domingo, 7 de abril de 2024

Esfinge de Si

Como poeta em desespero não sei se
devo tentar dissuadir do suicídio a
minha Musa ou se nesse poema tento
eu mesmo matá-la.
A cada palavra que escrevo ela morre,
a cada palavra que calo ela atenta
contra si para morrer.
Já não sei o que faço para deixá-la
viva, não sei de que modo posso deixá-la
viver.
Minha pena um punhal que ataca a
própria poesia, e o sangue de minha
Musa que escorre dos versos atiça
minha verve a querer mais sangue e
a deixar cada vez mais vermelho as
minhas entrelinhas. 
Porém, como posso eu, poeta que já 
foi misericordioso, atacar com minha
poética, a Musa de minha alma
perdida que tanto me salva e salvou,
mas culpada também, nunca deixou
de mostrar sua ira contra mim 
mostrando-se sempre ré confessa de
críticas à minha escrita que nem mesmo 
a métrica antimusa a si mesma já 
confessou?
Não vou matá-la, não posso, não possuo 
talento suficiente para com minha
inspiração atacar minha inspiração, 
minha arte poética é pobre e por isso
sempre minha Musa foge da minha
cabeça, um casebre, e busca abrigo
no meu bem instalado e promissor 
coração. 
Mas se esta alma que me veste é de
poeta de verdade, eu tenho dó de minha 
Musa, pois temo que meu coração 
também está tragicamente condenado 
ao fracasso. 
Não há para onde ir, não há fuga,
apenas ideia de uma busca que a
leva querer fugir de buscar outra
vez, e outra vez de novo mesmos
propósitos para outros fins, ou um
fim lógico para a sua existência sem
propósito e sem nenhuma definição 
de si para o que é e o que é para si
e que define seu destino diante de
todas as linhas já escritas em que
buscou existir, e que agora quanto
mais caminha pelos versos, mais 
veredas se fazem estes mesmos versos 
que a ferem e que a matam e que,
pela busca da fuga, 
a apetece o morrer.
E se a pena cala, ela se mata, 
se joga do silêncio, se lança da
ponta da pena para dentro do tinteiro 
tóxico vermelho e submerge,
desaparece para todo o sempre nessa
busca insensata pelo fim.
Minha Musa atormentada sofre por
aquilo que não pode compreender e
sabe, que se foge de si,
é porque muito jovem,
desde os primeiros versos já havia
encontrado sua essência, de natureza 
de Esfinge considerada em si mesma,
o que é, ela busca saber, o saber,
e por isso quando não, 
resta apenas a sorte companheira,
a última tentativa, o morrer.

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