terça-feira, 27 de abril de 2021

Eu, deus.

Acreditar em Deus é
desistir de ser quem
se pode ser.
Deus se pode ser
se crer que sim,
ninguém acredita
mais em deus do
que ele próprio.
A toda poderosa confiança
de grande ser e de se fazer
maior cada vez mais,
ao mesmo tempo que se
eleva o tamanho da sua
sombra.
Acreditar em si é poder ser
também todo poderoso,
com a diferença de que
não precisa que outros
postulantes a deuses
acreditem em você 
como Homem.

Breve história de um caso de amor eterno

O Mal já amou uma vez.
O amor é acessível a todos,
mas poucos sabem das coisas,
e todos sabem que o Mal é sábio.
O Mal já andou apaixonado,
o Mal já se fez namorado e
cortejou por longa data o Bem.
O Bem desconhecia o
amor, o Bem pouco sabe da vida.
Sempre foi mais intuitivo do que
sábio, mas o Mal o amou e o
Bem conheceu o amor.
Dissera mais tarde que pressentiu
a paixão, como o frio que receia e
aguarda o calor, porém paixão
não é amor, paixão queima,
o amor aquece, a paixão é fugaz,
o amor diz-se que pode ser eterno,
por isso muitos afirmam que o Mal
ainda anda apaixonado.
O Bem se deixou devorar pela paixão
e entregou-se ao Mal, devorou junto
ao Mal a porção de amor que o
susteve e como quem avisa com um
sorriso que vai embora e não com
um adeus, o Bem abandonou o Mal.
O Mal entregou-se ao obscuro,
viveu da escuridão do coração
abandonado, andou só por entre
os malditos e se assemelhou àqueles
que sabem do ódio.
Àqueles que já amaram uma vez.

sábado, 24 de abril de 2021

Adeuses

Amor, ardor e dor...
foi frio,
foi vil,
foi inverno austral.
Ruim o fim
foi só o começo,
entretanto,
fui bem quando só propus calor,
e indo eu diabo pru'n inferno astral,
quando adeus,
o Deus sempre
foi Eu mesmo:
Deus, Homem,
Animal e
Espírito Santo.

Força Sempre

De quantos passos precisam teus pés
para exercer o ir e vir,
o dever de ser você,
o prazer de estar pronto
para o devido devir;
De quantas idas precisam teus pés
para vir...
para vir a ser teus passos
ida é preciso partir,
de quantas caminhadas se faz
uma partida ideal...
ideal para prosseguir é preciso
continuidade e continuar a
seguir;
De quantas sequências de passos
dados é preciso para teus pés
compor a melodia do ir...
Vá ainda que fique,
faça ainda que force
e esforce-se para chegar
ainda mesmo antes de partir,
força sempre é necessário
para ser,
mesmo que não seja permitido
existir, seja!
seja você o primeiro ser
ainda que o último nascido,
seja você,
o último você é o mais próximo
de agora,
o último você é o mais atual,
lembra você quando primeiro,
lembra, antes do momento de
agora ser,
agora é,
já foi, segue,
partiu para ir e 
nunca mais irá voltar,
pois certamente
certo prosseguirá,
mesmo que dando passos tortos,
teus pés,
tropeça em si tudo o que vem sôfrego
e torpe a caminhada já
sabe de ti, sofre de ti,
a estrada já cabe em ti
e quando não mais andar
por aí,
outros terão tuas pegadas
para saber que também podem ir...
força sempre é preciso ser
forte sempre para ser fraco
quando for preciso ser,
pare, não ande mais por onde
não quer caminhar,
chega!
mas só para aqueles que foram ser
é que chega a hora de parar...
De quantas chegadas precisam
teus pés para cansar,
para alcançar o objetivo
da ida é preciso cansar e,
quando cansado já de tantas
partidas quiser não mais
continuar,
saiba que talvez nunca partiste,
quis ficar,
ficar para ser não é preciso ir...
força sempre para ser,
e pergunta o horizonte que te
olha, que te espera,
quem é você,
quem você é,
quem precisará ser
para estar você a
partir?

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Dar de Si

A vida me promete uma recusa,
uma nova a cada novo dia,
a cada sol que nasce e morre,
uma recusa a cada madrugada,
manhã, noite e tardezinha.
Uma nova recusa a cada passo
dado, ainda que os passos sejam
dados pelo pensamento numa
caminhada pelos corredores
obscuros da cabeça.
À vida uma vontade daquilo que
inexiste não lhe assusta,
e sem insistência a vida
consegue fácil o que quer,
faz existir. E eu insisto numa
idéia. Dou de mim.
Sei que enquanto estiver 
prometido à vida, ela sempre
me encarará com a mesma
recusa nos olhos.
Mas um dia a vida trará
a morte no olhar me
dando-a de ombros,
eu que para ela sempre
fui um tanto faz.

Insônia Modorra

Eu sabia e sempre soube
que havia vida ali,
onde a morte coube,
onde a vida ouvia e
ouve o silêncio que da morte
re-tumba,
é onde a vida morava,
talvez mora ainda ou pode ser
que apenas ressoe...re...soa.
Já jazia quando morreu,
sorria quando chorou e
chovia quando chorava,
muito, mas doce era e é
dessa chuva a lágrima.
Eu sabia que sempre houve
dúvidas acerca das certezas
da vida,
sobre o silêncio da morte
e o molhado da chuva,
no certo eu sonhava
enquanto morria.

Presente Sombrio

No escuro antecipa a visão
o tato,
precede o tempo quem
pressente o medo,
se adianta ao fardo,
como intuição antepõe-se
ao futuro,
ao fato.
Como procede o presente
que sabe de tudo e que,
leitor do passado,
é como do sábio a visão,
o faro.
Há luz no tempo passado
e escuridão à frente,
o tempo presente assombra
o futuro,
faz sombra lá o hoje
iluminado.
A sombra é um silêncio da luz.