sábado, 26 de novembro de 2016

Belo e vil

Seria o amor a
face dissimulada
do mal e, se esse
mesmo amor é
salvação, então
salvar-se é nada
mais que condenação
total?

Deus é amor!

Seria a dor a
certeza de viver,
a garantia de que
vida há e de que
sofrimento é
dádiva inerente
de todo ser?

Viver é amar!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Afora

Há um lindo dia de chuva lá fora
meu amor, sendo o outono a nossa
aurora do ano, partamos com ele
calendário afora colorindo o céu
com os matizes de nossa cor.
E para onde vamos, o que importa
o destino para os passos se será
com nossas asas que iremos para
onde for?
Voaremos para longe buscando
encontrar lá descanço para
nossos planos de continuar seguindo
em frente rumo ao nosso esplendor.
E será o que decidirmos que seja,
o nosso ápice, o nosso clímax em
crescente furor. Arderá em nossas
almas a liberdade que já arde mas
que não produz suficiente calor.
Nosso amor uma brasa sempre
acesa em perpétua queima de um
vitalício ardor.

A chuva cairá para refrescar os
poros, e nossos corpos elevarão-
se às nuvens, subirão aos céus
conduzidos por denso intenso
vapor.

Romance

Em cada minúsculo fragmento das
minhas falanges, segurando-a em
minhas mãos, sinto-me possuidor
de graças e honrarias.
Sendo meu maior tesouro aquilo
que sinto, penso que o amor
sente-nos, sonda-nos e quer
prender cada um de nós, unidos,
em sua teia sombria e maravilhosa.
E o que eu sinto então?
Tendo-a em meus braços sinto teu
corpo quente ardendo e irradiando
gloria. Seria a mesma gloria causada
pelo mesmo amor que definitivamente
sinto?

Vivemos a morrer de amor,
tu, pela febre da paixão,
em meus desgraçados braços,
por minhas mãos, morreu
olhando-me a alma.
Eu, dilacerei meu peito com
o punhal de Romeu e, fitando-
te o rosto de uma beleza viva,
morri também.

Viemos a morrer de amor,
você pela excitação da minha
covardia e loucura, e pela
minha negativa em deixar-te
ir, e eu, pela falta que você
me faria. E por tudo aquilo
que foste tu responsável em
me fazer sentir.

Amores Inversos

Viver sob a égide de dádivas
instáveis, de inválidas à
saudáveis, são as virtudes
provenientes destes mesmos
ternos males.

Nisso, vicía o poeta
enfermo, versado em
amores inversos,
vividos em invernos
intensos.

Vida é ardor!

Calor é do frio a ferida
enquanto incerta é a
certeza do amor,
sempre em dívida com
quem o reclama, com
quem o precisa, com
quem o provou.

Se chora o poeta, das lágrimas
faz poesia, quando canta,
se é que canta, o canto é a
tristeza estudada e produzida
em melodia.

A música é o silêncio,
o silêncio seu clamor.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Escritos de um ex Cristo

Já fui herói há muito tempo,
em verdade, eu era apenas
criança.
Sic transit gloria mundi.
Quando jovem, tinha a ideia
fixa de que era eu agente de
revolução, seja lá qual fosse.
Tinha dentro de mim um
desejo enorme de mudar o
mundo, queria subverter e
fazer daquilo que eu pensava
lei, uma realidade para todos.
Além de revolucionário eu
seria desse modo um déspota
também. Hoje ignoro o que
eu pensava. Depois de muito
pensar e sentir, cheguei a
fase adulta, pensava e sentia
de modo mais comedido.
Pensava sobre a vida e como
ela é toda tão vazia.
Vazio também, eu sentia pouco.
O amor é uma fraqueza;
A amizade uma tolice;
A família uma dívida com
a vida que se adquire quando
nasce e um fardo que se
carrega para o túmulo;
O cotidiano, o ócio, a labuta...
tudo isso sempre me causou
um pesaroso mal estar.
Hoje, de frente para a velhice
ainda busco satisfação,
depois de tudo que vivi e de
tudo que não vivi, sei que
essa tal satisfação de estar
vivo é algo que não compreendo.
O que eu sei e percebo é
a antítese. Mas como buscá-la?
A religião me aborrece, muito;
As artes me fazem cada vez mais
querer tantas outras formas de
possíveis e impossíveis realidades
quiméricas.

Enfim, assim, me vi poeta,
busco em minha poesia um
caminho seguro para chegar,
quem sabe um dia, a sentir-
me satisfeito.

Tirando meu mau humor
gasto e experimental, o que
eu sinto é uma espécie de
fuga de tudo, renúncia do
nada e apelo por silêncio
e solidão.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Modorra

A dor meço em meus sonhos,
a dor de estar vivo,
a dolorida vida dos insatisfeitos.

A insônia vencida traz sempre
um desassossegado sono, e então
lá estou eu de novo,
como um agrimensor dos
tormentos da realidade em
meu posto onírico.

A vida real basta como
terrível pesadelo.

Em meus sonhos o que faço
é acariciar as minhas memórias
com alento, mas tais
r e m i n i s c e n c i a s
torpes produzem nada mais
que real constrangimento.

Sobressaltado acordo e quando
encaro novamente a vida desperta,
faço para ela uma reverência e
subverto a intenção, mas não é
desprezo, é reciprocidade e,
além do mais, prefiro meus
malfadados sonhos,
sendo assim,
adormeço.

Memórias Póstumas

Tenho uma ideia fixa,
tipo aquela do emplastro.

Mas como me engano,
alguém saberá do que falo?

Não importa.

Minha ideia fixa é ser
alguém também futuramente
completamente ignorado,
seja como a personagem ou como
Joaquim, Maria, Machado...

Incognita

Me isolo de todos e, em minha
solidão, um remorso monstruoso
me constrange. Sinto uma
necessidade de voltar correndo
para o derredor dos outros,
mas não mais é possível
naquele momento. O tempo
que me refiro já é passado
e não possuo poderes para mudar
isso. É sempre o presente que me
destrói, me anula.
A escuridão de minha alma ofusca
a luz grosseira que irradia dos que
me são caros, não consigo nem ao
menos refina-la, a luz.
Quanto ao lume que de mim
também deveria efluir, não há,
inexiste ou se mantém,
por razões que desconheço,
obscuro.

Eis como sou,
eis como vivo!

Minha existência é menor
que o acabrunhamento perpétuo
e imortal da minha alma.

Nunca sou a figura física,
sou sempre o que se isola
dentro dela.