sábado, 28 de dezembro de 2013

Nonada

o nada, minha fé, meu viés.
a preguiça é meu protesto
nessa vida amarga, vida que tudo
enguiça.
o nada é minha fé, meu revés.
aqui, de exato resta apenas o
talvez, a oscilação das minhas certezas.
minha fé é no nada, a divindade
das minhas tristezas. a poesia,
meu ofício na ponta da pena,
crucificada. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Religião

Toda mentira
é crível na
sinceridade.

Tudo é verdade!

Menos aquilo
em que se
acredita.

domingo, 24 de novembro de 2013

Status Quo

ao mediar uma briga
entre deus e o diabo,
inventou o poeta a poesia.

ao enforcar a vida
no entardecer, enquanto
o sol descia,

ao beber da lua,
a mesma lua que
a noite inebria,

ao usar a morte certa
como metáfora para
o próximo dia,

inventou o poeta a poesia.

ao desnudar a musa
e desenhar em seu sexo
o fogo que ardia,

ao suspirar por vícios
numa busca profana
por companhia,

ao usar a métrica,
como pena e inspiração,
no fio dessa lâmina fria,

inventou o poeta a poesia.

ao satisfazer o sexo
na masturbação daquilo
que o olho espia,

ao se referir a igreja
como maldita por tudo
que nela havia,

ao perceber que o amor é,
mas também pode ser nada
daquilo que se dizia,

inventou o poeta a poesia.

ao buscar com seus atos
a gloria, e descobrir o pecado
em forma de alforria,

ao cuspir o láudano da
sobriedade no mesmo copo
sujo que se bebia,

e embriagar-se por noites,
desse mesmo ópio, verve
destilada em rebeldia,

descobrir que o caos
e a disciplina são notas
da mesma melodia,
a s s i m, e n f i m,
inventou o poeta a poesia.



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Ás

quem
aspira à
Ás, pira.

Fragment(ação)

Nos cala
alto e claro.

Propensa ao
silencio a
poesia nos
fala num
áudio não
salvo.

Se à declama,
à derrama dos
olhos e derruba
no chão,

à perde no som!

nesta queda,
ela,
fragment(ação).

domingo, 10 de novembro de 2013

Pecado Primeiro

o que veio antes,
o sexo ou a masturbação?

Adão, bobão,
sozinho entretido no paraíso
à caçar borboletas...

eis que surge Eva.

nua
pura
bela

decodifica seu corpo
nos códigos,
nos olhos,
no corpo nu de Adão
antítese
(da recém
criada arte) da perfeição.

na ferocidade do ânimo,
de ambos,
perplexos...eis que surge
primeiro, o sexo.

porem, enquanto ocorre o ato
logo surge a masturbação,
pois está ali escondido
Deus, entre o mato,
como um depravado voyeur,
observando a ação.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Punk!

quando todas as vozes presentes
em um concerto começam a cantar
juntas, esse coro unissonante, é
a melodia da democracia.

num vasto território,
diversos coros distintos
de uma mesma língua
repetindo cada um,
um diferente estribilho,
produzem sempre o mesmo som,
o mesmo ruído.

é a melodia da democracia.

todas as vozes de
todos os povos
quando sincronizadas à
produzir simultaneamente
o som que o outro produz,
tornam-se sempre,
são sempre a mesma voz.

é a melodia da democracia.

dentro de tudo isso
percebo o quanto essa
democracia pode ser
frágil e pusilânime,
mil vozes se representam,
se apenas uma
destoar do acorde, em tese,
deveria comprometer todo
o ritmo, no entanto,

a melodia da democracia em pane,
mascara e esmaga como toda a
estupidez unânime, essa voz,
esse grito punk que não se cala,
esse berro dissonante.