sábado, 6 de setembro de 2014

Ríspido Raio

enquanto tiver
bebida em meu copo;
enquanto houver oxigênio
queimando em brasas e,
desse modo,
do meu cigarro estiver
saindo fumaça, digo,
é quase certo que ainda
estarei vivo.

enquanto houver a
opção do suicídio;
enquanto alguns demônios
habitarem meus ouvidos e
sussurrarem em áudio quase
inaudível, elementos para
minha poesia irascível,
estarei vivo.

enquanto não houverem
leitores para minhas
razoáveis páginas,
estarei vivo, pois há glória
apenas no tempo póstumo
para aqueles que estão
a frente do tempo que gozam.

estarei vivo enquanto flertar
com a morte e cortejá-la no
último baile, enquanto eu admirar
o seu porte e me embriagar de
êxtase em seu colo, certamente
estarei vivo mesmo que este não
seja meu propósito pois,
neste derradeiro baile,
meu corpo em riste, queria eu que
essa dama já me tivesse em
sua suíte.

estarei vivo sempre que o outono
ainda tiver estação;
sempre que o cinza dos céus
na paleta de deus ainda houver e
for opção;
estarei vivo enquanto a chuva
puder minha alma às nuvens levar,
e depois ao solo,
num ríspido raio,
em meu corpo,
de novo,
essa alma voltar.

estarei vivo mesmo não lúcido e,
em meu poslúdio, apenas a loucura
poderá atestar que sim,
ainda vivo,
mesmo já mastigando as frases
que prenunciarão o tão aguardado
f i m.  
   

esses poemas

me sinto preso à vida pela pena
— de nada me vale este posto de vate!
quem dera valesse me minha existência,
como  o som que é preso a língua
pelo fonema, mas de nada lhe vale
o silêncio que o cala.
— como de nada nos valem esses poemas! 

domingo, 17 de agosto de 2014

a(dicção)

Nunca nos entendemos,
eu e minhas virtudes.
Há silêncio na expressão,
pois quando falamos
nosso problema é adicção
que empreendemos.

Câncer

Quando observado
microscopicamente
o câncer (seria um
horror afirmar, mas
digo) o  tumor  me
lembra   a    beleza
m o n s t r u o s a
de   um     gigante
m a l i g n o.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Autarquia

me diga se todo o tempo
do mundo cabe dentro de
um relógio; se todos os dias
passados e futuros cabem
em calendários; me diga se
todo o amor do mundo é
capaz de preencher todo
um coração mundano; me
diz se a miséria é maior
que os desejos de toda
uma nação; se o consumo de
poucos pode nutrir a inanição de
todos em uma sociedade;
se deus é maior que o homem,
sendo o mesmo homem a
exata semelhança da mesma
divindade; se o pagão pode
sucumbir perante uma unidade
divina; me diga se toda a
realidade cabe em um sonho
meu, e se dentro desse sonho
eu acordasse, eu poderia fazer
do que é onírico a minha verdade;
me diga se o desejo de todas as
palavras é um dia se verem dentro
de um poema, ou se elas ignoram
a poesia e preferem o anonimato,
a filosofia do silencio, ao invés do
fonema; me fale da solidão que me
trazem estas palavras, da obstinação
delas em corromper minha gramática,
da confusão tão bela que geram em
minha cabeça quando eu às finjo
ignorar, da devoção à minha pena,
do respeito que elas tem para com
minha tristeza quando esta está a versejar.

peço que esqueça o que aqui foi
pronunciado, nada faça com isso,
ignore, deixe de lado...pois nada
vale nessa vida a voz da certeza
para quem quer viver calado.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Soneto

ainda que haja entre nós pouca
compatibilidade, tenho de te dizer,
amor, sagrado sentimento profano,
salvaste minha vida em vão engano.

eu que nunca soube lidar com
minha ociosidade, antes de ti
havia em meu cotidiano apenas
livros, drogas e tempestade.

entre o ópio o álcool e a cocaína,
eu tinha a poesia, o romance e a
filosofia, e tudo era pouco demais,

pois eu sempre cada vez mais queria.
ainda há muita leitura em minha vida,
mas hoje a única droga é a ocitocina.

Monodia

Cantarei o amor!
e digo que esse será meu
Último berro, mas não
Mais escreverei
Para ele poemas e
Ardorosos ternos versos.

Cantarei o amor!
Ainda que minha
Pena sangre, mas
Não mais ousarei
Olhá-lo nos olhos
E senti-lo no coração,

ainda que'u me engane,

E que eu arda em desespero,
Cantarei o amor apenas
Por fazer, assim como fez
O poeta primeiro, cantarei
Apenas para calar esse silêncio
Doido em meu peito guerreiro.