quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Aziago

Floresceu o dia:
molhada a relva
fresca, refletia em
seu orvalho, um
espelho como se
fosse, a urbanidade
iluminada de um
novo dia que surgia.

Horizonte azulzinho, convidativo...
-poderia não ser domingo hoje.

Redondilhas

Pôr no quadrado 
meus versos contundentes 
não tem como não 
furar a bolha.

Ambiquietude

Meu silêncio 
é arte muda,
por assim
dizer. Minha
cabeça uma
oficina acústica,
minha alma um
ateliê.

00:00

[Na comiseração de novos calendários
o amanhã será o mesmo velho dia
de sempre. Quando haverá continuação 
nunca mais?]

Sou um desastre e posso ser,
ou melhor, passo a ser destruição.
Se como Humano sou um Diabo,
como Diabo sou Deus, e como
Deus sou mais um Homem falho:
Valha-me um adeus.

Eu sou guerra, eu sou devastação.

Atuo em um hiato entre o ontem e
o amanhã: eu sou hoje. Sou sempre.
Nada (de novo) veio antes de mim
nem nada virá após, aliás, o que vier
será apenas a mesma devassidão.
Outro presente. Quisera ser de todos 
o fim.

[eis que todas as almas são minhas,
assim como a alma dos Homens, 
a alma de Deus também é minha,
a alma que se omitir, esta sobreviverá:
lembre-se que Deus é eterno]

Eu sou eternidade que muito em breve 
colapsará, e meu pós-apocalipse é Éden,
mas sem ser jardim, sou um cemitério 
de perto, e de longe, ao longo da linha 
do horizonte de cada trêmulo olhar,
eu sou a cova rasa que cada um de
nós merece.

Sou o poeta da morte, sou a morte
de todos os poetas, minha poesia é 
a saúde inabalável de uma doença 
que sobre todos os versos se abaterá.
Hoje.

O melhor a se fazer não é se matar,
bom mesmo é não viver (de novo)
jamais. Não mais como ontem. Ser
um hoje que amanhã algum conceberá.

Se tudo acaba agora, é porque percebe
que o fim (da noite) há muito já começara.

Almumana

Dentro de mim uma alma,
é meu corpo um lar.
Eu moro aqui, pois apenas
aqui se pode morar.

Mas sou só eu e eu sou só,
porém, sei que há outros,
aos milhares de milhões:
multidões de gente só.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Todo o Amor do Mundo

O sabor da Morte em meus lábios 
deu-se por um beijo que a Vida me
roubou, minha língua por sob o céu 
da boca dela provou o gosto de
estrelas mortas. A Vida enamorou-
se por mim, jurou morrer de amor.
Então todo o amor do mundo 
a matou pelas minhas mãos,
sem nunca eu tê-la amado.

Devolvi o beijo em sua boca gelada,
senti o frio desespero de todo o uni-
verso, ao tempo que amantes outros
velando-a choravam copiosamente,
enquanto eu enfeitiçado pelo beijo,
platonicamente, só pensava na Morte.

Peso morto

Se o chão sob
meus pés é Deus,
Deu-se abismo:
quando o céu 
tropeça e cai
sobre nossa
cabeça, cai
pelo peso 
de um 
Deus morto.