do desejo involuntário que brota depois de muito e de
insistentemente tentar matar você, eu começo esse poema como o vapor que
desesperadamente e feliz em demasia foge da água fervente, sua essência. escavo
profundas cavernas em meus medos, minto no propósito da veracidade, as coisas
inexplicáveis, e, por isso verdadeiras. minha pessoa feliz tem uma aparência
lúbrica e cinzenta, magra e fria como o aço. minha sombra oxidada se arrasta
atrás de mim como uma praga cansada e derrotada, planto flores em minha fossa,
me abrigo nas cavernas já habitadas por mim mesmo, finjo que tudo bem, não me
importo em ti ver, e, no mesmo sorriso blasfemo claramente algo como
"desejo matar você", pois meu amor vitalício, explicitamente exposto
à ti , é totalmente nocivo pra mim, e, contudo sempre funciona apenas como
vício, delírios de um louco que apenas quer se entender. matar você, matar
você... amo-te, e, espero que morra sempre que tentar me esquecer, que você se autodestrua
no inverso da apatia que cultivo por ti na minha ira. que morra feliz, pois
feliz sou em saber que também morri.
domingo, 13 de abril de 2008
domingo, 30 de março de 2008
Poeta sou
o poeta é um fingidor, o fingidor em pessoa.
o poeta é falso na veracidade de suas pessoas,
tão falso quanto múltiplo.
o poeta finge ser mais forte com sua poesia,
engana-se em pensar que tem amparo dentro das suas poesias.
o poeta abriga-se em palavras que revelam sua alma,
em palavras que gritam por sua alma,
o poeta tem a alma bastante fragilizada,
impregnada de palavras que pra ele não dizem nada.
o poeta é um fingidor.
é tentar deixar na poesia a sua dor,
é buscar na poesia a compreensão do amor, e,
é fazer da poesia o santo sudário do amor.
é tudo aquilo que envolve e que dispersa o amor.
o amor é um fingidor, e,
faz do poeta um ser incapaz de ser verdadeiro,
pois ser verdadeiro é fingir ter o amor.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Poesia outonal
e fica cinza o céu das minhas mágoas...
minha conturbada e nublada alegria de viver se encanta com o
impulsivo ato de narciso em cortar os pulsos com cacos de espelhos quebrados,
com a extinção de Macondo, o terrível destino dos Buendías, a solidão...
e fica cinza o céu das minhas magoas...
minha tristeza como passatempo, meu tempo inerte e voraz, as
certezas angustiantes das minhas derrotas eminentes e verossímeis, a dor...
e fica cinza o céu das minhas mágoas...
o passo em falso que dou por temer prosseguir, a culpa que
me culpa por não admitir a minha desgraça poética, o desejo de matar-me até o
entardecer, a razão...
e fica cinza o céu das minhas mágoas...
o prognóstico do espelho, o uso contínuo de estimulantes
depressivos, a cólera da minha calma insuportável, o uso do tédio como algo
para fazer, a libertinagem de minhas virtudes dogmáticas, a alienação...
e fica cinza o céu das minhas mágoas...
a ingrata compaixão, os escrúpulos corrompidos na ambição de
tentar ser sempre otimista, o sentimento maquiavélico, a tortura da rejeição, o
profundo desejo de seguir incompleto e a incapacidade diante da minha perdição,
o amor...
e fica cinza o céu das minhas mágoas.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
Pobre poema apaixonado
como queria não mais me render a essa compulsiva ideia de
sempre poemas pra ti escrever. mas como lutar, como censurar esse poeta
apaixonado que me abrigas? esse desejo involuntário que brota em meu coração já
em cinzas e que sempre bate na direção da responsabilidade de nunca deixar de
ti amar. minha dor envolta em eufemismos, minhas palavras sempre claramente
apaixonadas entorpecidas em sentimentalismos, partem da mesma premissa, é o
preludio que uso como álibi, é o que tenho feito incansavelmente na delirante
vontade que meu amor por ti nunca acabe. difícil entender esse impasse, pensar
em ti ou fingir não pensar em ti, me enganar e fingir aceitar, ou aceitar e
fingir que não me engano, sendo que qualquer plano me leva a ti? ah! criatura
admirável, dama que tem a cura para o pranto da minha alma, mulher que no frio
de outono é o sol da minha aurora, que nas noites escuras de sextas estranhas é
a lua límpida e despida que me leva sempre às nossas doces lembranças, momentos
felizes que outrora eternizamos, procure entender o que parte desse eu-poético,
não peço que aceite mas, saiba que por mais que soe patético esse involuntário
ato, faço poesia para engrandecer o que me ensinastes, e agradeço a ti o fato
de hoje sofrer por um dia ter tanto amado. mesmo perdido e solitário ainda
tenho forças pra imortalizar aqui esse amor por ti escorraçado, se minha
essência é a poesia que escrevo, você é o contexto dos mais bonitos enredos
que, fazem dessa compulsiva ideia, meu habitat, meu lar soturno, meu mundo paranoico
habitado por mim e pela lembrança tema, que, sempre me ajuda como pauta para
meus melancólicos poemas.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
"..."
a noite acaba
o dia nasce
eu durmo.
a vida se mata
a morte se corta
eu sumo.
a lua se cora
a pálida cólera
o espelho soturno.
a garota da foto
o papel de parede
da memoria in-foco.
a bebida ainda
me diz que ainda
estou sóbrio ainda.
o amor rompido
seu corpo atenta
à minha libido.
a poesia prosaica
palavras intactas
quase arcaicas.
nas cabeças de uns
lirismo aceito
lugar comum.
no resto “aqueles todos"
é humilhada, lodo
escarrada- loucos!
entendo vou embora
escrevo minha hora
morro e sumo.
a noite desperta
o dia emudece
eu fujo.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
Hemopoesia
junta-se a mim uma grande soma de certezas inúteis como toda
exatidão é. mescla-se a mim e usurpa-me uma grande quantidade de indiferenças
que diferem direto do que sinto. sobressai a mim todas as outras crenças que
sempre com respeito eu desprezei. traio o amigo, roubo um sorriso da garota do
inimigo, me declaro autêntico e me situo no cinismo pleno. nas blasfêmias do
que penso ponho os sonhos na ferida, sangro junto com a hemofílica poesia,
profetizo minhas desculpas no caso de não entender o uso dessas estúpidas
linhas...rompo a promessa de não mais poeta ser, poeta sou de poemas híbridos
que esperam incansavelmente perpetuar essa linhagem pura, então faço poesia na
ânsia vazia de apenas escrever, pensar e dizer loucuras.
junta-se a mim uma grande ânsia vazia de apenas escrever
loucuras, exatas de certezas inúteis como toda loucura é. mescla-se a mim uma
grande linhagem de poemas híbridos puros, que diferem das indiferenças do que
sinto. sobressai a mim a promessa de não mais poeta ser, rompo essa crença, e,
respeito o desprezo de que poeta sou, profetizo a traição ao amigo, minhas
desculpas no sorriso da garota do inimigo, me declaro autêntico nessas
estúpidas linhas plenas de cinismo. nas blasfêmias do que penso com a hemofílica
poesia, sangro junto com os sonhos postos na ferida para fecundar e gerar mais
e mais feridas. sonhos rubros da cortante e inquieta poesia.
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Soneto de despedida
arrependo-me de todos os meus versos e,
em especial, aqueles feitos pra ti.
a armadura de poeta apaixonado
não mais cabe em mim.
arrependo-me de todas as palavras que
elogiaram-te numa incansável luta.
arrependo-me pois hoje posso ver
que tu és apenas só mais uma...puta.
nesse derradeiro soneto, desejo
a ti, com tudo que ainda há em mim
o meu mais profundo desprezo.
arrependo-me honestamente dos dias
que em absoluto sofri, e, a partir de hoje,
por ti, não mais farei poesia.
Assinar:
Postagens (Atom)