segunda-feira, 22 de maio de 2017

Visão Sonora

A última visão dita por meus olhos
calou-se. O silêncio, a imagem vista
próxima, ao longe, era o medo que
desperta em nós o ruído do horizonte
nos olhando.

— A última vez que eu o vi,
disse meu olhos para meus passos,
estava ele se afastando.

Overdose

Noite nua, despida para a festa,
o destino me leva a ela trajando
eu o meu disfarce de inocente
juventude. Chego jovem e bebo
todas, lá por minha maturidade
já me sinto um pouco tonto e,
torto em pé, consigo ir atrás de
outras doses. Mas eu quero mais,
meu vício decrépito devora cigarros
jovens como que insaciável.

A noite brilha em
meus olhos a energia
fantástica da cocaína.

Começo a chegar em minha
velhice, desbravo a madrugada
como quem procura fugir da
manhã, e quando chego até a
saída, são os outros que me
carregam para fora.

Parêntesis

Fosse verdade nosso amor,
não foste.
Hoje é saudade o que passou,
e, na memória as reminiscências
não doem,
dor é esquecer
o que (não) passou.

Obliquietude

Percebi pelo sotaque do inaudível
que o silêncio me era familiar.
Meus tímpanos, crédulos do incrível,
fizeram perfeita leitura do timbre e,

para os olhos poderem acreditar,
descreveram do silêncio os detalhes
e pormenores dos traços, dessa forma,
a vista aos poucos, a prazo, convenceu-se

de que realmente percebia a ausência,
e mais tarde, quando ela esse fato olvidar,
poderá recorrer ao estimado ouvido

quando, diante do mesmo caso, perceber
as pálpebras em estranha impaciência,
estará o ambiente em vácuo pelo nada que há. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Soneto

Ao meu lado uma garrafa,
enquanto o silêncio e eu
balbuciamos nosso olhar
sobre algo que se passa.

Uma garrafa sóbria e quieta,
de re-sentimento destilado,
placebo inspirador como o éter,
nos cura daquilo que causa.

Em uma quietude profunda, conserto
um lapso ruidoso do silêncio,
e ele em instigadora calma,

pulula todo o ambiente entre
e ao redor da garrafa e eu,
eu...com o corpo embriagado pela alma.

Vampirismo

Maxilares de
máxima potência
em ação. É a
miséria do meu ser
devorando tudo
que me cerca
para a sua cruel e
necessária nutrição.

eu primeiro

Sempre me perco
quando saio à procura
de mim mesmo,
então quando me acho,
nunca volto a encontrar
o eu primeiro.