sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quimera

Se o mundo fosse perfeito
Deus seria um luthier e
eu um violoncelo.
Minha alma uma musicista,
a vida uma ópera,
minha família uma orquestra
e minha religião a música.

Soneto

Há ruídos arruinados,
não há mais som,
não existem mais fonemas:
há ruínas no áudio.

No mundo não há
mais barulho, contudo,
ainda ouve-se o pulso
do tempo a tiquetaquear.

Não há mais musica
senão os mudos lábios
do silêncio a assobiar

a contracultura do vácuo,
é a melodia do nada,
a ausência de tudo a soar.

domingo, 9 de julho de 2017

Sit et erit

O passado foi eu,
fui eu!
Eu que no presente
não existo ainda,
eu, que no futuro,
o último que me resta,
serei o único a ter
em meus fosseis a
confirmação de que
realmente fui eu,
foi eu!

Não hoje

Desde deste dia
em diante,
desde desta data,
esta,
não antes,
não hoje,
desde ontem
eu soo como um
ruído agudo
numa vida surda
e quieta.

E então um dia,
não hoje,
quando eu for
silêncio, toda a
vida será uma
festa.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Intrínseca flor

Há dor,
ardor que atesta que
há vida,
mas não corpórea, física.
Há dor
n'alma, sobrehumana,
celestial, poética,
metafísica.
Desconforto num espírito
inquieto, desassossego em
apego a um sintoma
perpétuo.
Não há cura, remédio,
deus, placebo,
não há cisão nem ruptura
que possa aliviar o que
essa alma traz palpitante
em seu coração.
É dor de ser,
de estar, existir,
resistir, excitar,
hesitar, persistir,
tentar...ser...
Dor que não contesta
a vida, que não se manifesta
contra tal dádiva ainda que
doída.
É dor, ardor, intrínseca flor
que mora (morre) no âmago
do âmago de cada átomo que
compõe o corpo que a alma
habita, passa de um para o
outro, do espírito etereo,
metafísico, para o corpo,
para a massa, pro eu lírico,
para o sujeito poético, para
o indivíduo.
É dúvida e essa dúvida é a
única certeza, é dúvida acerca
de tudo que a cerca, de tudo que
a alma vê e observa, e o que ela
vê os olhos do corpo não
enxergam.

Ardor, árduo,
indoor,
a dor que queima
a alma inteira,
de dentro para afora,
para o corpo, e por cada
poro se percebe que por
dentro há chamas de um
fogo incompreensível,
mas pelo que causa,
profundamente sincero
e preciso.


terça-feira, 27 de junho de 2017

Eversão

Reles, razoáveis,
ruins, rasos e raros
versos...não há
rato que roa o já
roído e em ruína
deteriorado mérito.

Nisso tudo

Sou um semi quase,
se me cabe ser algo
nisso tudo, na vida,
na fatídica história
do mundo.
Se pelo não querer
saber eu advogue,
referente ao nada,
se talvez ad hoc eu
fosse ou busca-se
ser, então para o
tudo num todo eu
também poderia ser,
um talvez. Ou não.
Quem sabe alguma
coisa nisso tudo,
poetas, filósofos,
deuses e diabos
do mundo?
Tudo o que sei, sobre o que
compreendo é o que penso
saber, e aquilo que não sei
possui as mesmas qualidades
e características quando julgo
sabê-lo, pois, sendo assim,
o que afinal detém toda a
sabedoria, e até onde ela é
verdadeira?
Os físicos e os loucos,
em sua maioria, são os que
mais sabem, os cientistas
sabem que sabem muito
pouco, por isso o exercício
da ciência.
Os religiosos se apegam e
fazem carreira na ignorância
por serem, nisso tudo, os mais
miseráveis.
O poeta por nada entender
faz poesia, a poesia por nada
explicar (a única que, por si só,
explica- se sozinha) habita nisso
tudo as entrelinhas.
Os filósofos, coitados, por acharem
que sabem tudo, da graça da
sabedoria, são com certeza os mais
desgraçados.
O amor sim, ele sabe, nele está a
resposta de tudo, de e para todos,
porém, nesse mundo, não há nada
mais misterioso e incompreensível.