terça-feira, 28 de outubro de 2008

Palavras mortas

visto um terno cor de tempo.
as vezes me confundo do que não me lembro,
se é da cor ou se é do tempo, e, se visto
mesmo um terno ou sudário, cor de tempo também,
porem, levemente outonizado, uma farsa válida
que tem meu corpo magro e cinza como habitante eterno,
pois esta morto. está vestido de tempo nublado,
de dia que chove, de dias que chovem e chovem, sim,
só porque chove, como agora que está morto,
como esta nublado e vai chover, está morto com aval
para apodrecer e, vai feder.
sou um forte cheiro de morte consumada,
numa noite chuvosa de outono sou o cheiro
de um corpo morto e desabitado...

visto um terno cor de tempo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Pássaros

Os pássaros que não observo,
que nunca prestei atenção, passam.
pego a pena e começo escrever versos,
mas não escrevo versos,
nunca gostei de versos!
não sei escrever nada além
do que observo:
então como posso escrever versos
a pássaros que não vejo?

-os pássaros passam.

soneto

esclarecido. como ser assim, esclarecido!?
como dizer que, sim, sou exatamente isso!
se ao terminar isso, não mais saberei dizer
o que quer dizer isso.

preciso. como ser assim, imprescindível!?
como viver assim em busca de exatidões
necessárias, se eu sei que as poucas coisas
que preciso são supérfluas e enigmáticas.

simpático. como ser assim tão afável!?
como sorrir assim em busca de atenção,
se a minha intenção de sorrir é improvável.

simples. como ser assim, puro!?
se oriundo de varias crenças e substâncias
ortodoxamente simpáticas, precisas e pouco
                                                [esclarecidas].

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Se eu não escrevesse versos

se a chuva me dissesse pouco,
se o meu quarto não elucidasse
sempre um fosso como abrigo.
se o quarto não fosse um prelúdio
escapismo, um sumario interlúdio
que dispersa o meu fim. acerca
de tudo que se renova, o meu
espírito desperta, desova o gemido
derradeiro, o último ato, aguardado
com fervor, como excitado aguardava
deus pelo pecado primeiro.

ah! se a chuva me dissesse pouco,
talvez não fizesse versos, com certeza
os versos não me fariam também, e,
as flores que colhi não seriam apenas
força de expressão, ação de quem declama
suaves passos pelo jardim e, pensando em se perder,
sem medo diz amém.

ah! se a chuva me dissesse pouco,
quaresma, posto que me encontro.
com a alma em pranto a espera de uma
anistia que nunca virá. amargura impressa
na visão vulgar do poeta, que, espera
a chuva como sinal de fuga do
liquido que vem os olhos esterilizar.

ah! se essa chuva me dissesse pouco,
se meu coração tivesse apenas mais
uma unidade de consumo, teria eu
então mais um infortúnio, pois,
assim acreditaria tudo no vicio de amar,
aceitaria de novo o amor, teria mais uma
chance de ver-me ridicularizado, e,
voltaria a magnitude incógnita de um verme
apaixonado.

ah! se esses versos se calassem um pouco.

sábado, 23 de agosto de 2008

Poetas Eternos


capacitei minha inexpressiva vontade
de vencer;
apoio com ofensas minha força de vontade,
minha auto estima e, pra tudo que é sagrado,
o meu parecer;
reconciliei-me com minha proposta suicida e,
assim, proponho à mim,
aqui,
a morte de todos os mártires.

as palavras que proclamam o fim
sempre serão atuais, pois é delas
a voz que trás o grito que irá se
calar enfim,
assim,
o poeta sepulta os últimos versos,
faz da sua pena a grande responsável
pela ascensão da morte dos
poeta eternos.

sábado, 26 de julho de 2008

Tresonetos

atento ao ouvido da porta
ouço gritar a saída,
no espanto da morte
assassino a vida.

alheio aos olhos da porta
vejo me olhar a entrada,
no sarcasmo da vida
vejo entrar a morte.

ao acaso exposto a trama
age a personagem, que, do
outro lado clama:

-quem é, alguém?
apenas uma brisa fria,
estou atento demais ao ouvido da porta.

será que és tu?
persona chave de meus poemas,
por que não entras?
deixe-me ver-te a alma cru.

sabes que posso aceitar essa visita,
sabes que não me resta esperar da vida,
sabes que a vida não me visita,
sabes que ela em mim não acredita.

hierático, estático, profano meus gritos
em orações que despertam o ser que
jura não ter tentado ter com cristo.

eu, personagem alheio ao acaso,
explico para ti, nesse soneto,
que o medo não é nada didático.

não entendo por que dizem que
as portas são surdas, por que?
pode até ser, mas o outro lado
sempre ouço berrar, por que?

tenho um medo que me assusta,
tentar entrar pelo espaço, e
no vão da porta achar o meu espaço
me assustando com a cara feia da fuga.

a porta sente(ouve)meticulosamente
todos os meus passos(ideias)e,
como uma dama(puta)se rende

facilmente ao meu papo de poeta.
vou achando as respostas
agora que a porta esta aberta...

soneto

estranho ter esta visão panorâmica,
aqui, do fundo do poço, vejo o
imenso berço que me deito, deslumbro
o horizonte, encaro minha criança.

nessa poesia de versos novos,
nesse soneto de velhos trajes,
humilho meu erudito, repetindo pausadamente
as orações ultrajantes de todos os povos.

é compulsória a ideia de ver surgir
um novo homem, aqui, dentro desse poeta
há infinitas personas de singulares modos.

é honesta esta tristeza remasterizada,
forte, é funesta a pena que desenha os
versos, que, escrevo para minha morte.