[Na comiseração de novos calendários
o amanhã será o mesmo velho dia
de sempre. Quando haverá continuação
nunca mais?]
Sou um desastre e posso ser,
ou melhor, passo a ser destruição.
Se como Humano sou um Diabo,
como Diabo sou Deus, e como
Deus sou mais um Homem falho:
Valha-me um adeus.
Eu sou guerra, eu sou devastação.
Atuo em um hiato entre o ontem e
o amanhã: eu sou hoje. Sou sempre.
Nada (de novo) veio antes de mim
nem nada virá após, aliás, o que vier
será apenas a mesma devassidão.
Outro presente. Quisera ser de todos
o fim.
[eis que todas as almas são minhas,
assim como a alma dos Homens,
a alma de Deus também é minha,
a alma que se omitir, esta sobreviverá:
lembre-se que Deus é eterno]
Eu sou eternidade que muito em breve
colapsará, e meu pós-apocalipse é Éden,
mas sem ser jardim, sou um cemitério
de perto, e de longe, ao longo da linha
do horizonte de cada trêmulo olhar,
eu sou a cova rasa que cada um de
nós merece.
Sou o poeta da morte, sou a morte
de todos os poetas, minha poesia é
a saúde inabalável de uma doença
que sobre todos os versos se abaterá.
Hoje.
O melhor a se fazer não é se matar,
bom mesmo é não viver (de novo)
jamais. Não mais como ontem. Ser
um hoje que amanhã algum conceberá.
Se tudo acaba agora, é porque percebe
que o fim (da noite) há muito já começara.