quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Do Fazer Poesia

Minha poética é dada à decepção,
possui a capacidade de produzir 
versos através de um raciocínio 
torto todo retorcido, e essa sua
razão verdadeira é minha 
disposição como poeta jamais 
suscetível às regras de qualquer 
criação do fazer poesia sob eterna 
supervisão e vigilância da métrica 
com suas rédeas nas mãos e de
cabresto e látego sempre em riste,
mas é minha mão que tem a posse
da pena, minha pena, e se a acusação 
é de que assim eu não passo de um
poetastro, eu declaro abertamente 
em um raciocínio reto que sou sim
um poeta astro e minha poesia um
lume, um farol de brilho radiante 
dentro da escuridão desse fazer
poesia segundo a mesma e velha
cartilha do academicismo arcaico
de sempre.

Esperança

Um dia
ainda
será hoje.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Nonsenseness

Livros lêem-me melhor quando chove,
preferem-me assim, como nuvens 
estremecem-se ao toque de outras 
deslizando pelo céu como nenúfares 
fazem por superfícies de lagos, os livros 
preterem-me quando não lidos, digo, 
quando não lido com eles, e como eles
sentimentais são, eu tenho o cuidado de
deixar que livrem-se de não deixar
escapar as emoções que guardam em
páginas ditas donas de todas as palavras 
que se encerram ali.
Os livros precisam expressar o que sentem
em relação a mim; as nuvens chovem o que
sentem em relação ao solo; nenúfares 
sofrem quando sentem a partida de
salamandras que se abrigavam em si,
isto é, em cima deles ou por sob, como o
céu por sobre as nuvens jamais conhecerá 
chuva alguma, do mesmo modo o solo
molhado prefere o sol por não poder
absorver o que será enchente se chover
pra sempre enquanto durar a tempestade:
Ser uma cinzenta nuvem escura por dentro,
não quero reduzir à um raso copo d'água 
toda essa furiosa tempestade dentro de mim.
Posso afogar o mundo inteiro, inclusive eu,
mas não quero desperdiçar nem dividir o
meu morrer com outras mortes, e então 
por assim dizer, um livro público em
particular, ao ler-me, publicou em suas
páginas:
Ontem Choverá o que Amanhã Choveu!
Só Hoje Há Sol
O Sol Age Só Hoje,
pois hoje eu só queria que chovesse
a vida toda que me resta,
talvez pra sempre, quem me dera,
se a eternidade não fosse tão estúpida 
e abstrata. Se hoje eu quero pela vida
que me resta, amanhã me resta esperar 
pela vida que me queira, não só um
acho que vai chover, mas sim um parece
que choveu a vida inteira.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Para a Morte a vida

Impulsiona-me constantemente 
para a morte a vida, chego a
pensar que morro, enquanto de
fato, e embora farto, ainda vivo.
Estou vivo. Absoluto e absorto,
isto é, absorvido pela vida e
absolvido pela morte, e esses
absurdos observam-me 
obstinadamente, como uma fé 
cega em algo amplamente visto
como impossível ou inacreditável.
Assim eu sigo, creditando à meu
cansaço cada conquista que penso
atestar que eu ainda vivo, porém 
me sugere a mesma vida exausta 
que não passo de um fantasma morto.
-É a morte, a morte que me impulsiona
para a vida desde que, de novo,
morri outra vez.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

De Cisão (êntre avec néant)

Desistir de existir
ou
resistir e reexistir 
quem sabe,
quem sabe,
Deus ou adeus?

Jogo o dado e cai o
lado do adeus para cima:

Lanço o dardo da sorte da
minha vida para o alto e
acerto preciso o alvo da
morte decidida, decisiva
sobre mim.

Então Me Mato!

Me mato todos os dias
até a data do dia de morrer,
e se enfim eu morro,
se no fim eu morro,
por que não decidi
viver antes,
vir ver antes a beleza da vida?

Nestes rompantes de ruptura 
de nossa existência, a vida
não deveria se mostrar bela (?)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Avere

Eu sou mais poderoso do que Deus!
Vivo e posso morrer, e Deus?
Tenho minha vida nas mãos não só 
do acaso, não só nas mãos pálidas de
Deus, tenho minha vida em minhas
mãos também, pois sou mortal e 
posso a qualquer instante, por mero
acaso, pela vontade pueril e imperiosa
de Deus, mas principalmente, eu posso 
morrer pelas minhas próprias mãos,
e se me perguntarem o porquê, direi
que se Deus habita em mim, é Ele que
tento matar ao morrer por meus meios,
métodos e vontade:
Queimo a casa e me livro do Rato!

Girassóis

Dançam lentíssimamente dentro
da noite estrelada as flores.
Contam através de canções desconhecidas
dos Homens, para as estrelas, cantam para
as estrelas aquilo que escondem das abelhas,
sempre tão afoitas e apressadas.

As estrelas não têm pressa alguma,
uma vez que a maioria já não existe 
mais, senão seu brilho.
-Mas é para o brilho da luz delas que
cantamos e dançamos - dizem as flores 
do jardim noturno de minha alma.

Minh'alma que também é brilho
inequívoco daquilo que um dia já foi.