domingo, 11 de dezembro de 2016

Brio temporal

Ao menos chuva,
e em minha alma
brilha o sol.

Ao cair a chuva
eleva-se minha
alma em brio
temporal.

...e leva e se vai
embora, carrega
toda angústia
para fora, e na
obscuridade que
é viver, contempla
o horizonte
sentindo-se segura
afinal.

sábado, 26 de novembro de 2016

Belo e vil

Seria o amor a
face dissimulada
do mal e, se esse
mesmo amor é
salvação, então
salvar-se é nada
mais que condenação
total?

Deus é amor!

Seria a dor a
certeza de viver,
a garantia de que
vida há e de que
sofrimento é
dádiva inerente
de todo ser?

Viver é amar!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Afora

Há um lindo dia de chuva lá fora
meu amor, sendo o outono a nossa
aurora do ano, partamos com ele
calendário afora colorindo o céu
com os matizes de nossa cor.
E para onde vamos, o que importa
o destino para os passos se será
com nossas asas que iremos para
onde for?
Voaremos para longe buscando
encontrar lá descanço para
nossos planos de continuar seguindo
em frente rumo ao nosso esplendor.
E será o que decidirmos que seja,
o nosso ápice, o nosso clímax em
crescente furor. Arderá em nossas
almas a liberdade que já arde mas
que não produz suficiente calor.
Nosso amor uma brasa sempre
acesa em perpétua queima de um
vitalício ardor.

A chuva cairá para refrescar os
poros, e nossos corpos elevarão-
se às nuvens, subirão aos céus
conduzidos por denso intenso
vapor.

Romance

Em cada minúsculo fragmento das
minhas falanges, segurando-a em
minhas mãos, sinto-me possuidor
de graças e honrarias.
Sendo meu maior tesouro aquilo
que sinto, penso que o amor
sente-nos, sonda-nos e quer
prender cada um de nós, unidos,
em sua teia sombria e maravilhosa.
E o que eu sinto então?
Tendo-a em meus braços sinto teu
corpo quente ardendo e irradiando
gloria. Seria a mesma gloria causada
pelo mesmo amor que definitivamente
sinto?

Vivemos a morrer de amor,
tu, pela febre da paixão,
em meus desgraçados braços,
por minhas mãos, morreu
olhando-me a alma.
Eu, dilacerei meu peito com
o punhal de Romeu e, fitando-
te o rosto de uma beleza viva,
morri também.

Viemos a morrer de amor,
você pela excitação da minha
covardia e loucura, e pela
minha negativa em deixar-te
ir, e eu, pela falta que você
me faria. E por tudo aquilo
que foste tu responsável em
me fazer sentir.

Amores Inversos

Viver sob a égide de dádivas
instáveis, de inválidas à
saudáveis, são as virtudes
provenientes destes mesmos
ternos males.

Nisso, vicía o poeta
enfermo, versado em
amores inversos,
vividos em invernos
intensos.

Vida é ardor!

Calor é do frio a ferida
enquanto incerta é a
certeza do amor,
sempre em dívida com
quem o reclama, com
quem o precisa, com
quem o provou.

Se chora o poeta, das lágrimas
faz poesia, quando canta,
se é que canta, o canto é a
tristeza estudada e produzida
em melodia.

A música é o silêncio,
o silêncio seu clamor.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Escritos de um ex Cristo

Já fui herói há muito tempo,
em verdade, eu era apenas
criança.
Sic transit gloria mundi.
Quando jovem, tinha a ideia
fixa de que era eu agente de
revolução, seja lá qual fosse.
Tinha dentro de mim um
desejo enorme de mudar o
mundo, queria subverter e
fazer daquilo que eu pensava
lei, uma realidade para todos.
Além de revolucionário eu
seria desse modo um déspota
também. Hoje ignoro o que
eu pensava. Depois de muito
pensar e sentir, cheguei a
fase adulta, pensava e sentia
de modo mais comedido.
Pensava sobre a vida e como
ela é toda tão vazia.
Vazio também, eu sentia pouco.
O amor é uma fraqueza;
A amizade uma tolice;
A família uma dívida com
a vida que se adquire quando
nasce e um fardo que se
carrega para o túmulo;
O cotidiano, o ócio, a labuta...
tudo isso sempre me causou
um pesaroso mal estar.
Hoje, de frente para a velhice
ainda busco satisfação,
depois de tudo que vivi e de
tudo que não vivi, sei que
essa tal satisfação de estar
vivo é algo que não compreendo.
O que eu sei e percebo é
a antítese. Mas como buscá-la?
A religião me aborrece, muito;
As artes me fazem cada vez mais
querer tantas outras formas de
possíveis e impossíveis realidades
quiméricas.

Enfim, assim, me vi poeta,
busco em minha poesia um
caminho seguro para chegar,
quem sabe um dia, a sentir-
me satisfeito.

Tirando meu mau humor
gasto e experimental, o que
eu sinto é uma espécie de
fuga de tudo, renúncia do
nada e apelo por silêncio
e solidão.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Modorra

A dor meço em meus sonhos,
a dor de estar vivo,
a dolorida vida dos insatisfeitos.

A insônia vencida traz sempre
um desassossegado sono, e então
lá estou eu de novo,
como um agrimensor dos
tormentos da realidade em
meu posto onírico.

A vida real basta como
terrível pesadelo.

Em meus sonhos o que faço
é acariciar as minhas memórias
com alento, mas tais
r e m i n i s c e n c i a s
torpes produzem nada mais
que real constrangimento.

Sobressaltado acordo e quando
encaro novamente a vida desperta,
faço para ela uma reverência e
subverto a intenção, mas não é
desprezo, é reciprocidade e,
além do mais, prefiro meus
malfadados sonhos,
sendo assim,
adormeço.

Memórias Póstumas

Tenho uma ideia fixa,
tipo aquela do emplastro.

Mas como me engano,
alguém saberá do que falo?

Não importa.

Minha ideia fixa é ser
alguém também futuramente
completamente ignorado,
seja como a personagem ou como
Joaquim, Maria, Machado...

Incognita

Me isolo de todos e, em minha
solidão, um remorso monstruoso
me constrange. Sinto uma
necessidade de voltar correndo
para o derredor dos outros,
mas não mais é possível
naquele momento. O tempo
que me refiro já é passado
e não possuo poderes para mudar
isso. É sempre o presente que me
destrói, me anula.
A escuridão de minha alma ofusca
a luz grosseira que irradia dos que
me são caros, não consigo nem ao
menos refina-la, a luz.
Quanto ao lume que de mim
também deveria efluir, não há,
inexiste ou se mantém,
por razões que desconheço,
obscuro.

Eis como sou,
eis como vivo!

Minha existência é menor
que o acabrunhamento perpétuo
e imortal da minha alma.

Nunca sou a figura física,
sou sempre o que se isola
dentro dela.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Fuga

Aos montes,
foi para onde muitos
correram, fugiram para
mais perto do céu
buscando acolhida divina.
Tolos e pusilânimes,
não sabem que os céus
detestam os fracos e deus
condena os que fogem,
e aqui em terra há
variados tipos de covardes,
aos montes.

Eu in verso

O coração é o oposto
do cérebro,
o anus da boca,
a alma do corpo,
a nudez da roupa.

E eu do resto.

Soneto

Dizem, os bajuladores da métrica
que o desfecho de um soneto
deve estar no último terceto,
essa é a maneira de faze-lo correta.

Devem ser decassílabos ou
dodecassílabos devem ser,
isso seria exato, ao meu ver,
se a poesia fosse mãe do pudor.

E a forma, meus caros irmãos,
num poema é o que não importa,
a poesia é livre pelas mãos

daquele que empunha a pena,
é o escultor quem usa o formão,
deixem ele responsável pela forma.

Honra e Erro

Uma história de sucesso às avessas,
fracasso é mato, e o poeta agrimensor
desses campos abastados.
     Se não há gloria em cantar
     as dores do Homem e da vida,
     há honra em poder fazer poesia
     de matérias tão nefastas e nocivas.
O poeta é um facínora do bem,
anti-herói algos, um vilão bom,
um demônio zen.
Sucesso é perfeição, o poeta entende
que perfeccionismo é um erro e
diariamente nesse erro ele busca
ser perfeito também, mas não é.
Se há gloria em ser poeta, tanto faz,
que gloria há em estar vivo, na vida,
se não existe gloria em ser poeta
para quem nasceu para morrer
pela poesia?

Minha maldição é uma honra!

Sempre Amais

A mímica dos teus gestos,
é ela toda cheia de graça,
ensina a beleza e a renova
e a faz ser sempre benfazeja.

Ah! o amor a teu modo,
o amor ateu, incrédulo e
inócuo não existe mais.
Agora só há amor otimista,
que acontece e acredita
que o sempre quer ser
sempre e pode ser sempre,
sempre mais.

Nosso amor é sempre mais,
e sempre diante dele eu peço
ao tempo para implorar para
a eternidade que permita ao
mesmo tempo acabar jamais.

E assim seremos felizes e,
se um dia se esgotar as areias
do tempo, nós já do tempo
seremos aprendizes e aonde
não houver ele, haverá nós,
nosso amor e nada mais.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Obscuridade

Os poemas que eu não fiz,
esses sim são os melhores.
Como uma existência além
da Terra olhando para cá
se sentindo miserável.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Gira o planeta

Venho do passado
com minha retórica
de outrora, hoje
retrógrada, mas
sempre atual como
relógio atrasado.
Nada importam as
horas de agora para
quem aprendeu a
contar o tempo no
passado.

O tempo se renova
filtrando-se em
calendários.

Lá fora,
universo
afora,
gira o
planeta
impulsionando
o tempo em
nossas vidas.

Despedida

Na medida do possível,
a vitória virá.

O impossível verá!

A glória virá em medidas
compatíveis com o esforço
do cansaço, o esboço diário
da conquista que traço
riscando com meus passos
num caminhar que o
horizonte dirá que é só de ida.

O impossível verá... despedida.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Vincent eu

Eu queria e muito ser
alguém como Van Gogh
foi e, a priori, eu sou
esse alguém.

Embora empiricamente
falando, não passo
de um comedor de
batatas, mas um Vincent
porém.

domingo, 16 de outubro de 2016

Escárnio

Me excitam os pecados,
mesmo os mais sujos e
baixos me são caros,
logo eu, feito à
semelhança de deus,
sendo assim, sou assim
a imagem do escárnio.

Overose

Dou-te meu sólido amor
entre um milhão de rosas
e flores, pois no insólito
jardim que és meu coração
não há nada que não seja
metafísico e (salvo as rosas
e as flores) nem nunca houve.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Soneto

Observei a silhueta do invisível,
eram os contornos da solidão.
A aparência que me saltava a visão
era algo dentro do indescritível.

A sós, nós dois, profunda comunhão,
em silêncio respeitando o inaudível,
ceamos sempre a sombra possível,
uma vez que a luz aqui, é escuridão.

O que passo a dizer não é crível,
mas o biombo por onde vi a solidão
em verdade era todos os indivíduos.

Todos são todos e todos são tudo,
menos eu, singular único,
e em mim, muitos eu's em profusão.

Poeta astro

Em si mesmo,
em si a esmo.
Em silêncio,
em sina.

Olhos para as estrelas,
enquanto o universo
cabisbaixo me olha
devolvendo minhas
tristezas.

O corpo é só um suporte
para a cabeça, saúde é
poder segurar entre meus
dedos tortos minha pena e
da cabeça mágica, sem cartola,
sacar fora os poemas.
Versos estapafúrdios agora,
daqui para muito em breve
continuarão os mesmos,
porém, terão os olhos
daqueles que os ignoram.

Versos em aço,
em fogo,
aveludados.
Versos destemidos,
livres, fragilizados.

Assimétricos, alinhados
ao paradoxo, são assim,
desse modo, mais que
antropofágicos,
se alimentam da própria
verve, escarlate como o
sangue que na carne viva
deles mergulha a pena
para fazer da velha senhora
poesia, Vênus.

Ensimesmo,
em si esmo,
o silêncio,
ensina.


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Carne da alma

O corpo é ampulheta
de sangue e oxigênio.
Carbono que o tempo
devora.

É carne da alma em
carne viva que expira
em vida para a alma
ir embora...do corpo
morto e, sob terra,
desabitado, o corpo
morto é mera matéria
podre, banquete para
vermes e vermes...e vermes.

Protocolo

O amor aguça meu coração
atrofiado. Em primeiro esboço,
é dele a culpa pelas fobias
que apresenta esse mesmo
pulsador de sangue, ferido e
ensanguentado.

O amor e seu fio cortante,
meu coração viu que foi ele,
frio, vil,
arrancou-o do peito e o
feriu mortalmente, ou quase.

Se sobreviverá ou não só
mesmo o mesmo amor poderá
dizer, já que é ele quem zela
pelas feridas das vítimas que
coleciona, praxe.

Há onde

Quando Buda,
o nirvana o estressou;
Quando Cristo,
no parricídio se vingou;
Quando Deus,
até o Diabo perdoou.

O Homem não.

Quando ateu,
mesmo na Ciência
não acreditou.

Como Homem,
buscou satisfação,
morreu poeta.

Viveu em ilusão.

domingo, 2 de outubro de 2016

Certeza

É outubro de dois mil e
dezesseis, já foste o inverno
e em breve irá também o
próximo mês, e a primavera
quando acabar será verão,
assim dezembro terminará
de liquidar mais um ano e
eu ainda, por minha vez,
nada tenho senão a visão
de que tudo continuará
do mesmo modo até a
chegada do outono e a
certeza fria do incerto
outra vez.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Matrix

Deus inventou o Homem,
o Homem inventou a
Máquina. E se a realidade
ao contrário fosse, e se,
Deus houvesse inventado
a Máquina e o Homem
inventado Deus, ou se a
Máquina inventou Deus
que inventou o Homem
que por sua vez inventou
a Máquina, seria então o
Homem algo acima de Deus,
pois ele criou quem
Inventaria Deus, a Máquina?

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Âmagos

Todos os meus eu's que passaram
por mim jazem em algum
recôndito obscuro.
Sou um cemiterio de mim mesmo.

Sou eu o que agora escreve,
o outro que virá em algum
outono e também os defuntos.

São fantasmas de mim mesmo
assombrados por si mesmos,
como eu.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Ciclo(Terra adubada)

No início só havia o nada
e do nada fez se tudo.
Hoje todo o tudo está
consumado e consumido,
e já apontamos novamente
para o nada.
Incólumes ou quase,
a espécie sobreviverá,
nossa espécie,
a dos tiranos.

Esse planeta cinza,
outrora visto azul
do espaço e aqui,
em terra, o verde
abundava, a água
brotava, nada mais
há.
O que resta somos
nós, vermes e Homens,
Homens e vermes.
Mas ninguém nunca
conseguirá distinguir
um Homem de um
verme, nos adaptamos
à natureza deles e hoje
somos todos um só.

Que um novo ciclo começe.

Delirium

De lírios,
orquídeas e outras
flores. Lembro que
era disso que você
gostava.

De mim,
de nós e outros
amores.

Hoje seu amor
rega outros corações,
no meu restou apenas
um jardim abandonado,
delírios e outras
perturbações.

domingo, 25 de setembro de 2016

Estrondo

Minha fé e deus,
duas forças que
se repelem.

Desconexas e
heterogêneas,
duas forças
que se medem.

Para pôr
fim às
afrontas
eu cedo
e faço a
oração.

O estrondo do
encontro das
forças soa pelo
céu como um
uníssono trovão.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Esperança

Como ontem,
o máximo de
bom que pode
acontecer hoje
é o amanhã.

Vasto Fastio

Era de áspera à suave,
tecia em seda a
aspereza, e em ácido a
suavidade.
A beleza era clássica,
mas ao mesmo tempo,
aos olhos desatentos de
alguns, soava como novidade.
O corpo e os contornos
era como vidro moldado
ao fogo, como diamante
quanto ao posto de frágil,
como carbono incandescente
durante um tempo perpétuo
formou e fazes tal preciosidade?
A labuta era o ócio,
subjetiva sempre, sua natureza
era devota do paradoxo, objetiva
era quando o intuito fosse confundir,
quando enganar fosse o propósito.

Poderia ser essa a descrição
de uma vil dama,
mas lhes asseguro que não é esse
o caso,
o presente relato apresenta a vida
percebida desse modo pela alma
cansada de um poeta vasto.

domingo, 18 de setembro de 2016

Ruptura

Status quo,
quotidiano imutável,
nada ao todo
inalterado, tudo ainda
em esboço ou ainda
o esboço sendo
planejado.
E o que o desenho
revela são alguns
versos em mesma
filosofia, querem
ser poema, porém,
há alguns querendo
romper com a poesia.

Partida

Do lugar aonde estou
eu posso traçar uma
linha reta para qualquer
lugar em qualquer direção.

Para um planeta distante
abandonado, para uma
galáxia longínqua habitada,
para Machu Picchu,
para Groenlândia,
para Guarapuava,
etc.

Mas para aonde quer que eu
planeje ir,
para dentro de um livro
de Júlio Verne, para a rua
do Ouvidor nos tempos
do império ou para um
casabre qualquer em Macondo,
eu preciso de uma única
coisa, indispensável a qualquer
viagem, eu preciso e só preciso
na verdade, é partir.

Essê

Fosse fácil viver
seria a vida melhor?

Felicidade é dinheiro,
é poder tê-lo,
é deus(é poder tê-lo),
é paraíso terreno.

Fosse deus quem eu sou
seria eu melhor, e eu,
se fosse deus, acreditaria
em mim, em nós?

Fosse a vida felicidade
como cantam os enamorados...

Então dela eu esperaria
só amor.

Vida Secular

Quando olho, o que vejo é o que
ninguém enxerga.
O modo como a sociedade se
observa.
A vida é uma sátira de si mesma,
como deveria ser é sempre
apenas a priori, e sua sina, é ser
vivida intensamente sempre na
crença de que melhore.
Não melhora.
O que muda somos nós, sempre
nos tornando cada vez mais
fortes, desse modo, sempre nos
moldando ao que propõe a vida
para nós como nossa sorte.
Nos adaptamos a tudo, exemplo
disso é a vida que levamos,
confundindo deus com dinheiro,
aceitando deus sem merece-lo.
Se eu preciso de deus nesta vida,
é porque ela não é boa e, se deus
é bom, por que então eu não posso
sê-lo?

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Adeus

Se é para deus me acompanhar
então que ele traga bebida e
cigarros, pois logo quando eu
me entediar, me embriagarei e
se depois deus me perturbar
eu o mandarei para o diabo.

Com ares de ser independente
e entre fumaças de rebeldia,
se é para deus me acompanhar
então carregue ele o fardo pesado
que atrasa tanto a minha ida.

É provável que durante o caminhar
eu canse e me esgote, mas que haja
forças em mim para incentivar que
continue andando o deus desanimado,
pois se ele vai me acompanhar não
quero ninguém cansado ao meu lado.

Que ele suporte a sombra do sol
sobre as costas e a luz fria da lua
que iluminará o caminho sem
volta em noites de trevas profundas
e vazias.

Se é para deus me acompanhar
então que respeite os meus vícios
de Homem maduro, livre e sem
culpas. Quero ópio, quero álcool,
quero pão e perdão e, em dias
sóbrios quero me arrepender de
todos os pecados.

Veja como é a vida,
se eu acreditasse nela do mesmo
modo que ela em mim acredita,
eu já estaria morto, pois seria
um suicida, mas resolvi olhar
para ela sob um outro ponto de
vista, sou poeta ora ateu ora
teísta, sou sofista para com deus
e filósofo para com a vida.

Que venha deus me acompanhar
para junto comigo apreciar a vista,
eu lhe mostrarei a miséria dos
homens que morrem engasgados
pela ganância e pela cobiça.

Que deus desça um pouco lá
de cima, de onde os urubus
procuram carniça e venha me
acompanhar e, quando talvez
desanimar, descansaremos na
sombra de nossa preguiça.

Não entendo por que tanta
pressa, se nesta vida o que
nos resta é sempre só despedida.

Porranenhuma

Quando eu era ainda
apenas um gérmen
e tivesse tido acesso
à sinopse da minha
vida, eu teria sido
para sempre sêmen
e não um porranenhuma
de estrutura complexa
definida.

domingo, 11 de setembro de 2016

Versilibrismo

Não tem caráter didático,
mas nada ensina mais;
Não tem caráter científico,
mas nada explica mais;
Não tem caráter litúrgico,
mas nada traz mais paz.

Se tem caráter filosófico,
metafísico, realista, tanto faz.
Discorre sobre tudo mostrando
para todos o quanto tudo é
todo tão fugaz,
a eternidade,
a vida,
o amor...

Deus a inventou e o diabo
deu-lhe educação.

Não tem caráter,
não tem ética,
não tem razão.

É toda condescendente da felicidade,
porém, é na tristeza que ela mora,
namora, ama, triste acorda cedo,
e triste vai para cama.
Se é sincera ou não,
não faz diferença,
mas é verdadeira
mesmo quando engana,
a metáfora, a poética licença.
Confunde as palavras e as
rimas com sua dislexia
caseira.

Decanta os céus,
eleva o submundo,
sussurra aos berros que
não pertence a esse mundo.

Pode ser profética,
fantástica, mas em
que ela é mesmo
absoluta é em
Liberté,
onde mesmo com
trajes de métrica
é livre, e resoluta é.

É de minha poesia que falo,
essa admirável senhora,
essa doce dama,
porém, sei que em suas
veias ferve a verve de
toda femme de cabaré.

Contra luz

...e tudo
se tornou
claro e
diante de
mim eu vi
a escuridão.

Cemitério

Eu já morri pelo o que é certo,
algumas vezes.
Já rensaci pelo errado,
meu deus, quantas vezes,
mas não como uma tola
fênix piromaníaca, e sim
como um torto poeta doente
que morre ao querer ter a
cura, sempre. E sempre quero.

Se pelo errado ou pelo certo,
não sei, mas morro e,
enquanto eu me velo,
renasço.
Então me ponho a fabricar
versos e até o final do poema
é certo que nele ficarão alguns
poetas sepultados.

Humanos Morcegos

Assobiar com o sopro
do bocejo é tentar
dormir cantando.

Sapatear diante do desespero
é tentar manter a calma
dançando.

E por que não dançar
ao som de um desassossego,

cantar num tom acima daquele
que a insônia assobia à humanos
morcegos, em madrugadas
intranquilas de tranquilos
Pesadelos?

O riso, sorriso, e o beijo

Riu de si mesmo, o riso,
quando viu-se desespero.
Logo, o sorriso, pelos
falsos testemunhos acometidos,
chorou, envergonhou-se do
seu crime, como o beijo
quando em nome de uma
delação saudou vilmente o
traído.
Ambos os três prometeram
nunca mais simular, fingir,
enganar, e desde então a vida
ficou mais sincera, triste e cinza.

A verdade chorou comovida,
não querendo os três magoar,
mas foi omissa e, diante de quem
quer que seja, chora ainda um
inverossímil penar.

Desencarnação

Secou ao frio,
minhas ácidas lágrimas
cortantes como lâmina
de afiado fio.

Foi fria a febre que
ce...deu ao pranto e,
após dias de agonia
senil, a febre gélida,
covarde, enfim desistiu.

No entanto,
ainda arde
a alma rebelde
disposta num
leito de mármore
frio à espera
de resgate,

arde como vida,
todavia,
comovida,
a alma percebe
o corpo morto
ou quase,
recebe essa imagem
doída em seus olhos
que vertem lágrimas
pela liberdade que em
instantes lhe será concedida.

Deus ex machina

Amai as máquinas,
amai as mais e mais.

Amai-vos como amam
as máquinas,
elas são um pouco
humanas assim como
nós possuímos algo
de divino,
pois deus ama os
Homens, do seu jeito
Ególatra, mas ama.

Amai as máquinas à
máxima do amor...

São fruto do conhecimento
humano, mostram como
evoluímos abissalmente
em sentido fútil,
voamos magistralmente
num abismo tecnológico.
Nossas máquinas usurpadoras
legais de toda competência
humana, fazem tudo por nós,
e se encarregarão de nos eliminar,
assim como nós,
estupidamente, não
precisamos mais de deus,
elas, um dia, certamente
não precisarão mais de nós.

Amai as máquinas!
Amais as jamais e mais!

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Retrato

A vida me deu o
tempo que ela me
deu
para eu
faze-la melhor.
Na vida o que fiz
não sei,
mas dela, eu fiz
poesia e, se a
pintei como a vejo,
não sei se a melhorei,
desconfio que não.
Agora, se ela irá me culpar
de ser verdadeiro,
acredito que justificará
os versos meus.

Corações, relógios e calendários

Dura o tempo que existe,
o meu amor,
sólido, denso, livre...
Intenso por não saber
o quão é efêmero ou
se ao todo é infinito,
mas sabe que é gigante,
colossal, é supra sumo
superlativo.
Duro é o tempo que existe
sem amor,
passa triste por corações,
relógios e calendários.

Sopra o tempo um vento
frio de um céu sem cor...


Enclaves

Existem infinas possibilidades,
infinitas incertezas, uma série
de alternativas realidades
acontecendo agora dentro
da minha cabeça.

Inúmeras personas,
inúmeros demônios,
santos fadados ao
fracasso, deuses
cruéis e espontâneos,
vivem dentro de mim
em quantidade de
enorme tamanho.

Todos são tudo que sinto
e o que penso.

Todos dançam,
bebem e brigam,
cantam canções
à Vênus em um
dialeto estranho.

E quando entoam
gritos de revolução
como dissidentes
de um falído sistema:

sou eu em meio a reflexão
acerca duma existência
pequena.

Fanatismo

Não suportar o fardo
pesado, cheio dos escombros
de uma vida em ruínas,
e depositar o peso dos ombros
no mundo, e determinar a
tua culpa como desculpa,
e culpar os outros pela tua
vida arruinada por tua conduta,
é querer seguir em frente
sem mover os pés, esperando
que uma força divina o conduza.

Deus não existe para você.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Cristianismo

Há vendas sobre os olhos da sua alma
a venda. Tua fé cega o cegou,
tua alma se prostituiu, prostituiu-se
pelo deus da cruz ao modo do filho
do mesmo que a todos amou.
Foi Jesus o salvador,
e então, tu, por que ainda
se vende?
Nada mais temos que temer,
deus está olhando-nos de cima.
"Vendo a todos" diz ele,
"Pois todos me são caros"!
É o que o mercado das almas estima.

Eu's em mim

Quantos de mim cabem dentro
de mim mesmo,
quantos destes eu's em mim
são realmente autênticos e
quantos tantos outros são
o inverso do que sou e
buscam assumir o controle?

Quantos são eu e quantos
são outros,
e eu, será que sei quem sou,
e de mim,
o que sabem meus outros?

Em minha alma todos cabem,
Mas somente eu nela me
encaixo. Me preocupa apenas
os outros eu's vivendo em
mim em forma de plágio.

Nadah

Nada há no nada
e de nada vale
insistir.
Em cada nada
vasculhado há
quase nada a
surgir, apenas um
naco de quase
sem valor algum.
Mas a vida veio
do nada, de um
naco desse quase
inanimado, um
bacilo de nada
microscópico que
jazia no vácuo
do universo, em
um incógnito cosmos
vasculhado por
deus até ele
encontrar a
matéria do nada
para assim fazer
você.

Desaparição

Era um poema de um
verso só,
de um solitário poeta
de um poema só.
Dono de uma pena
Sem talento, dislexica
e só, nada mais.

O poema do verso só
não há mais, suicidou- se
o verso. Do poeta solitário
restam apenas reminiscências
guardadas dentro do seu
poema último, único.
Poema que agora jaz.
A pena do talento para
dislexia tornou-se obsoleta,
não há, não haverá mais
poesia, nunca mais.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Robótica

A imortalidade da morte
se dá graças a efemeridade
da vida, se em todas as
especies a vida fosse eterna,
a morte seria apenas alegoria
mística.
A morte viva depende do fim
da vida.
O amor pode ser morte e
pode ser vida e simultaneamente
não é nem uma coisa nem outra,
no entanto ou por isso mesmo
não se sabe ainda como
exterminá-lo.
Talvez o futuro traga o fim
para os três: morte, vida e amor.

Colapso

Acabou, foste.
Nada mais resta,
tudo já não mais
existe, acabou
o que antes havia,
nesse momento,
não há mais.
É o fim,
a extinção.
Acabou- se a busca
por algum propósito
válido, se foi a esperança,
pois não há mais pelo
o que esperar.
É a conclusão de tudo,
o fim do mundo no
horizonte a despontar.
Não há mais horizonte,
não há mundo, nem
sequer há vestígios do
universo, das estrelas,
do espaço...

Deus riscou com sua pena
nas nossas existências tortas
o último verso e dele fez se
o colapso.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Em mim amor

Eu lamento o tempo
que não passa,
pois nesse tempo
não ti vejo, não a tenho.
Eu invejo o vento
que ti abraça,
lhe beija e acaricía-lhe
o corpo por onde
passa sem receio.

Ah se eu fosse o relógio,
o calendário, o nascer e
o ocaso do sol, o luar...

Não haveria tempo,
só teria você.

Se eu fosse a válvula que
regula a velocidade do tempo.

Não haveria tempo que não
passa nem que voa,
não haveria do tempo
nem sequer a pessoa.

Só teria você.

Só haveria você,
daqui pro que virá,
leve o tempo que for,
só existirá você,
você e em mim,
amor.


domingo, 4 de setembro de 2016

Amor baixo

A um monstro se
afigura a figura do
amor, até em doces
belos sonhos ele pode
ser assustador. Se a
priori é ruim, o amor
empírico algumas vezes
é pior ainda. Amor que
mata, que destrói,
agindo tão inversamente
a sua natureza. Mas qual
a real natureza do amor,
do que é vida, que constrói,
será divina, será humana,
ou maligna, profana e
por aí vai?
Mas o que importa, amor
é amor e para quem ama
isto basta, seja o amor da
natureza que for, religião
ordem ou casta, indiferente.
O amor nos torna todos
iguais, alguns se assemelhando
mais aos deuses, outros
aos Homens e tantos no
amor se afiguram e muito
a imundos animais.

Abaixo o amor desmedido
aos céus.
Abaixo o fanatismo dos
Homens e o niilismo
misantropo de deus.
Abaixo o amor eletivo
de deus e sua adoração
assaz adulada(sempre)
em seu próprio nome.

Abaixo o amor.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Será amor ou úlcera

Meu coração é como um grande
estômago, animalesco e insaciável,
devorador de sentimentos,
mais punk que o diabo.

Meu coração mastiga o amor,
e embora não possua dentes,
o tritura a cada batida e o
mantém em uma câmara suja,
assim vai ruminando o sentimento
conforme a sua fome pulsa.

Amor é comida, combustível
para ele funcionar, mas se o amor
não for bom, certamente ele o
vomitará, cuspirá fora e se
auto flagelará.

Meu coração filhodaputa
é o que come, e a sua fome
por amor é assaz absoluta.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Janistroques

Sou leigo,
sou laico,
sou nada.
Aceito,
concordo e
acato a ideia
dada.
Sou uma copia exata,
sou certeza absoluta.
Não minto,
não peco,
sou ética superestimada,
condicionada a ser
reflexo de alheia postura.
Sou sociedade,
sou Estado,
sou pequeno burguês,
sou asco,
sou avesso a toda ruptura.

Sou um tom mais claro,
sou suave,
quase como o silêncio
em figura.

Sou leigo,
sou laico,
sou porra nenhuma.

Soneto

Do bocejo à insonia
Do nascimento ao suicídio
Do desejo à vergonha
Do píncaro ao precipício.

Do universo ao bairro
Do psicodélico à missa
Do amor ao nojo
Do prazer à agonia.

Da poesia à cronica
Da literatura à liturgia
Da vanguarda à ladainha.

Do poema ao discurso
Da nostalgia ao futuro
Do verso livre ao soneto.

Não Lidos

Alguns livros velhos,
é tudo que tenho.
Meus poemas não lidos,
de desenho simples aos
olhos de todos passam
despercebidos.
O que exprimem de belo,
o que dizem os livros,
velhos despercebidos?

Talvezes

Não há refrão,
não há rica melodia
nem ao menos canção.
Alem do mais, se houvesse,
quem ouviria, alias, quem
perceberia música em
minha solidão?

Não há solidão,
não há silencio
nem ao menos som.

Sendo assim,
o que há então?

Só talvez, talvez.

Depois do Futuro

Do infinito, logo se chegará
ao fim, mas ninguém saberá
quando. Assim como o fim do
universo também está próximo
de ser conquistado, por quem
e quando, ninguém poderá saber.
Talvez amanhã ou depois,
quem sabe depois de amanhã
por algum filho meu, ou pelo
filho dele, mas talvez eu nunca
seja pai. Quem é capaz de saber
o que ou quando,
o infinito, o universo,
meu filho... tanto faz.

Soneto

Uma garoa fina ainda é chuva,
versos sem métrica são poesia.
Uma virgem acariciada ainda é pura,
minhas emoções disciplinadas são rebeldia.

Uma noite enluarada ainda é escura,
cabeças cheias de novidades são vazias.
Um tímpano em ruídos ainda escuta,
revoluções após guerras são tardias.

Para muitos a vida é taça de cicuta,
sonhos, esperanças, paixões, alegrias...
é tudo artimanhas da mesma filha da puta.

As impressões que temos são subjetivas
acerca de tudo nessa ilusão maluca,
pesadelos para alguns, para outros maravilhas
                                                      [gratuitas.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A Mariana

Ama
Amar
Amaria
Amariana

Amo-a Amo-a...

Dama Máxima

Mariana,
prima dona
do meu coração,
única e absoluta,
responsável mor da
minha existência sua,
só tua,
não há disputa,
não há desculpa,
só há Mariana,
primeira e última dama.

Minha máxima ultra.

Sigo asceta

Ascese para ascensão,
acesso, dessa maneira,
a grandeza de minha
alma...acesa.
Assomo ao o que
almejo e me vejo
aos píncaros, gigante.

Tão grande quanto
nisso minha devoção.

Já não sou mais poeta
de verso livre nem de
métrica, sou o versador
das estrelas e de um novo
inicio em explosão.

Cara morto

Tenho hoje a idade do meu pai,
quando morreu.
Tenho a saudade de um pai,
que não existiu.
Minha cara de homem é a face
da lembrança da fotografia
do meu pai morto,
mas não pareço com ele,
nem mesmo isso a vida permitiu,
porem, dizem que os defuntos têm
todos a mesma cara.

Recém Tardía

Foste glória o que eu
sempre busquei,
uma mísera vitoria para
tudo que tanto
acreditei, porem,
perceba a demora,
a glória que outrora
desejei vieste agora,
e, embora tenha chegado,
não é mais do meu agrado
essa conquista que pertence
ao passado que já perdoei.

Eu, egoísta!

Um quase nada provecto,
convicto em busca do querer
o nada por ser diferente dos
que nada querem.
Sou inverso, o inverso dos
outros que em fuga da
realidade que são, fenecem.
Eu ascendo, sempre, mesmo
mastigando diariamente o fel
da minha tristeza incorruta,
ainda que da vida eu duvide
e muito quanto ao caráter da
sua sábia conduta.
Posso ser amargo,
pessimista, de humor difícil,
mas minha pessoa soa a todos
absoluta, e é por isso que insisto,
insuflo em o que já sou doses
diárias de mim mesmo e com
minha crença por aí vou,
desviando da saúde de todos
para que não contaminem minha
doença com suas máscaras de amor.

Quilhotina

Como calar a boca da cabeça,
como fazer parar de vociferar
um pouco que seja,
a razão e suas tolas certezas,
quem pode descansar com
tantas vozes a gritar a
problemática da vida,
alguém será capaz de suportar
esse blá blá blá em enfática
algaravia?
talvez seja descabida a ironia,
mas por que não decapitar,
só assim paz haveria.

Gabba Gabba Hey

Todas as minhas células,
todas numa roda punk
arterial, vermelho insano
por dentro, meu corpo,
é como o palco de um
grande festival e, se um
dia houve, hoje não mais
há pudores como um dia
foste então o habitual.
Aqui fora eu com minha
velha camiseta do Ramones,
numa sexta feira à noite
pronto para foder geral.

Silêncio Observador

Era gritante e, segundo a sua
estirpe, era nobre, instigador e
por muitas vezes elegante.
Num tom acima da melodia
do receio, fazia-se notar
por meio as suas recusas,
insistia em continuar como
de costume era, até porque,
o motivo de trajar os modos
que tinha sempre fora a
constatação que cedo teve
em perceber o quanto não
pertencia aos costumes e
modos alheios, abominava
quase tudo que vinha dos
agrupados, dos rebanhos,
os reses que atuam
rotineiramente como espelhos,
refletem a mesmice de outrem
mesmo sabendo que estes
também são plagiadores.
Amava o púlpito, a tribuna livre,
mas invariavelmente mantinha
consigo mesmo as suas exclamações,
pois sabia que o que tinha para
compartilhar soava aos ouvidos
alheios como impropérios oriundos
de devaneios.
Se oferecer ouro ao gado o gado
preferirá o cabresto, e o pasto
pisado e cagado para ruminar os
reflexos de atrofiados espelhos.
Ele era ele,
só ele,
tinha em si o ele verdadeiro que
de muito observar a multidão de
semelhantes sempre sentia-se
forasteiro.
Sentia-se imensamente feliz em
saber que não passava de si mesmo.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ermo

Rompido, o silêncio
i n d i s s o l ú v e l
fez se dissolvido
em miasmas.
Desfez se
reverberando o
quase inaudível
eco do nada.

Essa dor

À mim use amiúde
para o amor,
à mim basta a 
eternidade se assim
for, e que o tempo
se arraste com
imensa lentidão 
para onde for,
então dividiremos em
nossas almas essa
dádiva, essa lástima,
essa necessária dor.

Caos macio

Presto auxílio ao silêncio,
como bardo, impreco em
meu brado um caos macio,
suave e intenso, amargo.
É tenso ou quase,
só quem dá ouvidos a
poesia sabe, eu calo.

Eram poemas

Se foram os doentes os
inventores da medicina,
outrossim, foram os poetas
os responsáveis pela tristeza.
A solidão inventou minha vida
e por fim me encerrou
em sua fortaleza,
ali, eu risquei os primeiros traços
do silêncio, inventei-o em mim.
Eram poemas...
mas só tempos depois
foi que descobri.

Adiaphoría

Para com a vida, adiaforia.
Há dias a mesma adia a
minha alforria, não falo da
morte, essa ávida vadia,
falo da minha proposta,
do modo como eu quero
levar a vida, do meu jeito,
da minha poesia.
Pois o meu destino desde
menino, para comigo
ardia em adiaforia.

Avante

Ócio aos ossos,
descanso ao cálcio,
ao passo que cada
passo dado o conduz
ao fracasso.

Deduz os olhos
ao observar um
horizonte em
diáspora...

Diástole do verso!

Enquanto magro o
corpo, as derrotas
engordam e engordam.

Mas algo o invade,
é uma vontade de
nunca parar,
e então ele brada:

— Adiante...adiante ou morte!


Reciprocidade Estelar

Há sobre a terra a
sombra do céu,
assombra e assoma
quem vive neste solo
sob este véu.

Há sobre a Terra a
infinita incerteza
acerca desses céus:

Há bilhões de possibilidades
dessa tristeza não ser única e,
como não sou astronauta,
fico aqui a olhar para as
estrelas imaginando alguma
existência recíproca.

Duas Marias

A luz ilumina e cega,
depende o lado que estas.
Sempre sonhei em voar,
mas a altura me causa
vertigem, me indispõe
imaginar.

Amo o solo e a noite
escura...o luar.

muitos querem ser Jesus,
outros pensam ser a virgem,
o meu dilema é saber se sou
Judas, Barrabás e Madalena
idem.

Impoética

Hipotética,
é o que és como
musa, tua beleza
comum é tão
comum que abusa,
e teu rosto entre
retratos escrotos
figura como mais
um entre aqueles
que tanto assusta.
Impoética,
tenho minha inspiração
maculada por tua
existência vaga,
és brochante, tua
presença amolece minha
inflexão poética e,
nesse instante, se eu
tivesse que dizer te
algo, eu diria:
— Vá a merda, oh dama
estúpida e, se achas que
um dia será poesia,
eu lhe asseguro o contrario,
jamais doravante.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Sal do céu

À ti, antípoda da gloria e da
virtude, meu coração repulsa,
pulsa friamente e repulsa
outra vez, expulsa a figura
suja do amor como quem
escarra violentamente na fuça
ordinária de um opressor.

Á ti amor, faço esses versos
à ferro, forjo-os num fogo
mais primitivo do que as chamas
que ardem no inferno. Faço-os
para ferirem e com isso mostro
que algo me ensinastes, me mostrou
o desenho da dor e sobre a planta
foste incansável, quase um sábio
em me fazer ser doutor na arte de
afligir e de destilar escárnio.

Amor que nunca foi o bastante,
que nunca veio e que já foste,
que tão depressa foi embora e
que nunca cessa a espera à tua
demora para aqueles que amaldiçoou
a alma a vida, em tua memória.

Incognoscível é tua sina e tua
condição em banditismo é dolosa,
gostas de ser cruel e tua essência
tem muito de profano humano e de
divino há só sal do céu.

Punhal e Machado

O que sou eu,
um monstro, um caos,
um deus, um nenúfar,
um punhal,

Um Homem, a ordem,
um incógnita, uma rã,
uma ferida mortal?

Sou o que penso ser
desde que seja meu
esse absoluto querer:

Uma quimera, uma novidade,
um prodígio, um vassalo
de contradições.

Um Nietzsche, um Machado,
um Hitler, um ninguém,
um Pascal. 

Deus eu do apocalipse

Fiz um pacto com o diabo
e ele me concedeu um desejo.
Eu lhe falei que gostaria de
ser deus por um segundo.
Ele achou estranho meu pedido
e me perguntou o que eu faria
com todo o poder de deus em
apenas um segundo.
Eu lhe respondi que este tempo
basta para eu acabar com este
mísero mundo.

Vera Efígie

Minha’lma n’agua,
sobre esta, maculada e
rubra, se olha indefesa
e em lágrimas murmura
todas suas incertezas diante
da mesma água turva.

Minha figura rasa,
em brasas, queima a água
de púrpura calma,
leva meu sangue por
onde corre,
escorre sem estanque.

É a alma que chora,
discorre sua dor e nesse
instante o que ali se
afoga é o rubor do
interno fogo que aflora,
desafoga o último
lume de vida que resta
indo os olhos ao
horizonte para a derradeira
aurora, ao entender que
nasce o dia, morre, para na
eternidade fazer-se
senhora.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Lucy Fernanda

Trazia o próprio diabo no nome,
não me atreveria a dizer que era má,
mas muito justo é afirmar que não era
santa. Tinha a paixão por aventuras
que consome a pureza de qualquer dama.
Era bela, fogosa, provocante, fazia-se
notar por onde passava através de
seu sorriso encenado, os lábios
entreabriam-se para mostrar seus
alvos dentes brilhantes, de um esmalte
quase espelhado, o riso preso à boca
era quase sempre de escárnio,
dizem que desdenhava de todos apenas
por diversão, outros afirmavam que não
gostava de ninguém e que era senhora
absoluta e até tirânica do seu coração.
Alguns rapazes que já haviam lhe servido
de presa, os que não haviam enlouquecido
ou se matado, eram enamorados perpétuos,
mas todos infelizes e desprezados.
Dizia ela que o amor é uma fraqueza da
alma, e que só os espíritos fracos e baixos
é que se deixam levar por esse sentimento
tão medíocre. Ela não, era mais que uma
hedonista, era devota assídua dos prazeres
da carne, dos vícios e de toda a sorte de
pecados, dos mais leves aos mais sujos
e sórdidos. Religião para ela era o câncer
do mundo, mas se divertia sabendo que povos
e mais povos matam e morrem em nome
de Deus. Deus em sua concepção era nada
mais que uma bruma inerte e abstrata,
nada significava para ela. Aliás, nada no
mundo importava a não ser ela mesmo e sua
figura admirada. Narcisista, egoísta, prepotente,
arrogante, etc. Era possuidora dos mais vis
títulos que possam ser atribuídos a alguém.
Era arrasadora com o olhar, persuasiva com
as palavras, encantadora com os gestos e modos,
era a dissimulação em pessoa. Seu corpo era de
uma vênus de fogo que poucos escolhidos tiveram
o prazer de nele se queimar. Seu corpo jamais
poderia ser esculpido no mármore, pois a fria
pedra não representaria dignamente os ardentes
contornos do seu talhe. Se poesia lhe fosse feita,
nem Baudelaire nem Bocage, quem sabe Byron
compusesse versos que mais se assemelhassem  a
sua perigosa beleza. Alguns admiradores a
mandavam versos que ela recebia com desdem e
nem sequer os lia, dizendo que não se dava para
coisas tão insignificantes. Não era amante das
artes, não admirava a natureza,
as estrelas, o luar. Nada alem dela e de seus
maquiavélicos interesses recebia a sua atenção.
Diziam que não era merecedora nem do paraíso
nem do inferno, e se passasse pelo purgatório
corromperia todos que ali jazem esperando
anistia. Mas para onde iria então essa alma
meio mulher e meio diaba?
Ao certo para onde ela desejasse, desde que lá
pudesse ser rainha, déspota, e que houvesse quem
à admirasse e prestasse juras à sua postura malévola,
à sua beleza profana e pérfida.
O que sabemos é que assim viveu Lucy Fernanda,
sempre faceira, feliz e intrépida.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Ne’old

Clássico, tradicional,
anarco apologista do
meu ideal, solidário
a todos e a todo coletivo,
individual.
Roquenrou por excelência,
como Beethoven,
Tiradentes, Van Gogh,
como Raulzito foi e
como sou, sou só eu
mesmo, assim, como os
outros, original.
Asceta imanente em
transcendência,
aventureiro da observância
social, radical aos esportes,
sedentário assaz ativo ao
que toca o meu normal.
Leitor assíduo de velhos
livros, amante do papel.
Egoísta à máxima culpa,
mas que me desculpe o
egoísmo quando eu altruísta
saio do meu habitual.
Fumante inveterado, nem
tanto, entre fumaças de
cachimbos e cannabis
um pensador incessante,
entretanto, médio intelectual.
Chato, briguento e,
em meus porres,
encontro sempre algo de
especial. Amo o álcool,
etéreo, eterno no tocante
quanto a mais e mais doses
em meu organismo ultraliberal.
Revolução é para
tolos e somos todos tão bobos
quando fugimos do novo
em apego ao passado original.
Sou tolo, tolo em potencial.
Amante da vida,
sem compromisso,
como amo as prostitutas e
seu preciosíssimo serviço.
Apreciador de todas as fêmeas,
e apaixonado por uma só dama,
uma só, a mesma de sempre,
minha eterna sempre e mesma
Mariana.
Sou velha escola,
daquelas da escolha duma
aprendizagem que sempre
eleva a alma.
Já fui herói quando criança,
já fui junkie em incontáveis
madrugadas, hoje nada mais
me alcança, estacionei em meu
posto de punk e punk sou,
punk soul and my heart also.
Niilista,
sofista,
filósofo.
Ateu em dias ímpares e,
nos dias pares,
para o diabo com deus,
para o diabo com o diabo
quando acredito e muito,
do meu jeito,
em meu deus.
Tudo sou, nada tenho,
tenho eu, minha família
e impessoal respeito ao
que me cerca, ao alheio.
Sou velho,
um novo velho
quebrando espelhos.

E no final o que me resta
é ser poeta,
poeta raso em
profundo desassossego.


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Tentativa

Seria um belo voo,
ainda que durasse
apenas vinte e quatro
horas. Mas ao querer
ser borboleta, morri
crisálida, ao querer
ter asas, consegui um
sarcófago. Mas seria,
sem dúvida nenhuma,
um belo voo.

Calendário Viciado

No começo era só um mau humor
que me acompanhava,
mas esse mau humor nunca ia
embora. Então eu pensava que era
só mais um dia ruim,
mas no outro o mau humor persistia
e esse também era um dia ruim
assim como a semana toda, e então
eram semanas ruins. Mas eu me
consolava dizendo comigo mesmo
que aquele era na verdade um
mês ruim, mas o mês não acabava
nunca e era ele todo ruim,
dia por dia, semana após semana.
Mas, contudo, o mês acabava,
e o próximo era tão ruim quanto
o anterior, e o que vinha a seguir
era pior ainda e assim consecutivamente.
Demorei muito para perceber que
não eram os dias ruins,
nem as semanas, os meses, os anos...
e nem era meu humor cabisbaixo
que definia o rumo das coisas na
minha existência. A vida é que é ruim
e mau humorada, e por mais perseverante
que eu seja, nunca conseguirei ser maior
que a sua persistência em me fazer ser
um nada. 

Suicídio

Numa conversa franca e
sincera comigo mesmo,
eu me expus demais e também
fiquei sabendo de coisas
que'u não fazia ideia.
Por me expor demais
acho que terei de matar
meu interlocutor,
uma vez que,
pelo mesmo motivo,
ele pensa em fazer o
mesmo comigo.

Inverno Viver

Vivo de verso em verso...ou inverso,
sonhar...penso, existo logo...sou breve,
viver.

Frágil é a vida que meu
coração regula, o tempo todo,
a cada batida, no desespero,
no sufoco, a toda batida.
À toa batia,
dura e fria, a vida,
frígida, cínica, no dia a dia,
o tempo todo ao todo é ela
toda vazia. A tola vadia.

Penso de verso em verso,
é inverno...viver,
vivo, existo logo...tão breve,
sonhar.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Fênix Fail

Minha cabeça em caos,
mal duma cáustica calma,
insuportável condição
inabalada da alma,
pois nada é mais destrutivo
do que a incapacidade de
não poder, se preciso,
auto destruir-se e,
assim, edificar um novo eu.

Manhãs de um Vampiro

Atire a primeira pedra
quem nunca atirou.
Ame a vida ou deteste-a
quem nunca a odiou.
Seja sincero as veras
quando omitir a verdade
para a verdade que já te
enganou. Fuja da dor
as pressas, para um amor
que já te furtou.
Faça da vida uma festa,
na ressaca moral que ela
já te causou. Se mate agora
ou espera, por um novo dia
que já começou.
Não há esperança para essa,
nem para as outras
madrugadas, pois à elas
o sol das manhãs ira
se impor.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Caos Grafia

Dizem que todos eram versos punks,
embora muitas vezes,
de tão soturnos mais se
assemelhavam ao aspecto gótico,
mas eram góticos também,
eram hippies, revolucionários,
apatridos, endêmicos, longe
de qualquer Estado.
Viviam deste modo,
apenas desta maneira é
que respiravam.
Viviam em harmonia,
a pena buscava no sangue
do poema a essência primeira
da poesia, filtrava a verve e
descartava tudo o que não fosse
picardia, dessa maneira,
com calma e em caos grafia,
esboçava os primeiros traços
dos seus versos em rebeldia.
Não há métrica que caiba na
liberdade poética da própria poesia,
alias, é patética toda ideia que se
baseia em estética,
soa como as regras de
conduta de toda tirania,
obsoleta como os fundamentos
da sua própria filosofia decrepita.
Dizem que nunca mais foram
vistos por essas linhas,
agora habitam o universo
literário como escoria,
mas são a aurora de uma nova poesia.

Altíssimo

Veio hoje me incomodar o
cansaço da minha fé a velar
um deus moribundo que só
não está morto ainda devido
a dúvida quanto a sua existência.

Aquele que não existe não morre...,
mas perece aquele que não
acredita no altíssimo,
eu duvido com calma e
creio nele com todo o
m e d o  de  a l t u r a
(mesmo centímetros)
que tem minha alma.

Solitude

Só, tu, solidão,
por que te aflige a multidão?
São todos seres sozinhos
amontoados uns sobre os
outros, uns carregando nos
ombros o peso da medíocre
existência de outros e tantos
mesmos dão de ombro para
a singular presença de
cada um.

Só tu, solidão, que não
consegue perceber,
eles não precisam de você,
são monstros que temem
a própria essência e por
isso fogem de estar só,
apenas entre outros monstros
semelhantes é que conseguem
dissimular, fugir daquilo que
são e, quando agrupados,
simulam o que não são
para depois acreditar em
si mesmos. Ilusão!

Não passam de inventores
falsos que podem,
nesta vida estúpida,
serem tudo,
menos a falsa invenção.

Viu só, solidão,
não te aflijas,
pior que tua companhia
é não poder,
quando preciso,
lhe acompanhar.

Versos Fátuos

Tristes versos livres,
lívidos, mas não densos
como o chumbo, são
ímpios e etéreos como
a essência do mundo.
Possuem neles a matéria
daquilo do que o
universo é feito, são,
desse modo, por ora,
ainda muito incompreendidos.
Ao contrario do universo
não são infinitos,
são breves,
perecíveis em total
amplexo com tudo aquilo
que um dia morre,
mas que muito resiste.

Por isso são tristes,
por isso são nobres,
por isso são livres!

Sofreguidão

Presa aos lábios do
silêncio,
minha existência,
amarga e pálida.
Sempre foi quase e,
embora estoica,
sempre nada foste.
Seria solidão talvez,
mas nem mesmo só
pôde determinar a
sua tristeza uma
única vez.
Mas triste foi,
até o fim,
mas o fim não veio,
e quando foi o
fim procurar,
no caminho se perdeu
no meio, e desde então
está assim à se encontrar.
Mas ela ainda sorri,
um riso frio
(preso aos lábios do silêncio)
de desespero, de si
mesma a desdenhar.

Soneto Incompleto

Em uma gaveta esquecida
dentro da minha cabeça,
encontrei uma poesia
inacabada, amarelecida.
Deveria estar guardada
ali há muito tempo,
quem sabe até escondida.
Mas quem escondeu ou
guardou? sei que não
fui eu, pois lembro de
todos os versos meus,
uma vez escritos,
jamais esquecidos.
Os versos deste poema
eram estes:

"Oh triste dama iludida,
aceita meus pêsames
pelo, do teu amado, a
partida. Deixa-me tentar

amenizar a tua dor
e quem sabe assim,
musa arrependida, calar
esse teu pranto e se for

preciso lhe dar a minha
vida. Vê-la sofrer deixa
minha alma triste, doída."

Como pode ver, falta desse
soneto a última parte,
o último terceto, o arremate.
Quem escreveu e o deixou
inacabado e, por que estava
dentro da minha cabeça em
uma gaveta velha, guardado?
À quem se refere esse soneto,
à uma musa imaginária ou
houve mesmo essa dama em
algum momento, merecedora
do apreço desse autor canalha?
Não serei inútil como esse poeta
desconhecido, esse intruso que
se meteu em minha cabeça para
esconder alguns versos seus
inacabados, terminarei esse
soneto, mas darei a ele o fim que
eu achar apropriado, serei fiel
ao enredo dado e farei assim
esse último terceto:

...Veja como cravo esse punhal
em meu peito, pois para não vê-la
sofrer, abro nele uma mortal ferida.

Pronto! não há mais poema
incompleto. Findo o soneto,
a poesia escondida, assassinando
o poeta apócrifo.

Cicatrizes

O amor empírico deixa
feridas obvias,
maviosas, sobras de um
sentimento que passou,
mas tais cicatrizes são
a gloria honrosa,
nessa vida,
de alguém que já amou. 

O drama do louco poeta sem alma da triste figura

Era noite. A escuridão aludia
a um frio que quase não
existia, mas estava lá, em sua
alma, cortante como a lâmina
da foice da morte que ceifa
as vidas que para ela nunca são
o bastante, nunca a acalmam.
Era outono. Ou sempre fora,
nunca conseguira existir em
outra estação, mas no outono
sempre conseguia supor e imaginar
que talvez nele pudesse realmente
habitar, sua existência sempre
foi suposição.
Era poeta. Desses libertinos
audazes que desenham versos
sem métrica, por mais talento
que tivesse nunca obtivera
sucesso e sua poesia só era lida
pelo desprezo que para com ele
tinha profunda empatia e apreço,
ou tivera. Sua pena desdenhava
das palavras dos detratores,
desenhava poemas cada vez mais
enraizados naquilo que desagradava
seus algozes e censores. Dentro do
caldeirão desses senhores, onde
ferve a sopa de mil sabores,
ela buscava o caldo que alimentava
sua verve para nutri-la com o
mesmo veneno e assim torna-la
imune aos alheios desesperos e
dissabores. Era uma pena digna de
ser empunhada pelo mais nobre poeta,
mas sobre nobres poetas só há rumores.
Esta pertencia ao poeta da triste figura,
um ser inquieto, quase fantástico,
dono de um lirismo que satura,
ora abstrato ora profético, reflexo
soturno da sua alma impura,
maculada pelo destino num
traiçoeiro amplexo de vil ternura.
Era um pacto. O poeta empenhorara
sua alma ao destino em troca de
inesgotável inspiração, quando lhe
cansasse a fonte das idéias o poeta
resgatava sua alma e dedicaria
todos os versos escritos nesse período
ao destino com respeito e admiração.
Mas não sabia o poeta que a verdadeira
inspiração vem justamente da alma e a
válvula que regula o fluxo é o
conselheiro coração. Desde então
enlouquecera por não conseguir dar
vazão as idéias que pululam sua mente,
por não conseguir transformar em poemas
tantos pensamentos que surgem
incessantemente. A sua infinita inspiração
o transformou em um morto vivo,
em um poeta sem alma enganado pelo
destino por ser ingênuo em sua ambição.

Cegos surdos e mudos

Em terra de cegos
aquele que se sente
sendo observado é
poeta.

Em terra de surdos
aquele que emudece
o silêncio é poeta.

Em terra de mudos
aquele que conhece
o sabor das consoantes
servidas em meio as
vogais num fonema
é poeta.

Em terra de poetas
aquele que orienta
seus versos apenas
pela métrica é
cego, surdo e mudo.

Dolo e Ardor

Dá pena ver o amor
sofrendo tanto por nós.
Que culpa ele tem de
querer nos ver juntos
e assim se encontrar?

É triste saber o quanto
ele se perdeu.
Dá pena vê-lo se
sentindo culpado,
enquanto nós como
casal apaixonado,
nunca aconteceu.

Na certa ficaria
mais triste em saber
que desde o princípio
(com dolo e ardor)
nós sempre desejamos
luxúria e prazer.

Tolo amor,
quando em sua
misteriosa existência
irá enfim aprender?



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Depois de Cristo

Depois de Cristo, todos nós,
filhos bastardos da cruz e do
cristianismo atroz.
Nós que temos vivido sob a
tirânica proteção divina,
nós que somos todos grãos
de areia de uma ampulheta
cretina, a vida. Não negada
simplesmente, mas vista e
vivida, amargamente. Somos
o resultado do devido devir
que se deu durante todo esse
tempo depois de Cristo.
Nós somos o legado de Cristo,
e a única coisa que não
sabemos é amar. O amor de
Cristo morreu com Cristo,
o que nos restou é o
sentimento genérico do
cristianismo, o amor sintético
do miserável catolicismo.
Não há liberdade no amar,
há dogmas;
 Não há liberdade no viver,
há pecados, culpa.
Não há nada mais inerente
ao Homem que o livre arbítrio,
e o cristianismo insiste,
arbitrariamente, em afirmar que é
à ele que se dá a patente de
toda essa liberdade natural.
O sim e o não pode até vir
de Deus, mas o talvez é a nossa
única arma em toda essa
pertubação chamada cristianismo,
chamada religião.
Liberdade é a presciência humana,
não vem de Deus, basta existir.
Ao invés de religião, Cristo
errou em não disseminar suas
idéias em forma de dissidência das
ordens do seu pai. Hoje,
seríamos pai também, e não
impotentes irmãos.  

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Silêncio meu

Para induzir o silêncio ao grito,
a vida ávida, ora ora, ora não,
para o deus do adeus em apelação
pela ação que discorreu eu para
retornar do seu brado ao
silêncio meu.

Quinta feira

Há cigarros para o
café da manhã,
um copo de Whisky
sem gelo e, depois de
alguns escarros, que
esse seja um bom
dia para esperar por
amanhã.

Insane Scene

Densa tênue
tensa em transe
suave, plena.

Transa o instante
intensa insana,
dança ao cio

sobre o lábio
frio da lamina.

Minha poesia como
amante quando ela
se veste de dama.

O Suicida do Crepúsculo

Ele queria morrer vendo o sol
se pondo, queria a morte como
vontade sua, queria ser o senhor
do seu momento, não queria a
vida de novo a sua vontade lhe
impondo.
Ele queria morrer no outono,
ao fim de um entardecer
qualquer que ele escolhesse
como perfeito para o seu
abandono.
Vivia ele num mundo fantástico,
onde tudo possível era desde que
se desejasse com muito ardor
realiza-lo, do drama à comédia
do romance à tragédia, cada ato.
A vida para com ele nunca havia
sido boa, tinha saúde mas não
tinha amigos, não tinha esposa,
vivia sozinho não porque queria,
mas porque a vida sempre assim
quisera, era ela de novo lhe impondo
as suas regras.
Quando ficava deprimido costumava
subir até a lua, de lá olhava para a
Terra e dizia que toda a sua tristeza
estava lá embaixo, mas não era verdade,
ele era a sua tristeza e a tristeza era o
espelho que o revelava cada vez mais
cabisbaixo. Chegaria um dia onde não
poderia mais ver a lua, pois já estava
tropeçando com seu olhar em seus passos.
Então decidiu que havia chegado o
momento. Na manhã do seu derradeiro dia
procurou a árvore que mais lhe agradava,
que mais lhe trazia alento, e no instante que
a encontrou percebeu que ela era perfeita,
pois era também a mais próxima do
horizonte, o sol desceria por ali, e assim,
aquela árvore foi a eleita. Trazia consigo
uma corda e uma roldana, fixou a roldana
no galho mais alto da árvore, e na corda
numa ponta fez um laço e na outra fez a
forca, passou a ponta do laço pela roldana
e colocou a forca em seu pescoço, sentou
e aguardou o sol começar sua descida.
Nesse ínterim ficou a pensar sobre sua
amarga existência, que o seu fim daquele
modo ia do paradoxo à ironia, pois em
sua vida cinzenta nunca se sentiu
iluminado e para a sua morte escolhera
o sol como carrasco, o astro que tudo
alumia. O sol começava a sua descida
para o oeste, parecia que sabia do plano,
descia triste e nesse dia era cinza as suas vestes.
Quando chegou na altura exata, ele sem
muita dificuldade laçou o sol e apertou bem
forte para que não escapasse a corda da
cintura do astro rei, ficou de pé sobre o galho
e apertou a forca em sua garganta, 'ta tudo
certo como imaginei', pensou. Inspirava
confiança. A corda começou a esticar,
seus olhos lacrimosos viam o horizonte
a tremular, tinha uma imagem úmida do sol,
começou a sufocar, seus pés não sentiam
mais o galho, estava suspenso, debatia-se
involuntariamente, havia chegado a hora,
estava morrendo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Natimorto

A placenta viscosa,
uma liquida e gelatinosa
mortalha.
O útero como túmulo,
violado inopinadamente
para desenterrar do ventre
o feto defunto.
A barriga, o jazigo,
tantas vezes abrigo
de lombrigas, desta vez
incapaz de abrigar
humana vida.
A vagina, sedenta por sêmen,
sugou num único gole
a semente e,
desta faminta ingrata,
colhe a mãe iludida
um fruto podre.

Cruzfixa

Era uma cruz,
me revelou um devaneio
onírico, singularíssimo,
pois lembro muito bem
que eu não estava
dormindo, porem estava
ébrio.

Era uma cruz em meu peito,
sob meu peito,
por entre minha carne,
alojada dentro da minha
caixa torácica

Era uma cruz servindo ao
meu coração como lápide
da última morada.

Sim, desgraçados,
eu pude ver e sentir,
e sinto ainda agora,
o meu coração havia sido
crucificado e, não bate
mais, como outrora.

Foi o amor vil que o crucificou!
o salvador...o salvador...
o amar!

Pregou meu coração
em seu símbolo para
eu nunca esquecer
por quem ele deve
a partir de agora,
pulsar.


Altissonante

Há uma ferida aberta
no céu da boca do
meu coração.

Esta ferida é a chaga
que deixou o amor que
entrou em meu peito

como um sussurro e
saiu como um 'palavão'.

Há uma ferida aberta
no céu da boca do
meu coração.

És a chaga perpétua
que tão solícito a abrigou
meu coração.

Entrou como um nobre e
altíssimo silencio e saiu
vulgar como palavra de baixo

calão.

Joaquim Maria

Quisera eu não a tua gloria,
cortejada em vida e feita
eterna, póstuma.

Quisera eu não o teu talento,
nato e único e digno
apenas de tua pena e dos

teus lamentos.

Quisera eu não ser como tu,
não sou apto a ser nada mais
que eu mesmo, nada mais que um.

Tu foste vários,
poeta, romancista, teatrólogo...
foste todos num.

Queria eu apenas dizer-te,
oh bruxo pouco e sábio assaz,
que em teus livros permita

Que meus olhos se deitem
para levantarem jamais.
Permita que seja deleite

a minha existência sobre tuas
páginas e que eu possa beber
das personagens que traz

todas as faltas e dádivas.

Queria que soubesse que és
meu único mestre, é o
horizonte que norteia minha

superfície vazia. sou grato por
tudo que teus versos me ensinaram,
me mostraram e inspiraram,

grande e eterno Joaquim Maria.