quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Ocasião Temporal

Antecede o passado o futuro
e sucede o presente o passado:
O passado é Quando, 
está à frente do tempo,
é Sempre.
O futuro é passado, obsoleto...
e a eternidade mora atrás do
tempo, à frente, do mesmo
tempo, é de onde brota desse
passado a nascente.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Sete Manhãs

É incrível como nas segundas-
feiras eu não me tenho, odeio 
tudo, tudo em mim odeia tudo,
eu inclusive. No domingo à
tardinha sinto uma insegurança 
terrível, quase um medo desmedido
de todos os amanhãs que me restam,
e uma plena insatisfação pelo meu
presente e por meu passado que 
me detesta. As terças e quartas são 
dias normais, iguais entre si, na
quinta-feira meu humor é mau,
aliás, mais que mau, ele é mal,
é vil, e me sinto cansado e irritadiço,
quando não irritadíssimo. 
As sextas-feiras são dias assaz
agradáveis, quase tão bons quanto 
os sábados. No domingo eu morro 
e me enterro vivo, e na segunda-
feira ressuscito como quem jamais 
quis estar vivo, o que dirá então 
viver outra vez.

domingo, 26 de outubro de 2025

Qual o Contrário de Milagre?

Eu não acredito no acreditar em Deus,
se ele existe ou não, pouco importa, 
eu não duvido da existência, se existe 
ou não, é indiferente: eu não acredito 
nEle, incrível como eu não acredito na
crença, não creio na glória, na graça,
na falsa bondade, no glamour de Rockstar
todo insignificante. Deus não é foda,
é falho, falso e fictício, fútil (e não factível,
pra dizer o mínimo). Que diferença faz se
Deus existe ou não, e se ficar provado hoje 
que Deus existe, o dia de amanhã será 
melhor, ou se ficar provado que não existe,
amanhã será um dia pior do que todos os
dias ruins que a humanidade toda teve
até agora?

Qual o Contrário de Milagre?

Se a humanidade é a prova de que Deus
existe, então eu posso afirmar que é
justamente por isso que eu não 
acredito nEle.

Infinito Indefinido

Gira mundo...
núcleo fora de si:
o Céu calçada dos
olhos e o Chão 
tropeço dos pés,
quando os olhos
no chão os pés 
voam a passos
largos, correm 
como se tivessem
asas a bater,
como um planeta 
a girar revirando
os olhos pelo 
cosmos infinito,
indefinido daqui 
sob um ponto de
vista fixo e
defectível:
em defesa de um 
Si curioso e tímido,
busca...
se esconder.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Aquarismo

Outros tons de Outono em
outros tomos da mesma
Estação dentro das cores
do mesmo olhar castanho 
a olhar cabisbaixo para o
cinza e para o pardacento:
o cinza do céu ao fundo,
e o pardacento das folhas
mortas de amendoeira que
caem machucando a
superfície d'água do lago
em que se olha...
e vão morar lá embaixo,
as folhas, e o irrefletido
do olhar.

sábado, 18 de outubro de 2025

Jesus Diabo

Não estando satisfeito 
eu desço da cruz e
faço pior. 
Jamais eu morreria 
por essa humanidade 
podre, horrível, 
e posso ser melhor e
fazer mais, eu poderia 
matar todos, sim,
praticamente todo
mundo, inclusive meu
desgraçado pai, que de
toda essa gente vil e
escrota é o Deus amado,
pois se eles todos se
dizem cristãos, ah! quem
me dera eu fosse o Diabo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Desconstruíndo

O silêncio declama o que lê, enquanto 
a escuridão observa o que ilumina,
enquanto o desespero acalma a cólera 
de suas paixões não correspondidas,
enquanto o amor mata o amor que
cativou, que por seu turno também 
mata o seu assassino a se vingar,
enquanto a vingança perdoa a todos
convencida de que o perdão é o pior
castigo para quem se torna vez ou
outra responsável por atos imperdoáveis,
desse modo, o poeta culpa deliberadamente 
a poesia por sua desgraçada sorte e pelo
seu fracasso eminente, culpa a poesia
e acusa-a, a acusa e ameaça, a poesia,
visivelmente indiferente, calma, de olhos
bem abertos e silênciosos, perdoa o poeta.
O poema mata o poeta, e seus versos o
devoram com sofreguidão.