quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Janistroques

Sou leigo,
sou laico,
sou nada.
Aceito,
concordo e
acato a ideia
dada.
Sou uma copia exata,
sou certeza absoluta.
Não minto,
não peco,
sou ética superestimada,
condicionada a ser
reflexo de alheia postura.
Sou sociedade,
sou Estado,
sou pequeno burguês,
sou asco,
sou avesso a toda ruptura.

Sou um tom mais claro,
sou suave,
quase como o silêncio
em figura.

Sou leigo,
sou laico,
sou porra nenhuma.

Soneto

Do bocejo à insonia
Do nascimento ao suicídio
Do desejo à vergonha
Do píncaro ao precipício.

Do universo ao bairro
Do psicodélico à missa
Do amor ao nojo
Do prazer à agonia.

Da poesia à cronica
Da literatura à liturgia
Da vanguarda à ladainha.

Do poema ao discurso
Da nostalgia ao futuro
Do verso livre ao soneto.

Não Lidos

Alguns livros velhos,
é tudo que tenho.
Meus poemas não lidos,
de desenho simples aos
olhos de todos passam
despercebidos.
O que exprimem de belo,
o que dizem os livros,
velhos despercebidos?

Talvezes

Não há refrão,
não há rica melodia
nem ao menos canção.
Alem do mais, se houvesse,
quem ouviria, alias, quem
perceberia música em
minha solidão?

Não há solidão,
não há silencio
nem ao menos som.

Sendo assim,
o que há então?

Só talvez, talvez.

Depois do Futuro

Do infinito, logo se chegará
ao fim, mas ninguém saberá
quando. Assim como o fim do
universo também está próximo
de ser conquistado, por quem
e quando, ninguém poderá saber.
Talvez amanhã ou depois,
quem sabe depois de amanhã
por algum filho meu, ou pelo
filho dele, mas talvez eu nunca
seja pai. Quem é capaz de saber
o que ou quando,
o infinito, o universo,
meu filho... tanto faz.

Soneto

Uma garoa fina ainda é chuva,
versos sem métrica são poesia.
Uma virgem acariciada ainda é pura,
minhas emoções disciplinadas são rebeldia.

Uma noite enluarada ainda é escura,
cabeças cheias de novidades são vazias.
Um tímpano em ruídos ainda escuta,
revoluções após guerras são tardias.

Para muitos a vida é taça de cicuta,
sonhos, esperanças, paixões, alegrias...
é tudo artimanhas da mesma filha da puta.

As impressões que temos são subjetivas
acerca de tudo nessa ilusão maluca,
pesadelos para alguns, para outros maravilhas
                                                      [gratuitas.

Dedos Tortos

Era um pouco mais da meia noite
por onde ele ia, mas na realidade
era uma noite inteira, escura e fria.
Estava a tentar se perder pela floresta,
mas naquela noite não seria a mata
quem o hospedaria em sua escuridão
deserta. Trazia consigo o oficio maldito
de fazer versos, nunca conseguira se
livrar da desgraça de ser poeta e por
conta disso vivia imerso em devaneios
e pensamentos sórdidos. De tanto tentar
transformar isso tudo em razoáveis
versos trazia em sua mão já alguns
dedos tortos, castigados pela árdua
labuta de sua pena que sofria para
compor como sofre uma mãe no parto.
As árvores, que a fraca luz da lua
iluminava, ao vê-lo passar fingiam-se
de natureza morta, e o aspecto
fazia-se mais sombrio ainda devido a
lívida e espectral presença do luar.
"Ah! quanta ilusão", murmurava os
seus passos no ato contínuo do seu
caminhar, "quantas somas de tolas
esperanças me levaram a acreditar
em minha tirânica vocação", delirava
ao se embrenhar cada vez mais na
escuridão e, ao perceber que cada
passo dado em qualquer direção
nunca o levaria a deixar de ser poeta,
parou, acariciou seu desespero com
desdem apenas por comunhão ao
desprezo e seguiu, não poderia voltar
uma vez que já não pertencia ao lugar
de onde partiu. Após ter atravessado
toda a floresta e a madrugada, junto
com o nascer do sol pode observar
a pequena entrada de uma afastada caverna,
"é ali que irei me encerrar para não mais
observar o mundo e a vida que existem
fora daquele lugar, deste modo, nada
irá me inspirar e assim não mais escreverei".
Mas era tolice, não sabia ele que sua
inspiração acontecia de dentro para fora
e não o contrario, e por mais que ali para
sempre morasse, ainda assim não deixaria
de ser o mesmo escravo.
Mas então ali ficou, passou todo o resto
da sua existência na caverna, e hoje,
naquele lugar, há a lenda de um velho
asceta que ali viveu e pelas paredes da
caverna há mais de milhões de versos
que até a morte ele incessantemente
escreveu.