sábado, 22 de agosto de 2026

Naty Morta

Ela seria feliz ou não,
ou melhor, seria mais,
seria feliz e não. 
E quando triste, seria
toda. Teria dias em
que desejasse sumir e
seria encantadora 
quando fosse plena
toda felicidade dentro
dela. 
Se chamaria Natália e
poderia querer ser
nutricionista e também
advogada, poderia ser
balconista de lanchonete 
e trabalhar com artesanato. 
Não namoraria antes dos
vinte anos e seria lésbica,
ou morreria virgem ou
seria prostituta...
ou se casaria cedo, aos
dezessete e teria três filhos,
separaria doze anos depois
e iria embora para Curitiba 
(talvez viajasse para Sebastopol 
ou não,  quem sabe fosse para
Portugal morar em Setúbal ou
não...e talvez o mais longe que
fosse seria ir até a passarela de
Solférino e se jogar no rio Sena,
mas muito provavelmente não. 
Porém, quem poderá afirmar 
que nunca?) e casaria de novo
ou jamais se envolveria com
alguém outra vez. Seria tanta
coisa e quanta coisa faria, porém, 
poderia viver nas ruas e morrer
jovem, viciada, ou morreria 
muito idosa, seria fumante e
depressiva, diabética e cardíaca,
ou seria sempre saudável e
morreria com saúde em um
acidente de trânsito numa
terça-feira fria e de céu cor de
chumbo. Chovia muito nesse dia.
Quase não sofreria a vida toda ou
teria uma vida sofrida desde o 
berço até o túmulo. 
Mas não pôde ser nada, embora
tanta alegria tenha trazido para
a Mãe durante a gravidez, foram
nove meses ou quase de muita 
vida em formação, e quanta
satisfação trouxe para a família. 
Mas acontece que na hora de nascer,
saiu do útero de sua Mãe já moribunda,
deixou a barriga sem vida e assim
nasceu morta.

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