sexta-feira, 1 de abril de 2016

Cicatrizes

O amor empírico deixa
feridas obvias,
maviosas, sobras de um
sentimento que passou,
mas tais cicatrizes são
a gloria honrosa,
nessa vida,
de alguém que já amou. 

O drama do louco poeta sem alma da triste figura

Era noite. A escuridão aludia
a um frio que quase não
existia, mas estava lá, em sua
alma, cortante como a lâmina
da foice da morte que ceifa
as vidas que para ela nunca são
o bastante, nunca a acalmam.
Era outono. Ou sempre fora,
nunca conseguira existir em
outra estação, mas no outono
sempre conseguia supor e imaginar
que talvez nele pudesse realmente
habitar, sua existência sempre
foi suposição.
Era poeta. Desses libertinos
audazes que desenham versos
sem métrica, por mais talento
que tivesse nunca obtivera
sucesso e sua poesia só era lida
pelo desprezo que para com ele
tinha profunda empatia e apreço,
ou tivera. Sua pena desdenhava
das palavras dos detratores,
desenhava poemas cada vez mais
enraizados naquilo que desagradava
seus algozes e censores. Dentro do
caldeirão desses senhores, onde
ferve a sopa de mil sabores,
ela buscava o caldo que alimentava
sua verve para nutri-la com o
mesmo veneno e assim torna-la
imune aos alheios desesperos e
dissabores. Era uma pena digna de
ser empunhada pelo mais nobre poeta,
mas sobre nobres poetas só há rumores.
Esta pertencia ao poeta da triste figura,
um ser inquieto, quase fantástico,
dono de um lirismo que satura,
ora abstrato ora profético, reflexo
soturno da sua alma impura,
maculada pelo destino num
traiçoeiro amplexo de vil ternura.
Era um pacto. O poeta empenhorara
sua alma ao destino em troca de
inesgotável inspiração, quando lhe
cansasse a fonte das idéias o poeta
resgatava sua alma e dedicaria
todos os versos escritos nesse período
ao destino com respeito e admiração.
Mas não sabia o poeta que a verdadeira
inspiração vem justamente da alma e a
válvula que regula o fluxo é o
conselheiro coração. Desde então
enlouquecera por não conseguir dar
vazão as idéias que pululam sua mente,
por não conseguir transformar em poemas
tantos pensamentos que surgem
incessantemente. A sua infinita inspiração
o transformou em um morto vivo,
em um poeta sem alma enganado pelo
destino por ser ingênuo em sua ambição.

Cegos surdos e mudos

Em terra de cegos
aquele que se sente
sendo observado é
poeta.

Em terra de surdos
aquele que emudece
o silêncio é poeta.

Em terra de mudos
aquele que conhece
o sabor das consoantes
servidas em meio as
vogais num fonema
é poeta.

Em terra de poetas
aquele que orienta
seus versos apenas
pela métrica é
cego, surdo e mudo.

Dolo e Ardor

Dá pena ver o amor
sofrendo tanto por nós.
Que culpa ele tem de
querer nos ver juntos
e assim se encontrar?

É triste saber o quanto
ele se perdeu.
Dá pena vê-lo se
sentindo culpado,
enquanto nós como
casal apaixonado,
nunca aconteceu.

Na certa ficaria
mais triste em saber
que desde o princípio
(com dolo e ardor)
nós sempre desejamos
luxúria e prazer.

Tolo amor,
quando em sua
misteriosa existência
irá enfim aprender?



Lugar Nenhum

Há pássaros à passos de mim,
próximos, ao acaso ou à caça
de migalhas nas praças e jardins.

Há raros entre os comuns,
alguns são estrangeiros e
tantos outros são de casa.

Há pássaros à passos de mim,
e eu que a lugar nenhum pertenço,
os invejo as asas.

Primeira Pessoa

Sou portador da síndrome de mim,
raríssima, dizem que sou o único
no mundo a desse mal padecer assim.
Já nasci doente, é cronica, com o
passar do tempo vai ficando cada
vez mais evidente que sofro de tal
síndrome, pois tenho todos os sintomas.
Não há remédio para combater
minha enfermidade, o que a torna
suportável é aceitar que sou portador
e não esconder que sofro dessa
síndrome de minha personalidade.
A ciência diz que posso levar uma
vida normal, mas a religião garante
que estou condenado e que meu corpo
e alma doentes não serão aceitos no
leito de nenhum hospital.
Sofrer é sinônimo de existir!
Eu como caso único na história me
sinto muito sozinho, sei que essa
síndrome apareceu junto comigo
e vai sumir assim, quando eu for embora.
O que me acalenta é que não é contagiosa,
esse meu sofrimento a ninguém eu posso
transmitir.
Sou filho legítimo, único e último dessa
endêmica rara presença que dentro de
mim mora.
Tenho comigo uma crença,
acredito que de tão acostumado
com minha síndrome,
hoje é certo que ela não
mais me aflige e,
uma cura,
seria pior do que a doença.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Depois de Cristo

Depois de Cristo, todos nós,
filhos bastardos da cruz e do
cristianismo atroz.
Nós que temos vivido sob a
tirânica proteção divina,
nós que somos todos grãos
de areia de uma ampulheta
cretina, a vida. Não negada
simplesmente, mas vista e
vivida, amargamente. Somos
o resultado do devido devir
que se deu durante todo esse
tempo depois de Cristo.
Nós somos o legado de Cristo,
e a única coisa que não
sabemos é amar. O amor de
Cristo morreu com Cristo,
o que nos restou é o
sentimento genérico do
cristianismo, o amor sintético
do miserável catolicismo.
Não há liberdade no amar,
há dogmas;
 Não há liberdade no viver,
há pecados, culpa.
Não há nada mais inerente
ao Homem que o livre arbítrio,
e o cristianismo insiste,
arbitrariamente, em afirmar que é
à ele que se dá a patente de
toda essa liberdade natural.
O sim e o não pode até vir
de Deus, mas o talvez é a nossa
única arma em toda essa
pertubação chamada cristianismo,
chamada religião.
Liberdade é a presciência humana,
não vem de Deus, basta existir.
Ao invés de religião, Cristo
errou em não disseminar suas
idéias em forma de dissidência das
ordens do seu pai. Hoje,
seríamos pai também, e não
impotentes irmãos.