Um vento que ali sempre soprava
não se vê, nem sente, não se ouve
mais.
Meu coração é cheio de lugares,
câmaras, lares vazios que ecoam
solidão e silêncio.
Por sobre os átrios, lares abandonados,
há lages vastas cheias de detritos de um
tempo que apareceu por ali, mas que há
muito já se foi.
Às vezes esse tempo volta.
Dizem que um pobre poeta maldito,
rompido com a poesia, de uma ternura
de aço no olhar, ainda habita por ali,
e quando a lâmina de aço dos seus
afiados olhos corta o horizonte, de longe
é possível observá-lo sentado sobre a
lage matando o tempo ao tempo que aos
poucos também deixa o tempo lhe matar,
lhe matar a morte.
Depois abandonam-se mutuamente,
e ambos ficam, ao partirem, querendo
ficar, mas mesmo assim sempre se vão.
Quando as heras que cobrem tudo
começam a secar, também é possível
vê-los juntos como parceiros da mesma
sorte e solidão.
O tempo traz ao poeta de volta a inspiração,
e o poeta ao tempo a eternidade que há
muito não se tinha mais.