a relação entre a poética,
sua poética, e o poeta:
às vezes as vestes de um
protege a nudez do outro...
não do frio do aço dos
versos, mas do olhar de
cobiça da métrica.
Os versos e a verve vivem
em promiscuidade com
uma (assombrosa) sombra
da métrica abolida e escorraçada.
O vermelho em meu tinteiro
sugere que minha pena é
assassina e que esse poema foi
escrito com sangue...
mas não houve morte alguma,
por ora não, não nessa hora,
e a tinta no tinteiro é sangue do
poeta suicida, quem escreveu estes
versos. Mas o poeta não se matou,
pois não há morte segura para Ele,
nem mesmo a auto-infligida:
-vale mais a vida - dizia a sofrer -
falha-me a vida - sentia-a a viver -
minha morte é um poema que só
eu posso escrever, uma vez que
me encontro poeta e minha vida
nunca foi poesia:
Deus não soube escrever tais versos
e o Diabo tampouco, e eu sequer
me dei a querer...não sei escrever...
desenho esse poema a vermelho,
feito de versos a sanguínea, são a
exata semelhança de tudo:
a morte um desenho feito a mão,
um autorretrato ao invés de algum
qualquer poema épico.