quinta-feira, 14 de abril de 2016

Tentativa

Seria um belo voo,
ainda que durasse
apenas vinte e quatro
horas. Mas ao querer
ser borboleta, morri
crisálida, ao querer
ter asas, consegui um
sarcófago. Mas seria,
sem dúvida nenhuma,
um belo voo.

Calendário Viciado

No começo era só um mau humor
que me acompanhava,
mas esse mau humor nunca ia
embora. Então eu pensava que era
só mais um dia ruim,
mas no outro o mau humor persistia
e esse também era um dia ruim
assim como a semana toda, e então
eram semanas ruins. Mas eu me
consolava dizendo comigo mesmo
que aquele era na verdade um
mês ruim, mas o mês não acabava
nunca e era ele todo ruim,
dia por dia, semana após semana.
Mas, contudo, o mês acabava,
e o próximo era tão ruim quanto
o anterior, e o que vinha a seguir
era pior ainda e assim consecutivamente.
Demorei muito para perceber que
não eram os dias ruins,
nem as semanas, os meses, os anos...
e nem era meu humor cabisbaixo
que definia o rumo das coisas na
minha existência. A vida é que é ruim
e mau humorada, e por mais perseverante
que eu seja, nunca conseguirei ser maior
que a sua persistência em me fazer ser
um nada. 

Suicídio

Numa conversa franca e
sincera comigo mesmo,
eu me expus demais e também
fiquei sabendo de coisas
que'u não fazia ideia.
Por me expor demais
acho que terei de matar
meu interlocutor,
uma vez que,
pelo mesmo motivo,
ele pensa em fazer o
mesmo comigo.

Inverno Viver

Vivo de verso em verso...ou inverso,
sonhar...penso, existo logo...sou breve,
viver.

Frágil é a vida que meu
coração regula, o tempo todo,
a cada batida, no desespero,
no sufoco, a toda batida.
À toa batia,
dura e fria, a vida,
frígida, cínica, no dia a dia,
o tempo todo ao todo é ela
toda vazia. A tola vadia.

Penso de verso em verso,
é inverno...viver,
vivo, existo logo...tão breve,
sonhar.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Fênix Fail

Minha cabeça em caos,
mal duma cáustica calma,
insuportável condição
inabalada da alma,
pois nada é mais destrutivo
do que a incapacidade de
não poder, se preciso,
auto destruir-se e,
assim, edificar um novo eu.

Manhãs de um Vampiro

Atire a primeira pedra
quem nunca atirou.
Ame a vida ou deteste-a
quem nunca a odiou.
Seja sincero as veras
quando omitir a verdade
para a verdade que já te
enganou. Fuja da dor
as pressas, para um amor
que já te furtou.
Faça da vida uma festa,
na ressaca moral que ela
já te causou. Se mate agora
ou espera, por um novo dia
que já começou.
Não há esperança para essa,
nem para as outras
madrugadas, pois à elas
o sol das manhãs ira
se impor.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Caos Grafia

Dizem que todos eram versos punks,
embora muitas vezes,
de tão soturnos mais se
assemelhavam ao aspecto gótico,
mas eram góticos também,
eram hippies, revolucionários,
apatridos, endêmicos, longe
de qualquer Estado.
Viviam deste modo,
apenas desta maneira é
que respiravam.
Viviam em harmonia,
a pena buscava no sangue
do poema a essência primeira
da poesia, filtrava a verve e
descartava tudo o que não fosse
picardia, dessa maneira,
com calma e em caos grafia,
esboçava os primeiros traços
dos seus versos em rebeldia.
Não há métrica que caiba na
liberdade poética da própria poesia,
alias, é patética toda ideia que se
baseia em estética,
soa como as regras de
conduta de toda tirania,
obsoleta como os fundamentos
da sua própria filosofia decrepita.
Dizem que nunca mais foram
vistos por essas linhas,
agora habitam o universo
literário como escoria,
mas são a aurora de uma nova poesia.

Altíssimo

Veio hoje me incomodar o
cansaço da minha fé a velar
um deus moribundo que só
não está morto ainda devido
a dúvida quanto a sua existência.

Aquele que não existe não morre...,
mas perece aquele que não
acredita no altíssimo,
eu duvido com calma e
creio nele com todo o
m e d o  de  a l t u r a
(mesmo centímetros)
que tem minha alma.

Solitude

Só, tu, solidão,
por que te aflige a multidão?
São todos seres sozinhos
amontoados uns sobre os
outros, uns carregando nos
ombros o peso da medíocre
existência de outros e tantos
mesmos dão de ombro para
a singular presença de
cada um.

Só tu, solidão, que não
consegue perceber,
eles não precisam de você,
são monstros que temem
a própria essência e por
isso fogem de estar só,
apenas entre outros monstros
semelhantes é que conseguem
dissimular, fugir daquilo que
são e, quando agrupados,
simulam o que não são
para depois acreditar em
si mesmos. Ilusão!

Não passam de inventores
falsos que podem,
nesta vida estúpida,
serem tudo,
menos a falsa invenção.

Viu só, solidão,
não te aflijas,
pior que tua companhia
é não poder,
quando preciso,
lhe acompanhar.

Versos Fátuos

Tristes versos livres,
lívidos, mas não densos
como o chumbo, são
ímpios e etéreos como
a essência do mundo.
Possuem neles a matéria
daquilo do que o
universo é feito, são,
desse modo, por ora,
ainda muito incompreendidos.
Ao contrario do universo
não são infinitos,
são breves,
perecíveis em total
amplexo com tudo aquilo
que um dia morre,
mas que muito resiste.

Por isso são tristes,
por isso são nobres,
por isso são livres!

Sofreguidão

Presa aos lábios do
silêncio,
minha existência,
amarga e pálida.
Sempre foi quase e,
embora estoica,
sempre nada foste.
Seria solidão talvez,
mas nem mesmo só
pôde determinar a
sua tristeza uma
única vez.
Mas triste foi,
até o fim,
mas o fim não veio,
e quando foi o
fim procurar,
no caminho se perdeu
no meio, e desde então
está assim à se encontrar.
Mas ela ainda sorri,
um riso frio
(preso aos lábios do silêncio)
de desespero, de si
mesma a desdenhar.

Soneto Incompleto

Em uma gaveta esquecida
dentro da minha cabeça,
encontrei uma poesia
inacabada, amarelecida.
Deveria estar guardada
ali há muito tempo,
quem sabe até escondida.
Mas quem escondeu ou
guardou? sei que não
fui eu, pois lembro de
todos os versos meus,
uma vez escritos,
jamais esquecidos.
Os versos deste poema
eram estes:

"Oh triste dama iludida,
aceita meus pêsames
pelo, do teu amado, a
partida. Deixa-me tentar

amenizar a tua dor
e quem sabe assim,
musa arrependida, calar
esse teu pranto e se for

preciso lhe dar a minha
vida. Vê-la sofrer deixa
minha alma triste, doída."

Como pode ver, falta desse
soneto a última parte,
o último terceto, o arremate.
Quem escreveu e o deixou
inacabado e, por que estava
dentro da minha cabeça em
uma gaveta velha, guardado?
À quem se refere esse soneto,
à uma musa imaginária ou
houve mesmo essa dama em
algum momento, merecedora
do apreço desse autor canalha?
Não serei inútil como esse poeta
desconhecido, esse intruso que
se meteu em minha cabeça para
esconder alguns versos seus
inacabados, terminarei esse
soneto, mas darei a ele o fim que
eu achar apropriado, serei fiel
ao enredo dado e farei assim
esse último terceto:

...Veja como cravo esse punhal
em meu peito, pois para não vê-la
sofrer, abro nele uma mortal ferida.

Pronto! não há mais poema
incompleto. Findo o soneto,
a poesia escondida, assassinando
o poeta apócrifo.

Cicatrizes

O amor empírico deixa
feridas obvias,
maviosas, sobras de um
sentimento que passou,
mas tais cicatrizes são
a gloria honrosa,
nessa vida,
de alguém que já amou. 

O drama do louco poeta sem alma da triste figura

Era noite. A escuridão aludia
a um frio que quase não
existia, mas estava lá, em sua
alma, cortante como a lâmina
da foice da morte que ceifa
as vidas que para ela nunca são
o bastante, nunca a acalmam.
Era outono. Ou sempre fora,
nunca conseguira existir em
outra estação, mas no outono
sempre conseguia supor e imaginar
que talvez nele pudesse realmente
habitar, sua existência sempre
foi suposição.
Era poeta. Desses libertinos
audazes que desenham versos
sem métrica, por mais talento
que tivesse nunca obtivera
sucesso e sua poesia só era lida
pelo desprezo que para com ele
tinha profunda empatia e apreço,
ou tivera. Sua pena desdenhava
das palavras dos detratores,
desenhava poemas cada vez mais
enraizados naquilo que desagradava
seus algozes e censores. Dentro do
caldeirão desses senhores, onde
ferve a sopa de mil sabores,
ela buscava o caldo que alimentava
sua verve para nutri-la com o
mesmo veneno e assim torna-la
imune aos alheios desesperos e
dissabores. Era uma pena digna de
ser empunhada pelo mais nobre poeta,
mas sobre nobres poetas só há rumores.
Esta pertencia ao poeta da triste figura,
um ser inquieto, quase fantástico,
dono de um lirismo que satura,
ora abstrato ora profético, reflexo
soturno da sua alma impura,
maculada pelo destino num
traiçoeiro amplexo de vil ternura.
Era um pacto. O poeta empenhorara
sua alma ao destino em troca de
inesgotável inspiração, quando lhe
cansasse a fonte das idéias o poeta
resgatava sua alma e dedicaria
todos os versos escritos nesse período
ao destino com respeito e admiração.
Mas não sabia o poeta que a verdadeira
inspiração vem justamente da alma e a
válvula que regula o fluxo é o
conselheiro coração. Desde então
enlouquecera por não conseguir dar
vazão as idéias que pululam sua mente,
por não conseguir transformar em poemas
tantos pensamentos que surgem
incessantemente. A sua infinita inspiração
o transformou em um morto vivo,
em um poeta sem alma enganado pelo
destino por ser ingênuo em sua ambição.

Cegos surdos e mudos

Em terra de cegos
aquele que se sente
sendo observado é
poeta.

Em terra de surdos
aquele que emudece
o silêncio é poeta.

Em terra de mudos
aquele que conhece
o sabor das consoantes
servidas em meio as
vogais num fonema
é poeta.

Em terra de poetas
aquele que orienta
seus versos apenas
pela métrica é
cego, surdo e mudo.

Dolo e Ardor

Dá pena ver o amor
sofrendo tanto por nós.
Que culpa ele tem de
querer nos ver juntos
e assim se encontrar?

É triste saber o quanto
ele se perdeu.
Dá pena vê-lo se
sentindo culpado,
enquanto nós como
casal apaixonado,
nunca aconteceu.

Na certa ficaria
mais triste em saber
que desde o princípio
(com dolo e ardor)
nós sempre desejamos
luxúria e prazer.

Tolo amor,
quando em sua
misteriosa existência
irá enfim aprender?