem, todos o mesmo astro,
todos o mesmo riso, ardentes despedindo-
se (fosse teatro, da cena) de mim no
horizonte ao Oeste, não Este, Oeste mais
ao Norte de mim, de novo, não por acaso 
a Morte.

Púrpuras são as cores desse poema.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Soneto

Do poeta poesia é dever,
é devir. Pode ser acaso e
ocaso, é labor e é ócio, é
sacramento e sacerdócio.

É sacrossanto o ser poeta,
tanto quanto é maldito, e
por isso mesmo a poesia é
bem dita maldição.

E toda sua obra deve ser
revolucionária. Poesia que
não transforma não serve

de nada, e no mais, de nada
vale, e mais ainda, poesia que
não desperta, apenas atrapalha.