terça-feira, 18 de agosto de 2026

Fantasmagórica

É vida que nasce
agora do que
agora a pena
risca. Vida agora
pela manhã e
Morte à tardinha.
À noite já será poesia. 

Hierarquia dos Servos

Sob o subterrâneo me refugio, 
conecto-me com o submundo,
meu porão, e o Diabo meu 
caseiro.
Deitado sobre um dossel,
olhando as estrelas, me ponho
espontâneo, me exponho, me
reconecto com o cosmo, me
reconheço, Eu carbono que sou...
E do céu de Deus faço o chão 
da minha sala de Star, e do Deus
do céu meu mordomo... e eu Amo.

sábado, 15 de agosto de 2026

Outono Hostil

Tinha de meados de Dezembro 
à Março para desabrochar essa 
tal flor de Verão que era. Exata 
e fatal é a data: se não abrir até 
o segundo final do último dia do
mês de Março, morre instantâ-
neamente. E o luar do último 
dia eis que surge prateando todo
o azul de luto do céu noturno, e
em aflição o botão passou as ho-
ras a esperar para surgir pra vi-
da. E a noite foi passando e então, 
Abril.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O Último Solilóquio dos Suicidas

Ele iria morrer, isso era certo.
Já havia sido decidido por mim.
Podia ser agora, poderia ter sido
ontem, pensávamos, a solidão não 
deve ser a afirmação de tudo que
afligia. Mas era, porém, não mais
do que o contrário. E matar essa
vontade de morrer hoje dá-se em
um ímpeto de vida que me assalta,
uma epifania em déjà vu . 
Querer morrer não é novo, 
e matar-se tampouco, a morte da
maneira como ocorrer, também 
jamais será única. Minha vida
nunca foi o bastante e desconfio
que a morte também me será pouco. 
Não invento nada, em absoluto, 
simplesmente somos o resultado
das nossas emoções. 
Eu sou dois. E o eu que quer morrer
não será o mesmo que irá se matar.
Morreremos os dois, mas somente 
eu matarei. Faço isso por nós, 
sacrifico-me e, não aceitaremos que
ninguém, empregue seu luto em nós. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Caos Poético Mundo

Ao longo desse
curto poema vários
versos foram vistos
sem vida.
Os que não estão 
mortos mataram
os que não estão 
vivos.
A métrica covarde
fugiu e levou
consigo seus vis
versos assassinos.
O poeta ficou só,
ferido, contando e
recolhendo os seus
mortos.
Ainda há sangue
entre linhas,
e dizem alguns
versos rendidos,
metrificados,
que esse foi só 
o primeiro poema.
Muitos outros ainda
hão de ruir,
e a métrica, algoz 
da musa sequestrada,
só irá parar quando
conseguir derrubar 
o poeta, e esse poeta
que jurou jamais
pegar em armas,
promete vingar os
seus versos, e só 
irá descansar sua 
pena quando
libertar sua musa
e fazer com a
métrica o que ela
sempre fez com os
versos: esquartejá-la
para fazer caber
no formato quadrado 
duma caixa de madeira 
e enterrá-la em cada
poema sem métrica 
fixa nem rima regular.
Será para sempre
ela a personagem 
cativa no absurdo de
um caos poético mundo
que sempre tanto
combateu e repudiou.

Caberá ao leitor ir
fundo no profundo
do texto...do poema,
e para encontrar a
caixa, desenterrar
a métrica para essa
jurar-me vingança 
uma última vez.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

O Senhor das Moscas

Levanto um jardim ao redor
de mim e fico observando os
insetos. Chamo de Éden o
Jardim e de Homens os insetos.
Estes Homens ficam o tempo
todo ao redor de mim, adorando-
me, exatamente como as Moscas
fazem quando se deparam com
fezes ou qualquer outra matéria 
orgânica apodrecida.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Incontinenti

Mesmo que
tardiamente 
é sempre bom
viver agora,
depois de hoje
será antes
ontem do que
nunca: 
o amanhã 
adeus
pressente.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Eudemonista

Eu sigo feliz,
pois soul feliz,
sempre demons
dada com Deus,
meu Deus, é claro.

Isto é

Nem tudo é Deus, 
dizem, isto é,
apenas quase tudo
pode ser Deus:
Quase é Deus sim,
ou ao menos
poderia ser, e o
resto, ou seja,
Tudo, esse não é.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Filactera

Uma imagem
fala mais do
que mil
palavras:
-ah! quem me
dera eu
pudesse
desenhar
meu silêncio.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Ressentido

Ser ateu não por
duvidar ou por não 
acreditar na
existência divina,
ser ateu por (acre-
ditar) não ser um
Deus também.
Ser poeta não para
fazer versos medíocres,
ou bem polidos e
metrificados no
modelo exato como
diz a bíblia, digo,
a cartilha, ser poeta
para através da
poesia poder ser
um Deus também.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Quando Ontem será

Morrem aos montes
muitos Hojes querendo
ser Amanhã, e deixam
de viver a glória que é
ser Hoje, pois um número 
muito reduzido consegue 
chegar lá, e quando 
conseguem perceber-se
Amanhã, quase todos
lamentam ser e parecer
o mesmo Hoje de antes,
mas acontece que antes
Eles eram verdadeiros e
atuais, úteis, e agora se
veem deslocados, obsoletos 
e ultrapassados.

domingo, 5 de julho de 2026

Práxis

Entre as vísceras do poema,
por entre as entrelinhas, nas
entranhas do âmago dos
versos, lá, ao longe, de onde
nasce e surge toda a sombra
ou sorte de cores cinzas e
púrpuras que colorem sua
escrita, ali, entre penumbras,
se abriga e habita o poeta.
E aqueles que encontram seu
esconderijo, ao voltarem de
lá, não voltam, ficam para
sempre achando terem 
escapados. Mas jazem lá 
suas almas, sepultada e vivas.
E delas o poeta se alimenta e
municia sua poética e afia a
lâmina do aço de sua verve
nos crânios das almas cativas
para poder produzir mais
versos e para que sua poesia
possa fazer mais vítimas.
Esse poema é carne, leitor, e
sua alma pertence agora a 
esse corpo poético.

Versos Saturnais

Meus versos são máscaras
vivas, másharas, alegorias
místicas que usam meu
rosto e face como traje,
usam minha cara de poeta
como fantasia para suas
festas regadas a drogas,
sodomização da métrica e
sexo entre deuses e Eles.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Degeneração

O morrer inventou a morte,
                                    a morte
o poeta,
o poeta     inventou a solidão,
                                    a solidão 
a poesia...
a poesia tende a matar Deus...
                                           Deus,
o inventor de Homens,
horríveis bestas, da natureza
a criatura mais feia, a única
a ser facínora:
Da poesia ao poeta:
deves criar um criador
sem jamais cair em redundâncias,
parece impossível porém:
o Homem criou Deus,
inventado à sua imagem
e exata semelhança.

domingo, 28 de junho de 2026

Aeternalismo

Escrevo a vida, porém,
confidencia a morte minha poesia.
Escrevo para não morrer.
O que quer dizer que escrevo a
eternidade.
O que seria do prassempre que
haverá eterno,
se não fosse esse instante que
acaba agora?

sábado, 27 de junho de 2026

Que permanece por muito tempo no mesmo lugar

Deus é um morador de rua,
um mendigo, um pobre Diabo.
Vive de esmolas, moedas, migalhas.
O pão dele de cada dia você não 
deu hoje, não é mesmo?
O pão dele de cada dia depende da
boa vontade dos transeuntes que
por Ele passam.
A caminho da igreja você passa
apressado, ignora, passa por cima,
atropela, violenta, agride, manda 
ao inferno... põe fogo.
Chega sobressaltado ao destino,
senta-se buscando abrigo e consolo.
Ora, reza, pede, chora e se emociona,
sente-se acolhido, como um escolhido
entre milhões.
Contribui generosamente com o 
dízimo, deixa o pastor, o padre, a igreja,
deixa a igreja mais rica, feliz, satisfeita.
No caminho de volta para casa prefere
ir por outra rua, para não ter de cruzar
de novo com àquele desgraçado,
vagabundo, que nada faz senão deixar
o mundo, a vida, um lugar mais feio
e sujo.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Prescrevo

O silêncio 
me falta
sempre
quando
eu não 
tenho a
palavra:

É quando 
sempre escrevo.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Doxaxioma

Com sangue entre linhas,
a relação entre a poética,
sua poética, e o poeta:
às vezes as vestes de um
protege a nudez do outro...
não do frio do aço dos
versos, mas do olhar de
cobiça da métrica.
Os versos e a verve vivem
em promiscuidade com
uma (assombrosa) sombra
da métrica abolida e escorraçada.
O vermelho em meu tinteiro 
sugere que minha pena é
assassina e que esse poema foi
escrito com sangue...
mas não houve morte alguma,
por ora não, não nessa hora,
e a tinta no tinteiro é sangue do
poeta suicida, quem escreveu estes
versos. Mas o poeta não se matou,
pois não há morte segura para Ele,
nem mesmo a auto-infligida:
-vale mais a vida - dizia a sofrer -
falha-me a vida - sentia-a a viver -
minha morte é um poema que só 
eu posso escrever, uma vez que 
me encontro poeta e minha vida
nunca foi poesia:
Deus não soube escrever tais versos 
e o Diabo tampouco, e eu sequer 
me dei a querer...não sei escrever...
desenho esse poema a vermelho,
feito de versos a sanguínea, são a
exata semelhança de tudo:
a morte um desenho feito a mão,
um autorretrato ao invés de algum
qualquer poema épico.


domingo, 21 de junho de 2026

Admoestações

Primavera estéril de 
flores natimortas;
Verão de um gélido 
frio do Éden;
Outono de árvores
mortas e fudidas;
Inverno quente infernal.