domingo, 24 de maio de 2026

A Maldição

Os que vivem pela poesia
morrerão pelo frio fio do
aço do próprio verso.
Morrer de poesia, pelas
mãos da própria poesia 
morrer, quem diria, um
poeta que tanto quis servir
a poesia, que tanto quis 
vê-la livre e fê-la livre, a
primeira coisa que Ela fez
ao desvencilhar-se das
amarras da métrica foi
matá-lo, envenenou sua
verve e serviu para ele como
se fosse um doce e inofensivo 
verso.

O corpo do poeta jamais foi
encontrado, e dizem que sua
desgraçada alma habita cada
um de todos os seus poemas,
e que ao serem lidos, ela passa
a assombrar pelo resto da vida
e a habitar os pensamentos do
leitor desavisado que teve a
infelicidade de ler tão 
desgraçados e malditos versos.

Coalizão

Não quero contato imediato
pacífico, espero destruição,
quero colisão, quero um
choque abrupto de solidão 
intergaláctica, quero uma
união para ambos anularem-
se, quero apocalipse mútuo,
armagedom a dois para
toda alma solitária.

Nunca foi Deus

Nós criamos um
Deus imperfeito 
a nossa imagem 
e semelhança e
Ele nos arruinou,
porém, nunca
foi Deus, a culpa
sempre foi nossa.

Resistência

Utopia anacrônica:
de vanguarda pra ontem.
Pra sempre enquanto nunca.

Conducente

De um céu estrelado lá 
      em cima                  a
toda escuridão             a
toda aqui dentro:
alguma coisa               lá 
fora tem de ser verdade,
do mesmo modo como
aqui dentro tudo
         tende a ser
sempre de uma verdade 
insuportável.    

domingo, 17 de maio de 2026

Tenebrae

Olho sobre a tela e
me veria como Narciso 
se fosse a tela um
espelho d'água raso
de água turva, não 
vejo, o que vejo vejo
São Jerônimo escrevendo 
e me vejo observando o
velho como vejo a caveira 
me olhando (como se
fosse um espelho) da tela.


sábado, 9 de maio de 2026

adanad a

Não há desespero maior
do que perceber que a
miséria humana não só 
te orbita, mas também 
habita você. 
Não só oriunda de ti
como também te orienta,
dizem.
Para mim há algo mais
miserável ainda: criar
palíndromos que nada
dizem,
que nada são e que,
como todo palíndromo,
de nada servem.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pudera

Ninguém é todo mundo
enquanto todos desse
mundo, salvo outros,
são ninguém.
Ninguém é obrigado a
fazer tudo, no mundo
todo, menos eu e não 
tampouco, e então faço 
versos, e ainda que
sejam silêncios e digam
nada, de todo nada, é
esse nada, ou nesse nada,
toda minha filosofia.
Minha poética é outra
coisa: é tudo aquilo que
nada se é. Jamais poderia
ser diferente.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Reflexão

Olha a lua 
   lá...farol
   lar dos meus
Olhos
Olhar do céu 
noturno:
-Eu sou para
você como um
   girassol - me
confessa Ela
do que eu já 
me convenci.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Poema

Ser uma e outra coisa,
ser alguma coisa outra
e outra coisa alguma.
Ser poeta e poesia: poema. 

Ser Raimundo, rima e solução:
o poeta é um ser múltiplo e
singularíssimo, cada um 
único a sua maneira.

Era uma vez um poeta e
seus demônios, o poeta
queria ser Deus e seus

demônios diabos, do mesmo
modo como o Diabo quis ser
Deus um dia, e como Deus

sempre foi um Diabo.

O Poeta é o Diabo de um Deus
e um Deus dos Diabos:
alguma coisa outra e outra coisa
alguma.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Pão Nosso de Cada Dia

Deus escolheu
              colher,
          e  colheu,
o joio que
              cresce
por entre o
            trigo
que       cresce
pelos vastos 
campos do Éden.
O joio colhido 
por Deus é
entregue ao
Diabo,
e então o
pão que o Diabo 
amassou
nos alimenta 
diariamente.