sexta-feira, 24 de abril de 2009

Viver

queria uma inspiração para escrever
queria um mundo para perverter
queria uma doença para viver
queria uma saúde para ruir.

queria uma voz para gritar
queria um dom para domesticar
queria uma palavra não para explicar
mas para resolver o meu penar.

queria ver meu sangue nas páginas
-me cortei no que escrevi ao imaginar
que era feliz fazendo rimas sem mas.

queria, ah como queria não mais querer
me extinguir dos sentimentos, me ver
em um altar ardendo em chamas.

sou um eu que não me vejo
um verso que não escrevo, sou um
espelho que, posto na frente dos meus
desejos, reflete todos os medos.

inflamo-me e não renasço, mas
a cada passo penso em regar-me de
alegria, tento mirar na direção da
alforria e desprender-me em colapso.

fujo do fluxo de absurdas portas abertas,
do encontro da procura pelo nada, dos
longos intervalos da lúdica mente de um poeta.

fujo da vida que já não mais é tão bela,
estudo minuciosamente as palavras,
para pôr fim às palavras dela.

[adoeci no mundo que ergui,
prendi meu livre existir conjugando
o verbo acontecer, existir...
orei e pedi pra deus rezar por mim,
e que eu tivesse a ousadia de não permitir
que essas mesmas orações falassem por mim.
queria uma inspiração para perverter,
um mundo para escrever, queria ruir na saúde

o meu viver].

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Penso existo escrevo

esqueço que escrevo que penso.
penso que esqueço que escrevo,
mas quando escrevo esqueço
que penso e, sendo assim,
remeto tudo que esqueço no que escrevo,
pois escrevo o que penso e
penso que escrevo.

escrevo que esqueço que penso.
penso, escrevo, esqueço, mas
esqueço quando penso e,
sendo assim, existo no que escrevo.
insisto em esquecer o que escrevo
e lamento pensar se existo ou se

escrito.

Algo

a impotência moral, a ressaca imoral.
a capacidade tola que tenho de propor
a mim o fim sempre que me julgo e me tenho
em pensamento. prefiro ir ao fim do precipício
do que voltar e procurar outro abismo, outro
dia morto, outro lamento, outro novo dia torto
que com dolo me faz ver o quão culpado sou
por não ser dono da culpa de ser, otimista.
crer na esperança é como tentar ter satisfação
e resultado numa imensa burra missa. pode ser
que meu dia torto me leve pra igreja, para que
eu possibilite esforços para os dízimos sagrados.
salve a impotência moral das minhas desgraças
literárias, da minha força de vontade sedentária,
da minha sobriedade suja e ordinária(eu embriagado
observo isso de longe sem me preocupar).

me anteponho à mim mesmo, com o objetivo de tentar
esclarecer o meu destino, o meu fim como poeta sem ser,

como algo no precipício, caindo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Que

diga não aos versos.
diga sim as vozes e aos atos, e,
diga talvez ao resto de tudo que
indaga que o que sucumbiu era poesia,
pois se fosse, seria.

diga que não ouviu passos,
que ao acordar, não despertou pro dia.
que talvez o mesmo não percebeu
a redenção da noite que ilumina o
despertar de quem lhe permite
ouvir o que disse, pois se fosse dito,
diria.

diga que não se emocionou,
que não se comoveu, que não deixou
de ser cruel. diga que as crianças mentem
com a inocência de um idoso, diga que a
igreja é o cárcere de cristo, e,
que cristo não morreu, pois se estivesse
morto, morreria.

diga que não escreveu isso, que
não consome versos que viciam,
que libertam, diga que usa drogas,
mas não diga que elas o usam,
não diga oque caracteriza esse poema,
esse berro, esse grito, diga não aos versos,
diga sim as vozes e aos atos, e, diga
talvez ao resto de toda a poesia que
sugere que tudo sucumbiu, só pra podê
ser oque for, e, o que fosse, seria.

seria talvez a poesia?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Poesia essa

poesia adoecida, doída.
apodrecida e, inexorável.
a culpa que culpa o poeta
por ser dono das linhas
emancipadas, palavras
aprisionadas em sentidos, e
que sentido faz tudo isso!!?.
a que preço sofre esse poema
enfermo que, vem sem propósito
como o poeta que sonha em
logo ser póstumo. não há
créditos aqui, minha pena há tempos
procura por méritos, mas, o que
produz ao certo não é belo, ao certo
não diz nada, inexpressiva. mas à ela
me entrego, poesia essa, que vicia e,
sugere os meus penares como especialista, é
uma tribuna livre onde...

o silêncio ecoa a a...ressoa, vive.

Morra-me

aplausos enaltecidos que obedecem
o rigor de um insulto. ovacionam-me
os ultrajes que permitem os desastres
emocionais do meu ego, que, impresso em
minhas preces precárias, destinadas à todos
os outros eus que sucumbem incrédulos de
tanto acreditar que nada irá calar o lirismo
patético da dor que impregna o peito do
poeta simplório, que, esconde em suicídios
a aversão que tem pela versão dos outros

sobre seus modos esdrúxulos e introspectivos.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Palavras mortas

visto um terno cor de tempo.
as vezes me confundo do que não me lembro,
se é da cor ou se é do tempo, e, se visto
mesmo um terno ou sudário, cor de tempo também,
porem, levemente outonizado, uma farsa válida
que tem meu corpo magro e cinza como habitante eterno,
pois esta morto. está vestido de tempo nublado,
de dia que chove, de dias que chovem e chovem, sim,
só porque chove, como agora que está morto,
como esta nublado e vai chover, está morto com aval
para apodrecer e, vai feder.
sou um forte cheiro de morte consumada,
numa noite chuvosa de outono sou o cheiro
de um corpo morto e desabitado...

visto um terno cor de tempo.