sexta-feira, 3 de julho de 2026

Degeneração

O morrer inventou a morte,
                                    a morte
o poeta,
o poeta     inventou a solidão,
                                    a solidão 
a poesia...
a poesia tende a matar Deus...
                                           Deus,
o inventor de Homens,
horríveis bestas, da natureza
a criatura mais feia, a única
a ser facínora:
Da poesia ao poeta:
deves criar um criador
sem jamais cair em redundâncias,
parece impossível porém:
o Homem criou Deus,
inventado à sua imagem
e exata semelhança.

domingo, 28 de junho de 2026

Aeternalismo

Escrevo a vida, porém,
confidencia a morte minha poesia.
Escrevo para não morrer.
O que quer dizer que escrevo a
eternidade.
O que seria do prassempre que
haverá eterno,
se não fosse esse instante que
acaba agora?

sábado, 27 de junho de 2026

Que permanece por muito tempo no mesmo lugar

Deus é um morador de rua,
um mendigo, um pobre Diabo.
Vive de esmolas, moedas, migalhas.
O pão dele de cada dia você não 
deu hoje, não é mesmo?
O pão dele de cada dia depende da
boa vontade dos transeuntes que
por Ele passam.
A caminho da igreja você passa
apressado, ignora, passa por cima,
atropela, violenta, agride, manda 
ao inferno... põe fogo.
Chega sobressaltado ao destino,
senta-se buscando abrigo e consolo.
Ora, reza, pede, chora e se emociona,
sente-se acolhido, como um escolhido
entre milhões.
Contribui generosamente com o 
dízimo, deixa o pastor, o padre, a igreja,
deixa a igreja mais rica, feliz, satisfeita.
No caminho de volta para casa prefere
ir por outra rua, para não ter de cruzar
de novo com àquele desgraçado,
vagabundo, que nada faz senão deixar
o mundo, a vida, um lugar mais feio
e sujo.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Prescrevo

O silêncio 
me falta
sempre
quando
eu não 
tenho a
palavra:

É quando 
sempre escrevo.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Doxaxioma

Com sangue entre linhas,
a relação entre a poética,
sua poética, e o poeta:
às vezes as vestes de um
protege a nudez do outro...
não do frio do aço dos
versos, mas do olhar de
cobiça da métrica.
Os versos e a verve vivem
em promiscuidade com
uma (assombrosa) sombra
da métrica abolida e escorraçada.
O vermelho em meu tinteiro 
sugere que minha pena é
assassina e que esse poema foi
escrito com sangue...
mas não houve morte alguma,
por ora não, não nessa hora,
e a tinta no tinteiro é sangue do
poeta suicida, quem escreveu estes
versos. Mas o poeta não se matou,
pois não há morte segura para Ele,
nem mesmo a auto-infligida:
-vale mais a vida - dizia a sofrer -
falha-me a vida - sentia-a a viver -
minha morte é um poema que só 
eu posso escrever, uma vez que 
me encontro poeta e minha vida
nunca foi poesia:
Deus não soube escrever tais versos 
e o Diabo tampouco, e eu sequer 
me dei a querer...não sei escrever...
desenho esse poema a vermelho,
feito de versos a sanguínea, são a
exata semelhança de tudo:
a morte um desenho feito a mão,
um autorretrato ao invés de algum
qualquer poema épico.


domingo, 21 de junho de 2026

Admoestações

Primavera estéril de 
flores natimortas;
Verão de um gélido 
frio do Éden;
Outono de árvores
mortas e fudidas;
Inverno quente infernal.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Todopoesia

Deus é leigo em Humanidades:
Fodam-se os Homens! 
nessa mesma linha, eu se fosse
Deus, seria (leigo) em decassílabos:
Foda-se a Métrica!
na mesma proporção se o universo 
todo fosse todo poesia.