sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os Olhos

Arrostam silêncios
olhares destemidos
diante duma demora
desenfreada da fala.
        (...) Odeiam (...)
         delays (...)
       (...) no (...)
      destino (...)
dos (...) fonemas.
A língua em prece forçada em pensamento, 
numa espécie de missa-à-força por
acreditar com estrondosa e cega fé 
que os sons existem invectivos aos olhos,
haja vista ouvi-los.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Opressor Próspero

Morde os dentes a morte
enraivecida em vaidade,
envaidecida em cólera e,
embora tenha know-how,

não me levará com Ela sob
o seu manto agora, e a raiva
vem disso, a vaidade quase
intacta é por saber que, se

não me leva hoje, levará 
amanhã ou depois com
certeza. Certeza essa tem

Ela por acumulação de almas, mas
mal sabe ela que minha alma já há
muito aprendeu a se fazer de morta.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Do Fazer Poesia

Minha poética é dada à decepção,
possui a capacidade de produzir 
versos através de um raciocínio 
torto todo retorcido, e essa sua
razão verdadeira é minha 
disposição como poeta jamais 
suscetível às regras de qualquer 
criação do fazer poesia sob eterna 
supervisão e vigilância da métrica 
com suas rédeas nas mãos e de
cabresto e látego sempre em riste,
mas é minha mão que tem a posse
da pena, minha pena, e se a acusação 
é de que assim eu não passo de um
poetastro, eu declaro abertamente 
em um raciocínio reto que sou sim
um poeta astro e minha poesia um
lume, um farol de brilho radiante 
dentro da escuridão desse fazer
poesia segundo a mesma e velha
cartilha do academicismo arcaico
de sempre.

Esperança

Um dia
ainda
será hoje.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Nonsenseness

Livros lêem-me melhor quando chove,
preferem-me assim, como nuvens 
estremecem-se ao toque de outras 
deslizando pelo céu como nenúfares 
fazem por superfícies de lagos, os livros 
preterem-me quando não lidos, digo, 
quando não lido com eles, e como eles
sentimentais são, eu tenho o cuidado de
deixar que livrem-se de não deixar
escapar as emoções que guardam em
páginas ditas donas de todas as palavras 
que se encerram ali.
Os livros precisam expressar o que sentem
em relação a mim; as nuvens chovem o que
sentem em relação ao solo; nenúfares 
sofrem quando sentem a partida de
salamandras que se abrigavam em si,
isto é, em cima deles ou por sob, como o
céu por sobre as nuvens jamais conhecerá 
chuva alguma, do mesmo modo o solo
molhado prefere o sol por não poder
absorver o que será enchente se chover
pra sempre enquanto durar a tempestade:
Ser uma cinzenta nuvem escura por dentro,
não quero reduzir à um raso copo d'água 
toda essa furiosa tempestade dentro de mim.
Posso afogar o mundo inteiro, inclusive eu,
mas não quero desperdiçar nem dividir o
meu morrer com outras mortes, e então 
por assim dizer, um livro público em
particular, ao ler-me, publicou em suas
páginas:
Ontem Choverá o que Amanhã Choveu!
Só Hoje Há Sol
O Sol Age Só Hoje,
pois hoje eu só queria que chovesse
a vida toda que me resta,
talvez pra sempre, quem me dera,
se a eternidade não fosse tão estúpida 
e abstrata. Se hoje eu quero pela vida
que me resta, amanhã me resta esperar 
pela vida que me queira, não só um
acho que vai chover, mas sim um parece
que choveu a vida inteira.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Para a Morte a vida

Impulsiona-me constantemente 
para a morte a vida, chego a
pensar que morro, enquanto de
fato, e embora farto, ainda vivo.
Estou vivo. Absoluto e absorto,
isto é, absorvido pela vida e
absolvido pela morte, e esses
absurdos observam-me 
obstinadamente, como uma fé 
cega em algo amplamente visto
como impossível ou inacreditável.
Assim eu sigo, creditando à meu
cansaço cada conquista que penso
atestar que eu ainda vivo, porém 
me sugere a mesma vida exausta 
que não passo de um fantasma morto.
-É a morte, a morte que me impulsiona
para a vida desde que, de novo,
morri outra vez.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

De Cisão (êntre avec néant)

Desistir de existir
ou
resistir e reexistir 
quem sabe,
quem sabe,
Deus ou adeus?

Jogo o dado e cai o
lado do adeus para cima:

Lanço o dardo da sorte da
minha vida para o alto e
acerto preciso o alvo da
morte decidida, decisiva
sobre mim.

Então Me Mato!

Me mato todos os dias
até a data do dia de morrer,
e se enfim eu morro,
se no fim eu morro,
por que não decidi
viver antes,
vir ver antes a beleza da vida?

Nestes rompantes de ruptura 
de nossa existência, a vida
não deveria se mostrar bela (?)

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Avere

Eu sou mais poderoso do que Deus!
Vivo e posso morrer, e Deus?
Tenho minha vida nas mãos não só 
do acaso, não só nas mãos pálidas de
Deus, tenho minha vida em minhas
mãos também, pois sou mortal e 
posso a qualquer instante, por mero
acaso, pela vontade pueril e imperiosa
de Deus, mas principalmente, eu posso 
morrer pelas minhas próprias mãos,
e se me perguntarem o porquê, direi
que se Deus habita em mim, é Ele que
tento matar ao morrer por meus meios,
métodos e vontade:
Queimo a casa e me livro do Rato!

Girassóis

Dançam lentíssimamente dentro
da noite estrelada as flores.
Contam através de canções desconhecidas
dos Homens, para as estrelas, cantam para
as estrelas aquilo que escondem das abelhas,
sempre tão afoitas e apressadas.

As estrelas não têm pressa alguma,
uma vez que a maioria já não existe 
mais, senão seu brilho.
-Mas é para o brilho da luz delas que
cantamos e dançamos - dizem as flores 
do jardim noturno de minha alma.

Minh'alma que também é brilho
inequívoco daquilo que um dia já foi.


sábado, 31 de janeiro de 2026

Totalidade e Solidão

Um só Eu faz de mim
um ser solitário.
Dois de mim são dois 
Eu's solitários, Eu e o
outro Eu.
Três     desses      Eu's 
deixam claro que sou
um Não-Ser.
Sou Eu assim um Deus
S o l i t á r i o.

O Caso Púrpura

Com a data de hoje,
estas horas de agora,
esse pós manhã 
brilhante: a manhã 
brilhante e iluminada 
até a noite ser escuridão:
Esta Será a Hepta Tarde
Sombria Desde Quando 
Comecei a Contar Cada
Pôr do Sol Depois de
Minha Última Morte.

Qual o plural de pôr do sol?

Sete sóis sorriem, todos o mesmo astro,
todos o mesmo riso, ardentes despedindo-
se (fosse teatro, da cena) de mim no
horizonte ao Oeste, não Este, Oeste mais
ao Norte de mim, de novo, não por acaso 
a Morte.

Púrpuras são as cores desse poema.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Soneto

Do poeta poesia é dever,
é devir. Pode ser acaso e
ocaso, é labor e é ócio, é
sacramento e sacerdócio.

É sacrossanto o ser poeta,
tanto quanto é maldito, e
por isso mesmo a poesia é
bem dita maldição.

E toda sua obra deve ser
revolucionária. Poesia que
não transforma não serve

de nada, e no mais, de nada
vale, e mais ainda, poesia que
não desperta, apenas atrapalha.

Ternura de Aço

Em viva voz o silêncio diz...,
isto é, desnuda a mudez.
O nada existe como elo
subsequente do todo e 
se repetem sempre 
dentro dessa ordem.

Quando há ruptura 
instala-se o caos.

O Caos é a mistura abrupta do mesmo.

O Nada é a Tese
O Todo é a Antítese 
O Caos a Síntese quando o todo e o 
nada não se repelem.

Toda destruição é igual a hoje,
quanto um pós guerra de ontem 
em algum lugar distante como
agora...e aqui, mundo afora
nesse mesmo instante.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Outono de Oitenta e Quatro

A chuva chegando:
-Cairá proporcional-
mente per capta.
Veja como está 
chegando a chuva-
dizia.

Há chuva como apenso
pelo todo do céu que segue.

No céu o cinza das nuvens 
anuncia que a chuva
chegará em breve e 
em instantes.

Acho-a, a chuva, vejo-a vindo
através dos céus e,
antes qu'eu avise,

começa de chofre a chover de fato.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Ontem, Anteontem e outros Ontens distantes

Atrás do tempo sempre:
O Futuro.
Renovando rotineiramente 
O Passado,
instantâneamente,
de Presentes com precedentes 
de Presentes anteriores, hoje,
ontem e anteontem e outros
ontens distantes.
Um novo passado novo
para cada futuro ido...
e o mesmo futuro antigo 
para todo presente 
repetido.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Oh be a fine girl kill me

Não voltarei a ser Voltaire.

Se ando muito
dói-me os pés;
Se amo muito 
dói -me o peito;
Se penso muito 
dói-me a cabeça.

Sinto em minha alma
uma dor terrível...

Meu cansaço existencial 
impele-me a negar uma
próxima reencarnação.

O que importa se tenho vivido o
suficiente ou não? 
Eu sempre morro, digo,
eu sempre volto.

Vivo muito ou pouco,
sei lá, é que a morte
há muito anda atrás 
de mim, suponho eu
que ela pensa que
me ama.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Aritmética Aristotélica

Desatar os nós dos meus
dedos tortos e empunhar
a pena para desenhar meus
retorcidos versos:
desdenhar da métrica e do
academicismo, definhar a
estética que sugere, ou
melhor, que dita regras e
formas exatas de poemas
para se fazer poesia.
Nada pode soar mais patético 
do que achar que o 
conceito de poesia tem
alguma coisa a ver com
o formato quadrado da
forma final do verso,
forma quadrada ou qualquer 
outra pré definida em
cartilhas de poetas 
catedráticos pré-ocupados 
sempre apenas com a forma
e jamais com o conteúdo.
Inspiração para eles é achar
uma palavra que caiba dentro 
da métrica do protocolo e
estrutura da rima,
ou do ritmo da rima com a
métrica, que deve
obrigatoriamente 
ser isso para rimar
com aquilo e soar
agora dese jeito para
depois poder rimar
com o verso de acolá:
Abaixo a métrica!
Abaixo a rima!
Rítmica ridícula, boba,
e estúpidas que empobrecem
a poesia, demonizam o
texto poético e
enraivezem poetas que
lutam pela liberdade 
ideológica dos versos.
Liberdade para ser e existir
da maneira que cabem onde
quer que queiram se
permitir ser e estar para
poder fazer tudo aquilo que
a inspiração do poeta tem
a dizer, ou tem a calar.

Simetria nada tem a ver com
poesia, poesia desmesurada
por natureza, pela sua natureza 
desmedida, poesia em si mesma
compreende também todo o
entorno. Poesia é um universo 
em constante expansão, e não 
somente um ponto denso e
compactado.
Minha poesia é muito mais do
que formatos pré estabelecidos,
desenhados e re-desenhados
apenas por uma questão 
d'estética, poesia é anti-estética,
não tem a ver com aparências,
pois foge de querer se parecer
com qualquer outra coisa que
não Ela, poesia não se parece
com nada, não é palpável, é
antimatéria, é maleável na
medida que se desenvolve
para mais ou para menos
dentro ou fora dos seus
limites inexistentes...
mas jamais minha
poesia caberá 
dentro de 
formatos
e moldes.

À rigor por via de regra,
o rigor:
dà rima,
dà forma,
do ritmo a reger o enredo 
dentro de um limite que
caiba o texto.

A ranger os dentes da poética 
de raiva por não poder estar
disposta no poema por completa.

Poesia é, por via de regra,
a medida daquilo que não 
se pode medir,
e mesmo assim
medita o poeta discípulo 
da métrica sobre como
pode deixar a poesia mais
complicada e hermética:
uma poesia excludente de
versos e não inclusiva de
todo tipo de versificação 
que a inspiração possa
realizar.

O poema é só um dos
muitos e variados corpos
da poesia, o éter poesia
que pode preencher não 
só o quadrado, mas também 
o círculo, o triângulo,
agroglifos, e qualquer outra
característica geométrica
da forma final daquilo
que se escreve:
Poeta escreve poesia
e não desenhos técnicos.

Que herói mesmo seja o verso livre,
e não o metro heróico, ou versos
em tetrâmetro trocaico, pentâmetro
ou cantos poéticos em hexâmetro
dactílico, parece-me muito esdrúxulo,
em se tratando de poesia, todos esses
termos, diria, estúpidos.
Metro iâmbico, ou o escambau, para
versos decassílabos ou dodecassílabos
para um poema simples ou profundo:
o que me importa o número de sílabas 
se o que tenho a dizer como poeta é o
que diz minha poesia com todas as
letras que ela tem a declarar, e não 
como ela faz isso, compactando versos,
encaixotando-os de forma a esquartejar 
a poética e inspiração, ou seja, o que
traz minha poesia são pergaminhos
densos, desconformes, destoantes, etc.,
de uma escrita profunda e, assimétrica
a linha de raciocínio, o texto é todo
proposto, propício e proporcional a
tudo aquilo que tem a dizer a pena,
e não como cadernetas em brochura de
anotações técnicas, de capa bonita,
vindas dentro de caixas de sapatos,
ou charutos, com desenhos
simétricamente precisos de caracteres
ordenados matematicamente idênticos
dentro de quadrados ou quadras 
retangulares ou cilindros triangulares
ou triângulos acutânculos e o que mais
pregar a maneira correta de ordenar os
versos dentro de estrofes perfeitamente 
alinhadas dentro de poemas alinhados
como que se os versos ali presentes
fossem soldados de algum exército 
em formação para algum exercício de
guerra.






quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Vade Mecum

Evadir-se dessa humanidade torpe,
eis minha vontade:
esvazia minha alma de vida a morte?
Jamais! Porém, jaze já e desde sempre 
essa alma em vida, devida a vida ser
sempre vazia.
Minh'alma viva vibra com a 
imponderável 
possibilidade da morte, 
pois Ela permanecerá ativa,
enquanto vazio o corpo sob a terra
apodrecer.
Entretanto, minha alma não pisará
com seus calcanhares nos céus,
não caminhará sobre as nuvens e
tampouco sobre brasas acesas de
qualquer inferno em chamas,
andará por entre os vivos divertindo-
se transvestida e transvertida em
fantástico fantasma, assustando a
assustadora raça humana.

Cânceres e Cigarros

Certezas e decepções, amálgama!
Quem é Deus, quem é o Diabo?
O Diabo em meus dedos,
em meus lábios...
Deus em meus pulmões, está!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Noir Poesia

Não há aplausos,
você não ouve,
não houve espetáculo,
você não viu:
não houve você?

e algo mais não haverá tampouco,
ficam com o que sentem, com o que
se tem mesmo sendo tão pouco, ou
nada ou quase ou nunca e/ou de novo.

Não à Arte mais
Não há mais Arte
Não há, mas...
Não amas
Não amais Arte?

Não à Poesia 
Noir Poesia etérea 
Não há Poesia
Não há Poesia eterna?

O último Poeta morreu,
morreu o único, o primeiro 
último Poeta morreu:

Foi morto amou ser,
foi morto e amou ser assaz assim.

Foi morto per si,
por si mesmo morreu,
foi morto por isso mesmo morreu,
foi morto matou-se assassinato,
foi vítima, foi íntimo de si e assim
assassinado.

Matou-se e amou se...
Matou-se e amou ser.