terça-feira, 10 de outubro de 2017

Ismos

Todos em um em todos,
personas, hágios, demônios,
múltiplos karmas numa
alma apenas. Muitos eu's
em mim em pandemonio.
Muitos em mim são eu's
que abandono, porém,
ficam a vagar pelo âmago
como mendigos, como eu's
vencidos por mim mesmo.
São rebeldes, dissidentes do
que penso, acostumar a viver
com eles me faz ser um
lúcido louco quase
esquizofrênico.

Insepulto

O último poema de amor
que escrevi morreu iludido,
então eu, de luto, decidi
não mais escrever poemas
de amor, e para não
esquecer, o poema que
morreu, deixo ele em
minha alma insepulto.

Depois das Drogas

Eu me conheço com muito mais
propriedade agora,
depois das drogas,
como um refinamento e
purificação, ficou só a
essência da personalidade.

Depois da morte há vida
e essa sim é maravilhosa.

Depois de agora só me
resta a eternidade,
depois das drogas me
resta apenas ir embora...
atrás das mesmas e
velhas novidades.

Ofuscaos

Apática a paz
perdeu o foco,
a prática.
Percebeu que
o bem segue seu
ritmo a máxima
da guerra,
'a única higiene
do mundo'.

A fraca paz
aquém tática,
a paz espontânea,
sua derrota a quem
apraz?

Seus dissabores alimentam
a gula dos senhores da guerra.

Mas sua vitória se
faz instantânea
sempre que pela
frente encontra o
caos imaginando
alguma quimera.

Taquigrafia

Felicidade é a priori,
tristeza é ciência aplicada.
A vida dura ainda que piore,
poderá ser boa e, mesmo que
melhore, poderá ser dura.
Existe uma difetença de
escolha, um paradoxo que
você só percebe depois que
morre.

domingo, 8 de outubro de 2017

Em oposição ao verso

Por oposição ao sol, minha sombra,
fruto dessa luz. Levanta-se contra o
iluminador, a criatura, a luz criadora
encontra-se agora contra a sombra
que criou.

Assombra-se como outrora,
quando a Terra em relação
a si fazia-se contrária a sua
aurora. Não havia rotação,
o planeta apenas ruminava.

E quando houve luz
também assim houve
glória.

Da escuridão da falta de luz
para as sombras da luz de agora.

Por oposição à prosa
eu verso, inverso,
eu em versos versus
os versos da poesia que
se sente assim, tão presa.

Para os poetas que gritam amiúde:
-pô, ética, para os poetas da falta 
de métrica, para eles eu faço da
minha poética um foda-se.

domingo, 1 de outubro de 2017

O Macaco Nú

Um copo de cólera,
os irmãos Karamazov e eu
bebíamos numa noite na
taverna. A metamorfose
operava entre nós,
bebíamos ao admirável
mundo novo, à gaia ciência,
à vontade de potência,
fazíamos de nossos brindes
elogios da loucura
e em nossos copos tomávamos
um pouco de tudo, era o
crime e castigo, o vermelho e o
negro juntos e altamente
destilados. Ébrios, tão altos quanto
o trópico de câncer...
mas nem por isso parávamos,
resistir ao álcool é uma atividade
difícil, como o amor nos tempos
do cólera, éramos resilientes.
Eram noites brancas de lua brilhante,
sentíamo-nos bem juntos como se
tivéssemos passados cem anos de
solidão em uma estação no inferno,
não éramos mais os miseráveis de
antes. A bebida fez da taverna nosso lar,
os demônios bebiam conosco,
o menos alcoolizado ao andar parecia
o diabo coxo, um outro mais empolgado
falava de religião e dizia que iria abrir
uma igreja do diabo. Todos nós ríamos,
tudo era belo e agradável como uma
divina comédia. A bebida em nossos copos
era cerveja de espumas flutuantes,
que iam para além do bem e do mal.
Uma dama me olhava me avisou madame
Bovary, a estalajadeira, estava explicando
para os demais o modo como vivia,
minha filosofia da miséria, então parei
meu discurso do método e meus olhos
viram Lucíola, linda dama da noite e,
dali pra frente, senhora de todos os meus
dias. Serei seu eterno marido e ela minha
nova Heloísa. Lembro que vi marcado na
mesa o ano 1984, meu ano de nascimento,
mas isso não importa, estava bêbado
imaginando a casa velha que estou por
fora e o castelo que me sinto por dentro.
Do ano em que nasci até aqui, ah! quantos
outonos idos, admiro o novo e amo o
passado. É como se todos estivessem a colher
seus frutos com máquinas e eu ainda com
minha lavoura arcaica colhendo as flores
do mal por entre as dores do mundo.
Essas minhas afinidades eletivas me deixam
entre o ser e o nada e, perante o cosmos,
quando amiúde em mim eu me sinto
pequeno, sei que é porque sou humano,
demasiado humano, ou menos.